Redução de 0,25 p.p. era esperada, mas comunicado sobre inflação e críticas do setor produtivo sinalizam que ciclo de afrouxamento é incerto
O Comitê de Política Monetária do Banco Central confirmou as expectativas do mercado nesta 4ª feira (29.abr.2026) ao reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual. Apesar do corte para 14,50% ao ano, o tom do comunicado foi recebido com sobriedade pelos analistas financeiros e com forte resistência pelo setor produtivo.
Economistas destacam a deterioração das projeções inflacionárias e a possibilidade de interrupção do ciclo caso os dados não melhorem. Representantes da indústria elevam o tom. No mercado, a percepção é de um Banco Central “desconfortável”, onde a cautela impera diante de riscos geopolíticos e fiscais, limitando o alívio imediato para empresas endividadas e setores dependentes de crédito.
José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, afirma que o cenário ainda projeta a Selic em 13,25% ao ano ao final do ciclo. “Nesse caso, o Copom deve reduzir a taxa em 0,25 p.p. em todas as reuniões de 2026. Entretanto, se os dados continuarem piorando, pode parar de reduzir a taxa de juros na próxima reunião”, disse.
O presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, declarou que a redução de apenas 0,25 p.p.na Selic “parece mais uma encenação do que um sinal concreto de mudança”. Segundo ele, é impossível para a sociedade conviver com uma taxa básica que é 3 vezes a inflação: “Trata-se de um cenário insustentável”.
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção afirma que a redução é positiva, mas insuficiente. “A taxa de juros permanece em um patamar muito elevado e continua sendo um dos principais entraves ao avanço do investimento produtivo.”
A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais avalia que o nível de juros ainda pressiona a economia. “Juros elevados por um período prolongado trazem efeitos negativos que tendem a afetar investimentos, crédito e competitividade da indústria.”
AJUSTE NO CICLO
Leonardo Costa, economista da ASA Investments, diz que o comunicado reforça a deterioração do cenário e indica possível ajuste no ciclo. “O modelo do BC registrou piora na projeção de inflação, mais distante do centro da meta”, afirmou.
Na avaliação de Rafael Pastorello, gerente de portfólio do Banco Sofisa, o movimento já era amplamente antecipado e reflete um cenário ainda restritivo. “As incertezas relacionadas aos conflitos geopolíticos no Oriente Médio permaneceram como principal foco de atenção”, disse.
O head de Investimentos da Arton Advisors, Raphael Vieira, diz que o corte veio acompanhado de desconforto com a inflação. “O balanço de riscos permanece desfavorável”. O economista-chefe da APAS, Felipe Queiroz, avalia que havia espaço para uma redução maior. “O Copom já poderia ter ampliado o afrouxamento. A inflação é gerada pela conjuntura internacional”, declarou.
Para Pablo Spyer, economista da Associação Nacional das Corretoras de Valores, o ponto central foi a comunicação. “O Copom fez exatamente o que o mercado esperava, mas o recado […] veio mais cauteloso.”
João Pedro Camargo, sócio da incorporadora Liv Inc, afirma que o cenário segue desafiador. “O ambiente ainda exige disciplina, sobretudo para setores com alto custo de financiamento”, como a construção civil. Já Lucas Rocha, sócio da Alumni Investimentos, afirma que os efeitos do corte são limitados. “As empresas endividadas não terão grandes alterações.”



