Capital teve 27 chefes de governo desde 1960; apenas 7 foram eleitos por voto direto
A administração da capital federal passou por 27 chefes de governo desde sua inauguração, em 21 de abril de 1960. Nesses 66 anos de história, apenas 10 governadores foram eleitos pelo voto popular e somente 2 pertenciam ao campo político da esquerda –os outros 8 transitavam entre centro e direita.
A trajetória do Distrito Federal é dividida em: 10 prefeitos nomeados pelo Presidente da República até 1969; 7 governadores “biônicos” nomeados pelo regime militar e, com o fim da ditadura, pelo ex-presidente José Sarney (MDB), entre 1969 e 1990; e, por fim, os governadores escolhidos por voto direto.
Desde 1991, quando Brasília elegeu seu 1º governador, apenas 3 nomes da esquerda chegaram a liderar o Palácio do Buriti: Cristovam Buarque (1995–1999) e Agnelo Queiroz (2011–2015), ambos do PT, e Rodrigo Rollemberg (2015-2019), do PSB – sendo o PSB do campo político da centro-esquerda.

Intertítulo
O ex-governador Joaquim Roriz participou de 2 momentos diferentes da história de Brasília: foi o penúltimo governador nomeado pela Presidência (1988-1990) e também tornou-se o 1º eleito diretamente pelo povo. Em sua gestão, uniu o desenvolvimento físico da cidade a um assistencialismo de massas.
O “rorizismo” dominou a política local por quase duas décadas, sendo interrompido apenas por breves janelas da esquerda, como a de Cristovam Buarque (PT). Na época, Cristovam tentou implementar um modelo focado em educação e ética, mas acabou derrotado por Roriz na eleição em que tentou se reeleger.
A última passagem de Roriz pelo governo chegou ao fim em 2006. No ano seguinte veio a posse de José Roberto Arruda (DEM), que teve o mandato interrompido em 2010 em razão da Operação Caixa de Pandora, deflagrada em 2009.
Segundo as investigações, Arruda liderava uma organização criminosa voltada ao desvio de recursos públicos no DF. Depois dele, Brasília teve outros 2 governadores interinos até 2010: Paulo Octávio (DEM) e Wilson Ferreira de Lima (PR).
O governo de transição de Rogério Rosso (PMDB), eleito indiretamente pela Câmara Legislativa em 2010, serviu para estabilizar a máquina pública sob as siglas tradicionais.
Posteriormente veio o mandato de Agnelo Queiroz (PT), de 2011 a 2015. A gestão do petista foi marcada por críticas à condução das contas públicas e ao alto custo de obras ligadas à Copa do Mundo de 2014.
O destaque é o Estádio Nacional Mané Garrincha, que se tornou um dos mais caros do torneio e com suspeitas de superfaturamento. O ex-governador chegou a ser preso em 2017, alvo da operação Panatenaico, que investigou superfaturamento estimado de R$ 900 milhões em obras do estádio.
Na sequência veio Rodrigo Rollemberg (PSB), que enfrentou dificuldades de governabilidade e crises fiscais, o que abriu caminho para a ascensão de Ibaneis Rocha (MDB) em 2018.
Ibaneis Rocha foi reeleito em primeiro turno em 2022 e ficou no cargo até março de 2026, quando renunciou. Sua gestão representou a consolidação definitiva do centro pragmático. Com um perfil jurídico-empresarial, governou alinhado a uma base ampla que acomoda desde o “centrão” até setores da direita aliados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Futuro de Brasília
Ibaneis deixou o cargo para desincompatibilização, transferindo o comando para Celina Leão (PP), uma vez que é pré-candidato ao Senado nas eleições de 2026.
Os nomes ventilados para a disputa do governo de Brasília nos próximos 4 anos são os de Celina Leão (PP), Ricardo Cappelli (PSB), Leandro Grass (PT), Paula Belmonte (Cidadania) e José Roberto Arruda (PSD).
A viabilidade eleitoral de Arruda, no entanto, sofreu um revés jurídico determinante, quando em outubro de 2025 a 1ª Turma do STJ (Superior Tribunal de Justiça) manteve sua condenação por improbidade administrativa
Com essa decisão da Corte, Arruda permanece impedido de disputar cargos eletivos por estar enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Caso não haja uma nova reviravolta na interpretação do Judiciário, o ex-governador pode seguir inelegível até 2032, ficando fora do próximo ciclo eleitoral da capital.
Era dos nomeados
Nos primeiros 9 anos depois da fundação, Brasília não possuía autonomia política e era administrada por prefeitos indicados diretamente pelo Presidente da República. O cargo era estritamente técnico e de confiança, funcionando como uma extensão do governo federal. O objetivo era consolidar a infraestrutura básica e fazer a transferência do funcionalismo do Rio de Janeiro para o Planalto Central.
O 1º prefeito, Israel Pinheiro (PSD), braço direito de Juscelino Kubitschek e presidente da Novacap, personificou o centro-desenvolvimentista que definiu a gênese da capital. Nesse período, a gestão era focada na ocupação do território e na implementação dos serviços primários, sem a existência de disputa eleitoral local ou partidos distritais atuantes.
Com o estabelecimento do regime militar, seu posterior endurecimento, e a reforma administrativa de 1969, o cargo de prefeito foi extinto e substituído pelo de governador do Distrito Federal. Durante as duas décadas seguintes, a cidade viveu a era dos “governadores nomeados” ou biônicos.
Nomes como Hélio Prates, Elmo Serejo e Aimé Lamaison, ligados à Arena e ao PDS (partido sucessor do Arena), governaram sob uma lógica de ordem urbana e grandes intervenções viárias. O partido Arena, Aliança Renovadora Nacional, dava sustentação política à ditadura militar brasileira de 1965 a 1979.
A conquista da autonomia política e a 1ª eleição direta em 1990 deram início à era do voto, mas não romperam com o DNA centrista da capital. Joaquim Roriz, que havia sido o último governador nomeado, tornou-se o 1º eleito.
Wanderley Vallim administrou a capital federal de 1990 a 1991. Em 1993, chegou a ingressar no PPR (Partido Progressista Reformador) e anunciou sua pré-candidatura ao governo para 1994. No entanto, acabou compondo a chapa de Maria Lourdes Abadia, sendo derrotado por Cristovam Buarque.



