Novo método barateia produção de peça-chave para hidrogênio verde

Ânodo é feito de titânio e revestido com uma combinação de materiais que garante maior durabilidade e eficiência ao equipamento

Pesquisadores do Centro de Inovação em Novas Energias (CINE) criaram um método mais rápido e barato de fabricar uma peça-chave para a produção de hidrogênio. Chamada de ânodo, essa peça é usada dentro dos eletrolisadores – máquinas que “quebram” as moléculas de água para extrair o hidrogênio. Durante esse processo, o ânodo funciona como a parte do equipamento por onde o oxigênio é separado e liberado.

A etapa de liberação do oxigênio exige muita energia, mas é essencial. É durante esse processo que surgem os elétrons e prótons necessários para que o hidrogênio seja formado na outra ponta do equipamento, em uma peça chamada cátodo. Para diminuir o gasto de energia, os cientistas aplicam no ânodo materiais chamados catalisadores, que funcionam como facilitadores da reação. Quanto melhor for esse catalisador, menos energia a máquina vai consumir, tornando a produção do hidrogênio mais barata e ainda mais ecológica.

O ânodo desenvolvido neste novo trabalho consiste em um substrato de titânio revestido com um filme fino de óxidos de rutênio e manganês – uma combinação de materiais que garante alta atividade catalítica e durabilidade. Para chegar à melhor “receita” do material, a equipe testou diversas proporções de óxidos e 3 técnicas de tratamento térmico (em forno convencional, em micro-ondas e por laser), analisando o impacto das diferentes opções nas propriedades e no desempenho dos ânodos obtidos.

Os detalhes foram descritos em março no periódico científico Electrochimica Acta.

Os experimentos comprovaram que os métodos alternativos (micro-ondas e laser) reduzem drasticamente o tempo de fabricação, resultando em menor consumo energético e, consequentemente, na redução dos custos de produção dos ânodos. Além disso, o estudo provou que essas técnicas de aquecimento geram ânodos mais ativos para a etapa de liberação de oxigênio.

“A principal contribuição do estudo foi demonstrar que o método de aquecimento utilizado na síntese desses ânodos exerce forte influência sobre suas propriedades estruturais, morfológicas e eletrocatalíticas”, diz o professor da UFSCar Elton Sitta, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pesquisador do CINE que liderou o trabalho.

Teste em água do mar

Os ânodos foram avaliados em 2 contextos que exigem catalisadores muito estáveis e ativos. Inicialmente, foram testados em condições semelhantes às encontradas em eletrolisadores do tipo PEM (sigla de Proton Exchange Membrane), que é uma das tecnologias mais promissoras para a produção de hidrogênio de baixo carbono.

Posteriormente, foram feitos testes em água do mar – estratégia oportuna por evitar o consumo de água potável e aproveitar um recurso muito abundante no planeta.

“Os resultados mostraram que os filmes obtidos pelos métodos de micro-ondas e laser apresentam características particularmente interessantes para aplicações futuras em eletrolisadores que operam em meio ácido e de água do mar”, declara Sitta.

O trabalho reuniu grupos de pesquisa da UFSCar e da Universidade Tiradentes (Unit), em Sergipe. A parceria permitiu combinar competências complementares que viabilizaram a realização de um estudo abrangente, contemplando desde a preparação dos materiais até a investigação detalhada de suas propriedades e sua aplicação em condições reais.

“Esse tipo de colaboração fortalece a pesquisa nacional e contribui para o desenvolvimento de tecnologias mais eficientes e sustentáveis para a produção de hidrogênio verde”, destaca Isabelle M.D. Gonzaga, pesquisadora de pós-doutorado do CINE e 1ª autora do artigo.

De acordo com Sitta, as técnicas alternativas utilizadas no trabalho têm potencial para tornar a fabricação de ânodos mais rápida, eficiente e economicamente competitiva.

“Do ponto de vista industrial, o aquecimento por micro-ondas parece ser a alternativa mais facilmente adaptável para produção em larga escala, enquanto o uso de laser pode ser especialmente interessante em processos automatizados e contínuos de fabricação de eletrodos [ânodos]”, disse.


Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 30 de junho de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.


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