Ministro do STF afirma estar “chocado” com a CPI do Crime Organizado e que “ter contato com Daniel Vorcaro virou algo satânico”
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, disse que Romeu Zema (Novo) “tenta sapatear aproveitando o momento eleitoral”. Ele se referiu aos vídeos publicados nas redes sociais do ex-governador de Minas Gerais que usam fantoches para representar magistrados. A declaração foi dada na 4ª feira (22.abr.2026) à jornalista Renata Lo Prete, no “Jornal da Globo”.
Na 2ª feira (20.abr), Gilmar enviou ao ministro do STF Alexandre de Moraes uma notícia-crime (comunicar a ocorrência de um fato criminoso à autoridade competente) contra Zema para que ele fosse investigado no inquérito das fake news. O caso, que se refere ao 2º episódio da série “Os Intocáveis”, divulgado por Zema quando ele ainda era governador, já foi encaminhado à Procuradoria Geral da República e segue em sigilo.
“Todos nós que atuamos na vida pública temos que ter responsabilidade e não podemos fazer esse tipo de brincadeira”, disse Gilmar na entrevista. “Ele [Zema] fala uma língua próxima do português, mas que é entendida como ofensiva e isso precisa ser aferido”, declarou.
O ministro da Corte voltou a mencionar o histórico da dívida de Minas Gerais com a União e decisões judiciais favoráveis ao Estado. “Já tive a oportunidade de dizer que o governo Zema só governou Minas Gerais porque obteve liminares aqui no Supremo que o deixaram sem pagar a dívida para com a União por 22 meses”, afirmou. “Estou só chamando a atenção para o fato de que as pessoas vêm ao Tribunal e depois fazem esse tipo de sapateado, o que não me parece uma postura eticamente correta”, disse.
Gilmar ainda declarou que o inquérito das fake news deve permanecer aberto pelo menos até as eleições em outubro deste ano.
ALESSANDRO VIEIRA
O ministro do STF disse estar “chocado” com o fato de que o parecer do relator da CPI do Crime Organizado, Alessandro Vieira (MDB-SE), pedia o indiciamento de 3 ministros do Supremo Tribunal Federal –ele, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli– e também do procurador-geral da República, Paulo Gonet. O texto foi derrubado.
“No meu caso, por ter dado um habeas corpus. Só isso. E isso vira uma causa para indiciamento. (…) É extremamente grave”, afirmou Gilmar.
Em 15 de abril, o ministro do STF acionou a PGR contra Vieira. O magistrado pede que o integrante do Senado seja investigado por suposto abuso de autoridade.
“Por que ele [Alessandro Vieira] fez isso? Será por que ele está ameaçado pelo crime organizado? Ou o que pode ser pior, outra hipótese, por que ele está sendo financiado pelo crime organizado?”, declarou Gilmar. “O Tribunal tem sido vilipendiado. Veja a covardia do relator da CPI de atacar a Corte. Isso não pode ser deixado assim. É preciso que haja resposta”, disse.
BANCO MASTER
O ministro da Corte disse que o caso do Banco Master, fundado por Daniel Vorcaro, “não é um escândalo do STF”. Afirmou que envolve “problemas de regulação e participação” do sistema financeiro.
“A mim me parece que a imprensa trouxe o caso Vorcaro para a Praça dos Três Poderes. Se eu fosse buscar o endereço do caso Vorcaro, eu veria ele na Faria Lima”, disse.
“Vários bancos venderam CDBs do Banco Master. Fizeram lucros com isso. Várias empresas divulgaram anúncios do Master. Daniel Vorcaro era keynote speaker [orador principal] de vários seminários de várias instituições de imprensa. Agora ter contato com Vorcaro virou algo satânico. Vamos olhar para isso de uma forma crítica e madura. É preciso ter adultos na sala”, declarou.
Questionado sobre a crise de confiança no Judiciário e se caberia uma autocrítica em relação à conduta de ministros da Corte, Gilmar respondeu que “o STF fez isso ao longo de toda a vida por isso essa instituição é duradoura”.
Ele declarou: “Autocrítica é crítica interna. Devemos fazer esse tipo de avaliação inclusive para fins de eventual correção de regimento ou novas orientações”, afirmou. “Espero também que a imprensa faça a sua autocrítica. A imprensa, por exemplo, apoiou a Lava Jato. Não escutei depois a autocrítica”.
Gilmar comentou quando, em 2023, o STF liberou juízes para julgar clientes de parentes. “A lei foi extremamente mal feita e levava a um impedimento geral”, disse.
“O ministro Alexandre jamais julgou o caso do Master. O caso relativo ao ministro [Dias] Toffoli, talvez ele não devesse ter julgado por outras razões. Apareceram lá indicações de que ele teria feito negócios com o Master no passado. (…) Mas depois ele [Toffoli], juntamente com o Tribunal, decidiu que não poderia continuar no processo”, declarou.




