Você cumpriu todas as regras: estudou, trabalhou, proveu. Por que, então, a sensação de vazio é tão grande? A psicanálise analisa a “segunda adolescência” masculina e o perigo das respostas fáceis da internet.
Existe uma conspiração de silêncio entre os homens. Falamos sobre futebol, sobre investimentos, sobre política e sobre conquistas sexuais. Mas não falamos sobre o que acontece, invariavelmente, em algum momento após os 35 anos.
Até essa idade, a vida do homem médio é guiada por um script social muito claro, herdado de nossos pais e avós: “Estude, arrume um bom emprego, case-se, tenha filhos, compre um carro, financie um apartamento”. A testosterona da juventude e a ambição de conquista nos impulsionam. Estamos na fase da construção do falo, a busca por poder, status e reconhecimento.
Mas, por volta dos 35 ou 40 anos, algo acontece. Muitos já conquistaram o tal script. Outros perceberam que o script era uma armadilha. E, subitamente, o motor pifa.
Você acorda numa terça-feira, olha para o lado e não reconhece a mulher com quem dorme. Olha para o trabalho e sente um tédio mortal, mesmo sendo bem pago. Olha para o espelho e vê o cabelo rareando ou a barriga crescendo. E surge uma pergunta aterrorizante, que a psicanálise escuta diariamente: “É só isso?”.
A primeira coisa que ninguém te contou é sobre a solidão estrutural. Depois dos 35, os amigos de farra somem, absorvidos por suas próprias famílias e problemas. As conversas tornam-se superficiais.
O homem, que foi treinado para não demonstrar fraqueza (o famoso “homem não chora”), se vê sem ferramentas para lidar com a angústia. Ele não tem com quem falar.
Se ele fala com a esposa, teme parecer fraco e perder a admiração dela. Se fala com o chefe, teme perder o emprego. Se fala com os amigos, teme virar piada.
O resultado é o isolamento. E, no silêncio, os fantasmas crescem. A ansiedade vira insônia. A tristeza vira irritabilidade explosiva. A falta de libido vira consumo excessivo de pornografia.
É neste momento de fragilidade que muitos homens caem no canto da sereia da internet: o fenômeno Redpill e a “manosphere”.
Vídeos no YouTube prometem explicar “a verdade sobre as mulheres”, culpam o feminismo pelo sofrimento masculino e vendem uma caricatura de “Macho Alfa” como solução. Eles dizem: “Você está sofrendo porque deixou de ser homem de verdade. Volte a ser dominante, rico e estoico, e a dor passará”.
Como psicanalista e pesquisador das masculinidades, preciso ser franco: A Redpill é um analgésico tóxico para uma dor real.
Ela atrai porque valida o sofrimento do homem (o que é necessário), mas erra brutalmente no diagnóstico e na cura. Ela projeta a culpa no Outro (nas mulheres, na sociedade), impedindo que o homem olhe para a sua própria responsabilidade.
Tentar resolver a crise dos 35 performando uma masculinidade rígida de 1950 é como tentar rodar um software obsoleto num computador moderno. O sistema vai travar. A rigidez não é força; na psicanálise, rigidez é sinal de fragilidade. Quem é forte de verdade suporta a flexibilidade.
A “masculinidade” única é uma fantasia que adoece. Não existe gabarito universal para ser homem; existem masculinidades plurais e vivas. A saúde surge quando abandonamos o molde rígido do “macho” para inventar, com coragem, a nossa própria forma singular de existir.
O que acontece aos 35 anos não é o fim, mas o convite para o início da vida adulta real. Na psicanálise, dizemos que é o momento de enfrentar a Castração Simbólica. Calma, isso não tem nada a ver com anatomia.
A castração simbólica é o momento em que você aceita que você não é, e nunca será, completo. Aceita que o “Homem-Provedor” é uma fantasia infantil. Aceita que você não vai sair com todas as mulheres, não vai ganhar todo o dinheiro do mundo e não vai ser amado por todos.
Dói? Muito. É o luto da onipotência infantil.
Mas é libertador.
Quando você para de gastar 90% da sua energia tentando sustentar a máscara de “Homem de Sucesso Infalível”, sobra energia para descobrir quem você realmente é.
Talvez você não queira ser CEO, queira abrir uma marcenaria, ou não queira um casamento de aparências, queira uma parceria real onde possa chorar. E Talvez você não queira ser temido, queira ser respeitado.
Jacques Lacan nos ensina que passamos a primeira parte da vida presos na Alienação: tentamos desesperadamente ser aquilo que o Outro (a família, a sociedade, o mercado) espera que sejamos. Vivemos para responder à Demanda externa, tentando ser o ‘falo’, o objeto que completa o outro.
A crise que você vive agora não é um erro, é o chamado urgente para a Separação. É o momento em que a máscara cai e você deve parar de perguntar ao mundo “O que vocês querem de mim?” para ter a coragem de sustentar a única pergunta ética possível: “Qual é o meu Desejo?”.
Até os 35, você viveu pelo Dever (o que esperavam de você).
Dos 35 em diante, se quiser ter saúde mental, você precisará viver pelo Desejo (o que faz sentido para você).
Isso exige coragem. Exige decepcionar algumas pessoas. Exige renegociar contratos (casamento, trabalho, amizades).
Não é nos fóruns de internet, destilando ódio, que você vai encontrar a saída para o labirinto dos 35 anos. É na coragem de olhar para dentro.
A psicanálise é, hoje, um dos poucos espaços onde um homem pode retirar a armadura pesada que carregou a vida toda e examinar as feridas que estão por baixo. É o lugar para transformar a “crise da meia-idade” em uma “virada de mesa”.
Ser homem depois dos 35 não é sobre quanto você aguenta carregar em silêncio. É sobre ter a coragem de falar, para finalmente soltar o peso que não é seu.
Sempre é tempo de desatar nós e desenhar seu próprio destino!
Sobre o Autor:
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).
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