O TERCEIRO INVASOR: COMO O ALGORITMO NOS TREINA PARA O DESCARTE AFETIVO

Você conhece essa cena? Após uma discussão acalorada com o parceiro ou parceira, um dos membros do casal se retira para o sofá, isola-se e, em um gesto quase automático de autodefesa, saca o smartphone do bolso. O objetivo inicial é simples: “descongestionar”, buscar uma distração rápida, anestesiar o mal-estar imediato através do movimento hipnótico de deslizar o polegar pela tela.

Contudo, em poucos minutos de scroll, algo peculiar acontece. A tela começa a exibir uma enxurrada de vídeos curtos encenando dinâmicas de relacionamentos. Surgem listas rápidas elencando as chamadas red flags, discursos inflamados sobre amor-próprio que tangenciam o egoísmo e imperativos categóricos ditando que “você merece coisa melhor” ou que “quem ama não age assim”.

Em menos de meia hora, o sujeito que entrou na rede social apenas chateado sai dali munido de um diagnóstico definitivo: seu relacionamento ACABOU, seu parceiro é narcisista e a única saída digna é o término. O que parece ser uma revelação cósmica é, na verdade, a operação sutil de um terceiro elemento invisível que passou a mediar a intimidade humana. O amor contemporâneo está sofrendo a invasão de uma terceira presença: o algoritmo das redes de interesse.

Para compreendermos o tamanho do nó psíquico que essa dinâmica amarra, precisamos dar um passo atrás e analisar a escala da nossa capacidade de comparação. Antes da fratura digital provocada pelos smartphones, o ser humano possuía um núcleo restrito de espelhamento social. Comparávamos nossa vida conjugal, nossos conflitos e nossas alegrias com o microcosmo que nos cercava: os pais, os tios, os amigos de infância, o vizinho da rua ou o colega de trabalho.

E qual era o benefício disso? A proximidade nos permitia enxergar a totalidade dessas relações. Sabíamos que o casal de amigos da rua de baixo era muito unido, mas também sabíamos que eles enfrentavam dificuldades financeiras, que tinham dias de silêncio e que a convivência exigia costuras diárias. Havia lastro, imperfeição e, acima de tudo, concretude.

A internet subverteu essa lógica ao nos jogar em uma arena de comparação infinita. Passamos a comparar as nossas terças-feiras cinzentas, cheias de boletos, com os domingos ensolarados e editados de milhões de pessoas. A métrica de felicidade conjugal tornou-se flutuante, abstrata e inalcançável, gerando um sentimento crônico de que estamos sendo lesados na partilha do amor, de que o banquete do vizinho digital é sempre mais farto.

Essa insatisfação crônica serve como terreno fértil para a engenharia comportamental que sustenta as grandes plataformas de tecnologia. Os algoritmos atuais não são apenas matemáticos; eles são desenhados a partir da psicologia experimental do comportamento, utilizando mecanismos de condicionamento que operam diretamente no nosso sistema de recompensa. Quando o usuário entra na rede social sob o efeito do humor deprimido ou da raiva pós-discussão, o algoritmo lê o seu tempo de tela. Bastam dez ou quinze segundos a mais de retenção em um conteúdo sobre “sinais de que ele não te ama” para que a máquina compreenda o estado afetivo do sujeito.

A partir daí, entra em jogo o chamado Reforço Positivo. O algoritmo passa a entregar, em um ângulo de 360 graus, conteúdos que validam e alimentam aquele mal-estar específico. O sistema opera sob uma premissa mercantil simples: a validação gera engajamento. Raramente gostamos de ser contrariados ou de ouvir que estamos errados em uma discussão; o algoritmo sabe disso e funciona como um amigo complacente que diz: “Você tem toda a razão, o outro é o monstro da história”.

Por que não vemos o feed sugerir vídeos sobre reconciliação, sobre a arte de suportar o tédio a dois ou sobre a beleza de reparar uma fenda na convivência? Porque a reconstrução não engaja. O que explode em curtidas, comentários e compartilhamentos é a ruptura, a traição, a fofoca da separação dos famosos.

Essa captura tecnológica encontra seu encaixe perfeito na estrutura social que o sociólogo Zygmunt Bauman batizou de Modernidade Líquida. Vivemos sob o império da pós-modernidade, uma era caracterizada pela dissolução das grandes narrativas e pela flexibilização extrema das identidades e dos laços. O modelo econômico contemporâneo sobrevive graças à lógica da obsolescência programada: os objetos são produzidos para estragar em um período determinado, forçando o consumidor a descartar o antigo e adquirir o modelo mais novo.

O drama trágico da nossa época é que transpomos essa mentalidade industrial para a esfera dos afetos. Se o parceiro apresenta uma falha, um tédio ou uma divergência de opiniões, a sensibilidade líquida interpreta isso não como um chamado ao diálogo, mas como um defeito de fabricação. Afinal, a propaganda das redes nos convenceu de que o “próximo relacionamento ideal” está a apenas um clique de distância, a um mero swap para o lado no aplicativo de encontros.

O amor, por definição, é o avesso do algoritmo. O código digital é plano, raso, binário e busca o “mais do mesmo”, trancando o indivíduo em uma bolha narcísica onde só existe o espelho do próprio eu. O relacionamento real, por sua vez, é vertical, tridimensional e exige o confronto com a Falta.

Amar não é encontrar alguém que preencha um checklist idealizado de green flags. Nenhum ser humano real cabe em uma lista de internet. O amor é o encontro de duas singularidades inacabadas que decidem sustentar um projeto comum, apesar dos furos e das ambiguidades de cada um. Uma coisa é você repetir relacionamentos ruins devido a amarrações sintomáticas da sua própria história; outra coisa bem diferente é decretar que todo relacionamento é ruim porque ele não emula a fantasia vendida pelas telas.

Permanecer, dialogar, suportar a contrariedade do outro e ter a coragem de consertar o que quebrou virou um ato de rebeldia contra a pressa e a descartabilidade do mercado afetivo. A sua relação possui profundidade e história; o algoritmo possui apenas métricas de engajamento.

Sempre é tempo de fechar o aplicativo, deixar o telefone de lado, olhar olho no olho e desatar os nós com quem realmente importa.

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.

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