Documento apresentado ao Escritório do Representante de Comércio dos EUA inclui a redução de tarifas; Pix e temas políticos estão fora da mesa de negociação
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apresentou aos Estados Unidos nesta 5ª feira (2.jul.2026) um “mapa do caminho” para orientar as negociações sobre a investigação comercial aberta pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA, na sigla em inglês). A proposta visa a evitar a aplicação da tarifa de 25% anunciada por Washington sobre produtos brasileiros.
O plano de ação foi entregue em reunião entre o ministro Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) com o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer. O conteúdo integral da proposta permanece sob sigilo.
O documento reúne medidas que, na avaliação do governo, respondem aos pontos levantados pelo USTR sem comprometer interesses considerados estratégicos para o Brasil. Entre elas, está a possibilidade de reduzir tarifas de importação em cerca de 300 linhas de produtos. Há o cuidado para que a medida respeite as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio).
Segundo o governo, as reduções tarifárias se concentram em setores nos quais o Brasil tem pouca produção nacional, como máquinas, equipamentos e tecnologia da informação. A avaliação é que essas áreas permitiriam ampliar o acesso de produtos norte-americanos ao mercado brasileiro sem prejudicar a indústria nacional.
Alguns temas seguem fora da negociação: Pix e questões relacionadas à política interna brasileira, por exemplo. A orientação é manter as conversas restritas à área comercial, sem abrir espaço para discussões sobre decisões do Judiciário ou integrantes da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PT).
O documento também tem medidas para demonstrar que as políticas investigadas pelos Estados Unidos não provoquem distorções comerciais nem discriminem empresas norte-americanas.
NOVA REUNIÃO A VISTA
As autoridades brasileira e norte-americana chegaram à conclusão de que será necessário mais tempo para detalhar as propostas e aproximar posições. As equipes técnicas voltarão a se reunir no início da próxima semana. Mais um encontro está estimado para até 15 de julho, data em que o presidente dos EUA, Donald Trump (Partido Republicano), decidirá se aplicará ou não as sanções.
“Na reunião de hoje, seguimos debatendo as Relações Econômico-Comerciais entre Brasil e Estados Unidos, contemplando analise concretas para os seis temas suscitados no contexto das investigações em curso no âmbito da Seção 301: comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal”, disse o ministro Márcio Elias em nota.
Eis a íntegra do comunicado:
“Nesta manhã (2 de julho), acompanhado de equipes do Ministério das Relações Exteriores e da Assessoria Especial do Presidente da República, além da equipe do MDIC, mantive minha 4ª reunião de alto nível com o Representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
“As reuniões anteriores aconteceram nos dias 19 e 28 de maio e 13 de junho e foram intercaladas de outros encontros no nível técnico.
“Esse esforço atende à determinação emanada do encontro dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em 7 de maio, de encontrar solução negociada para o comércio bilateral.
“Na reunião de hoje, seguimos debatendo as Relações Econômico-Comerciais entre Brasil e Estados Unidos, contemplando analise concretas para os seis temas suscitados no contexto das investigações em curso no âmbito da Seção 301: comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
“Ambos reconhecemos que o diálogo tem sido construtivo e que mais tempo será preciso para detalhar propostas e aproximar posições. Nesse sentido, determinamos que nossas equipes técnicas se reúnam no início da próxima semana, em preparação para nova reunião de alto nível antes de 15 de julho.”
AS TARIFAS
O USTR apresentou as propostas para a taxação nos dias 1º e 2 de junho de 2026. São elas:
- 25% – por práticas desleais de comércio. É resultado de uma investigação comercial aberta contra o Brasil em 15 de julho de 2025;
- 12,5% – por falta de restrição à importação de produtos feitos com trabalho forçado análogo à escravidão. É resultado de uma investigação global da USTR sobre o tema.

As tarifas ainda não estão em vigor. Primeiro, o governo norte-americano abriu uma consulta pública sobre o caso brasileiro, que receberá manifestações até 6 de julho. No dia seguinte (7.jul), será feita uma audiência. Em 15 de julho, Trump vai decidir sobre as sanções.
FLÁVIO INTERESSADO
O senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), está inscrito para participar da audiência pública. Segundo o documento apresentado para a inscrição, Flávio deve pedir a suspensão do tarifaço e propor uma “resolução construtiva e negociada das questões identificadas na investigação”. Leia a íntegra (PDF – 160 KB).
Na 4ª feira (1º.jul.2026), o gabinete do congressista enviou ao USTR um documento afirmando que a aplicação das tarifas daria uma vitória política a Lula. Eis a íntegra em inglês (PDF – 2 MB).
Desde o anúncio das tarifas, Lula tem rebatido os motivos apresentados pelos Estados Unidos. Chegou a dizer que o governo norte-americano “mente” para taxar o Brasil.
A avaliação no governo é de que a manifestação enviada por Flávio ao USTR tem como principal objetivo o público brasileiro, mais do que autoridades norte-americanas. A leitura no Planalto é que o documento busca reforçar a narrativa de que o congressista atuou para defender o Brasil nas negociações com os EUA.



