Strategy: como funciona e como participar da “impressora” que alimenta o Bitcoin

O Bitcoin (BTC) subiu de US$ 60.000 para US$ 80.000 nos últimos meses, e por trás desse movimento há um nome que aparece com frequência crescente nas análises de mercado: a Strategy (BDR: M2ST34). A empresa americana detém hoje 818.334 unidades da criptomoeda, adquiridas por cerca de US$ 61,8 bilhões, o que a torna a maior compradora corporativa de bitcoin do mundo entre companhias abertas em bolsa.

Mas o que poucos sabem é que a Strategy não usa dinheiro próprio para fazer essas compras. Ela vai ao mercado de capitais, vende ações e outros instrumentos financeiros para investidores e usa o dinheiro captado para comprar bitcoin. É uma máquina financeira montada para acumular a criptomoeda em escala, uma impressora de dinheiro para comprar BTC — e ela está crescendo.

A Strategy não nasceu como empresa de cripto. Durante décadas, funcionou como uma companhia discreta de software de análise de dados, sem grande visibilidade no mercado. A virada aconteceu em 2020, quando o presidente executivo Michael Saylor decidiu transformar o Bitcoin no principal ativo de reserva da empresa, numa aposta que, na época, parecia radical. Desde então, a Strategy não parou de comprar.

Oportunidade com segurança!

Para Saylor, a aposta é de longo prazo. “Acho que o Bitcoin vai chegar a US$ 20 milhões, US$ 21 milhões por moeda. Ele vai emergir como o principal capital digital do mundo”, disse ele ao podcast Bankless, em abril deste ano.

A lógica da impressora: como a empresa financia as compras

A Strategy não gera caixa suficiente com seu negócio de software para comprar os volumes de Bitcoin que quer, então ela vai ao mercado de capitais e capta dinheiro de outras formas.

A primeira é a venda de ações ordinárias, os papéis comuns da empresa negociados na Nasdaq americana sob o código MSTR. A Strategy usa um mecanismo chamado ATM (at-the-market), que funciona como uma torneira: ela vende ações gradualmente no mercado, ao preço do dia, sem precisar fazer uma oferta pública tradicional com roadshow e precificação única. Isso dá flexibilidade para captar de forma contínua, conforme as condições do mercado permitem.

A segunda via são as ações preferenciais, instrumentos que pagam rendimento fixo ao investidor e se comportam mais como um título de renda fixa do que como uma ação convencional.

E a terceira são as notas conversíveis, que são parecidas com debêntures conversíveis no Brasil: o investidor empresta dinheiro à empresa com opção de converter a dívida em ações no futuro. Todo o dinheiro captado por esses três mecanismos vai para a compra de Bitcoin, sem exceção.

Em 2025, a empresa captou US$ 25,3 bilhões e comprou mais de 225.000 BTC, tornando-se a maior emissora de ações entre as companhias abertas americanas pelo segundo ano consecutivo. O plano atual prevê emitir US$ 42 bilhões entre 2025 e 2027, metade em ações e metade em instrumentos de crédito.

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“Primeiro vieram as ações. Depois, num período intermediário, foram os títulos conversíveis. Nos tornamos o maior emissor de títulos conversíveis do mundo. Esgotamos esse mercado. E agora estamos na fase do crédito”, disse Saylor ao Bankless no mês passado.

Por que a ação da Strategy não é o mesmo que comprar Bitcoin

“O ETF é um proxy do Bitcoin. A Strategy é uma empresa”, explica Alexandre Vasarhelyi, sócio e gestor da B2V Crypto. Para ele, a tese de investimento na ação ordinária é uma aposta na existência futura de uma empresa operacional com Bitcoin como ativo central, algo que vai além da simples valorização da criptomoeda.

“Banco não pode emprestar Bitcoin. A empresa que tiver Bitcoin vai poder emprestar Bitcoin. O leque de possibilidades que se abre é muito grande.”

— Alexandre Vasarhelyi, sócio e gestor da B2V Crypto

Quando o investidor compra a ação da Strategy, está pagando não só pelos BTCs que ela possui, mas pelo modelo de negócio em si, pela capacidade de captação e pelos riscos da estrutura financeira montada por Saylor.

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Existe um indicador que mede essa diferença: o mNAV, ou múltiplo sobre o valor dos ativos. Se o mNAV está em 1,2, significa que o mercado está pagando R$ 1,20 pela ação para ter exposição a R$ 1,00 em Bitcoin. No pico do entusiasmo, no fim de 2024, esse prêmio chegou a 2,8 vezes. Hoje está próximo de 1,2.

O instrumento que virou carro-chefe: a STRC

Ao lado da ação ordinária, a Strategy criou uma família de quatro instrumentos chamados de ações preferenciais. O nome pode confundir o investidor brasileiro: no Brasil, ação preferencial é uma ação que dá menos direito a voto mas participa do crescimento da empresa, como PETR4. Os instrumentos da Strategy são diferentes. Eles pagam um rendimento fixo ao investidor, têm valor de face de US$ 100 e se comportam muito mais como um título de crédito do que como uma ação convencional.

Os três primeiros, lançados entre janeiro e junho de 2025, são:

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  • STRK (com rendimento de 8% ao ano)
  • STRF (10% ao ano)
  • STRD (10% ao ano)

Cada um com características distintas de risco e prioridade em caso de dificuldades financeiras na empresa. Mas o instrumento que tomou o centro do palco em 2026 é o quarto: a STRC, batizada de Stretch.

A STRC é o produto mais ambicioso e mais inédito da família. Diferente dos outros três, que têm taxa de rendimento fixa, a STRC tem uma taxa variável que se ajusta mensalmente com um objetivo específico: manter o preço do papel sempre próximo de US$ 100. Se o papel cai abaixo desse valor, a taxa sobe para atrair compradores; se sobe acima, a taxa pode cair. É um mecanismo automático de estabilização de preço.

O resultado é um instrumento de alta renda com baixíssima volatilidade, algo incomum no universo de ativos ligados ao Bitcoin. “A volatilidade da STRC nos últimos 30 dias é de 2%. A do Bitcoin no mesmo período é de 55%. A STRC se tornou o ativo menos volátil de todo o universo do S&P 500”, disse Saylor ao Bankless. Toda a turbulência da criptomoeda é absorvida pela ação ordinária MSTR, e quem segura a preferencial fica protegido dessas oscilações.

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O pitch de Saylor para esse produto é deliberadamente simples: “Todo mundo quer uma conta bancária que pague mais do que a inflação. Que tal uma conta que pague 8%? Hoje, o seu banco paga zero.” Para Vasarhelyi, da B2V Crypto, a analogia também funciona para o investidor brasileiro. “Para o brasileiro, é mais parecido com título privado do que com ação”, diz ele.

De onde vem o rendimento, e qual é a aposta implícita

O rendimento da STRC não vem do negócio de software da Strategy, nem dos Bitcoins que a empresa possui. Ele é financiado pela emissão contínua de ações ordinárias MSTR no mercado, por meio do mecanismo ATM. A empresa vende um pouco de MSTR todo dia, acumula dólares numa reserva e usa essa reserva para pagar os rendimentos mensais da STRC e dos outros instrumentos preferenciais.

A matemática funciona enquanto o Bitcoin sobe. Saylor explicou a lógica no Bankless: “Achamos que o Bitcoin vai subir cerca de 30% ao ano. Então consigo pagar um rendimento de 10%, 11%? Sim, com certeza. Isso equivale a um terço do retorno anual que eu espero.” Se o Bitcoin sobe 30% ao ano conforme a projeção, pagar 10% ou 11% de rendimento equivale a distribuir um terço do ganho esperado. A conta fecha, mas ela depende de uma premissa de alta que não é garantida.

Markus Thielen, analista da 10X Research, aponta que o verdadeiro ponto de pressão do modelo não é um nível específico de preço de Bitcoin, mas a capacidade da empresa de continuar emitindo ações para financiar os pagamentos.

“Uma queda prolongada do Bitcoin que empurre a STRC persistentemente abaixo do valor de face fecharia a janela de emissão de ações e deixaria a Strategy com US$ 1,5 bilhão em obrigações anuais sem mecanismo ativo de captação. Esse é o ponto de pressão: não um nível de preço em si, mas a perda de acesso ao mercado.”

— Markus Thielen, analista da 10X Research

Há também uma transferência de risco que vale entender: ao proteger o investidor da STRC das oscilações do Bitcoin, a Strategy transfere toda essa volatilidade para o acionista ordinário do MSTR. Quem segura a ação ordinária assume mais risco para que quem segura a preferencial não precise assumir nenhum.

Os riscos que o investidor precisa entender

Concentração

Thielen chama atenção para um dado que resume a dependência do mercado em relação à Strategy: a empresa foi responsável por 70% de todo o dinheiro novo que entrou no Bitcoin neste ano. “Quando uma única entidade responde por 70% de todos os inflows líquidos de Bitcoin no ano, a durabilidade do modelo depende inteiramente da capacidade dessa entidade de continuar captando capital”, diz o analista.

Esse dado também ilumina o risco novo que veio à tona no resultado do primeiro trimestre de 2026: pela primeira vez desde que adotou a estratégia de acumulação, Saylor admitiu que a empresa pode vender Bitcoin para pagar dividendos. Ele chamou o movimento de “inoculação”, como se fosse um gesto voluntário para demonstrar que a empresa tem essa capacidade. Thielen lê a situação com cautela: “Se o maior comprador estrutural do mercado se torna um vendedor, quem vem a seguir? Não há uma resposta crível para essa pergunta no momento.”

Replicando a lógica da Strategy, a OranjeBTC (OBTC3), listada na B3, divulgou há duas semanas sua terceira emissão de debêntures lastreadas em BTC de até R$ 210 milhões, com vencimento em janeiro de 2031 e remuneração de CDI+1,85% ao ano. Para Thielen, iniciativas como essa contribuem pouco para o risco: “Os imitadores são pequenos demais para ter relevância numa eventual queda. O risco de contágio, na medida em que existe, está concentrado inteiramente na própria Strategy, e não é tanto um risco de contágio quanto um risco de ponto único de falha”, explica.

Prêmio da ação

O segundo risco está no mNAV. Com o múltiplo agora próximo de 1,2, a janela de emissão de ações ordinárias está praticamente fechada para novas compras de Bitcoin de forma vantajosa. “Nesse nível, emitir ações ordinárias para comprar Bitcoin não é mais vantajoso em termos de Bitcoin por ação”, explica Thielen. “O prêmio que fez o mecanismo inteiro funcionar em 2024 desapareceu. Ele não vai voltar na mesma escala porque muitos investidores já pagaram por ele e estão sentados sobre grandes perdas.” O analista aponta que foi exatamente por isso que a STRC se tornou o principal motor de captação da empresa.

Regulador e custódia

O terceiro risco é regulatório: o governo americano poderia proibir que empresas mantenham Bitcoin no balanço, o que mudaria completamente a tese. E há o risco de custódia: um ataque hacker ao sistema de guarda dos Bitcoins da empresa seria um evento de consequências imprevisíveis.

“Eu me sentiria muito mais confortável recomendando a ação ordinária: se subir, você ganhou. Com esses produtos de crédito, você ganha pouco, mas se der problema o problema é grande, e como você vai monitorar isso?”, diz Vasarhelyi.

Como o brasileiro pode acessar esses ativos

Para o investidor brasileiro, há dois caminhos para se expor à Strategy.

BDR

O mais simples é comprar o BDR da ação ordinária, negociado na B3 sob o código M2ST34. BDR, ou Brazilian Depositary Receipt, é um certificado emitido por um banco brasileiro que representa uma ação listada no exterior: o investidor compra em reais, sem precisar abrir conta fora do país, e o ativo fica sob a regulação da CVM. A tributação segue as regras de renda variável: 15% de imposto de renda sobre o lucro na venda em operações comuns e 20% em day trade.

A limitação é a liquidez: o BDR da Strategy tem volume negociado bem menor do que o papel original na Nasdaq, o que pode dificultar entrar e sair de posições maiores.

Conta global

Para acessar as ações preferenciais, especialmente a STRC, é preciso abrir conta em uma corretora com acesso à Nasdaq americana. Há plataformas voltadas para o investidor brasileiro que oferecem esse serviço, permitindo a compra do papel diretamente em dólares.

Nesse caso, há um detalhe de tributação que faz diferença prática no rendimento final. Os pagamentos da STRC não sofrem incidência de 30% de imposto de renda nos EUA. Isso porque eles são classificados como retorno de capital e não como dividendo. A Strategy estruturou os pagamentos dessa forma para maximizar o rendimento líquido do investidor, e é importante verificar com a corretora se ela classifica o recebimento corretamente.

Momento positivo

Apesar dos riscos, o o momento de alta do Bitcoin sugere que o modelo ainda tem muita lenha para queimar: com o Bitcoin próximo de US$ 80.000 e a empresa se aproximando de 1 milhão de BTCs no balanço, a máquina continua funcionando. E, com isso, a “impressora” de Saylor segue retroalimentando o sistema.

“O melhor momento para comprar Bitcoin era nos US$ 60.000, quando ninguém queria”, diz Vasarhelyi, da B2V Crypto, que está desenvolvendo um produto para oferecer ao investidor brasileiro exposição à STRC de forma estruturada. “Ou você tem uma máquina do tempo ou aproveita o que temos hoje. Nos parece um bom momento para ficar otimista.”

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