O “Globo” diz que ingressos eram para show de Taylor Swift em São Paulo; decisão do STF cita compra de bilhetes de R$ 63.339 pela REAG Investimentos para familiares do senador
A Polícia Federal citou a compra de ingressos para camarote em favor de familiares do senador Jaques Wagner (PT-BA) na investigação sobre relação ilícita entre gestores do Banco Master e o congressista. A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, afirma que os bilhetes foram comprados pela REAG Investimentos S.A. por R$ 63.339.
A decisão do STF não identifica a artista, mas registra que Augusto Ferreira Lima teria orientado a compra de ingressos em favor de familiares de Wagner em junho de 2023 e que, em novembro, o senador perguntou pelos “ingressos de sábado”, ocasião em que recebeu entradas para camarote e pediu a ampliação do número de ingressos para 5 pessoas.
Na decisão, Mendonça transcreve a resposta atribuída a Augusto: “Pronto amigo. Seguem os outros dois. Abs.”.
A colunista Malu Gaspar, do O Globo, afirmou que recebeu da PF informações de que os bilhetes citados na investigação eram para shows de Taylor Swift nos Estados Unidos e em São Paulo.
VOOS PRIVADOS
A PF afirma que Augusto Lima teria colocado uma aeronave particular à disposição de Wagner e de familiares para deslocamento entre Salvador e a chamada Ilha da Paixão, indicada na decisão como propriedade do banqueiro.
Segundo o despacho, as mensagens analisadas pela PF foram extraídas do aparelho de Augusto e teriam sido trocadas entre os dias 11 e 13 de outubro de 2023. Nessas conversas, os 2 teriam combinado encontro na ilha. Augusto também teria enviado ao senador o prefixo da aeronave e o horário do deslocamento.
A decisão diz ainda que a disponibilização de aeronaves privadas não teria sido episódio isolado. Em abril de 2024, Wagner teria solicitado a Augusto o contato de um piloto para deslocamento ao Rio de Janeiro.
Depois de uma chamada de voz, Augusto teria encaminhado ao senador o contato de “Breno Copiloto Banco”. Em seguida, segundo a PF, repassou ao piloto o contato de Wagner.
Para a PF, esses elementos indicam a relação de proximidade entre Augusto Lima e o senador.
OUTRO LADO
A defesa de Augusto Lima afirmou em nota que o cliente “sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública” (leia a íntegra abaixo).
O Poder360 procurou o senador Jaques Wagner para perguntar se gostaria de se manifestar sobre a operação da PF. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.
O Poder também tentou contato com os demais citados, mas não conseguiu localizar telefone ou endereço eletrônico válido para solicitar posicionamento. Este jornal digital seguirá tentando contato e atualizará este texto caso receba manifestações dos envolvidos.
Leia a íntegra da defesa de Augusto Lima:
“As diligências realizadas pela Polícia Federal nesta data eram desnecessárias, uma vez que Augusto Lima está há 6 meses à disposição das autoridades para esclarecer os fatos em apuração.
“De todo modo, as medidas contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos.
“Augusto Lima sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública.”
COMPLIANCE ZERO
As apurações sobre as fraudes no Banco Master estão no escopo da Compliance Zero, autorizada inicialmente pela 10ª Vara Federal de Brasília em novembro de 2025. A 1ª fase prendeu provisoriamente os principais executivos ligados à instituição liquidada pelo BC. Ainda em novembro, o TRF-1 autorizou o uso de tornozeleira eletrônica e o retorno dos investigados para casa.
O caso passou a tramitar no STF a partir de dezembro de 2025, sob o comando do ministro Dias Toffoli. Ele autorizou a 2ª fase em janeiro de 2026, mas deixou a relatoria em 12 de fevereiro. André Mendonça assumiu. Vorcaro voltou a ser preso no início de março. Está detido na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Ele entregou uma proposta de delação premiada, cuja análise por parte do ministro do Supremo deve levar semanas.
Eis as fases da operação:
- 1ª fase (18.nov.2025) – Daniel Vorcaro foi preso pela 1ª vez em 17 de novembro de 2025, um dia antes de a operação ser deflagrada. Ele tentava deixar o Brasil. A ação cumpriu 7 mandados de prisão e 25 de busca e apreensão em 4 Estados e no DF. O ex-banqueiro foi solto em 29 de novembro;
- 2ª fase (14.jan.2026) – a PF realizou buscas em endereços ligados a Vorcaro. Foram apreendidos carros, relógios e dinheiro. Os valores bloqueados ou sequestrados na ação superaram R$ 5,7 bilhões. Tinha o objetivo de apurar o uso de fundos fraudulentos para maquiar os caixas do Master. Leia as íntegras das decisões que autorizaram a operação;
- 3ª fase (4.mar.2026) – Vorcaro voltou a ser preso. De acordo com a PF, o ex-banqueiro tinha um grupo que intimidava adversários e pagava propina para 2 funcionários do BC. No mesmo dia, um homem que trabalhava para o fundador do Master tentou se matar enquanto estava sob a custódia da PF –ele morreu em 6 de março. Leia a íntegra da decisão que deu aval à ação;
- 4ª fase (16.abr.2026) – a operação da PF prendeu Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. É investigado por suspeita de permitir operações sem lastro com o Master. Segundo a Polícia Federal, Costa recebeu propina de Vorcaro em imóveis de luxo. Leia a íntegra da decisão que autorizou a ação;
- 5ª fase (7.mai.2026) – o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi alvo. A PF cita o pagamento de propina de Vorcaro para o congressista –que negou. O relator do Master no STF, ministro André Mendonça, disse que a relação entre o político e o ex-banqueiro “extrapola a amizade”. Houve o bloqueio de R$ 18,85 milhões. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação;
- 6ª fase (14.mai.2026) – foram cumpridos 7 mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em SP, MG e RJ. O pai de Vorcaro foi preso. Era ele quem articulava o grupo de intimidação e espionagem do ex-banqueiro, de acordo com a PF. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação;
- 7ª fase (19.mai.2026) – a PF deflagrou uma operação para apurar o vazamento de informações sigilosas ligadas ao Master. Mendonça mandou afastar um perito da corporação;
- 8ª fase (26.mai.2026) – o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) foi alvo de mandados de busca e apreensão. A ação apura a suspeita de crimes envolvendo o Master e o Rioprevidência. O total movimentado é de R$ 3 bilhões, segundo a PF. Leia a íntegra da decisão que autorizou a operação.
- 9ª fase (18.jun.2026) – o senador Jaques Wagner (PT-BA) foi alvo de medidas cautelares autorizadas por André Mendonça. O ministro proibiu o congressista de atuar com empresas ligadas ao caso Master e de falar com investigados, salvo exceções familiares.



