Vendas de medicamentos sinalizaram 57% das altas de internações respiratórias com até 3 semanas de antecedência
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Por Juliane Fonseca de Oliveira (Fiocruz), Manoel Barral-Netto (Fiocruz) e Viviane Boaventura (UFBA)
A pandemia de covid-19 e os alertas sobre ameaças virais como ebola, nipah e hantavírus reforçam uma preocupação global e recorrente: como saberemos quando uma nova doença começará a se espalhar? No Brasil, onde surtos de enfermidades como dengue, chikungunya e outras infecções são frequentes, essa capacidade pode ser decisiva para reduzir impactos sobre a população e os serviços de saúde.
Em um estudo recente, avaliamos o desempenho do ÆSOP (Early Alert System for Outbreaks with Pandemic Potential ou Sistema de Antecipação de Surtos com Potencial Pandêmico), atualmente em implementação pelo Ministério da Saúde. O sistema utiliza dados da APS (Atenção Primária à Saúde) do SUS (Sistema Único de Saúde) e de vendas de MIP (Medicamentos Isentos de Prescrição), como descongestionantes nasais, para identificar sinais precoces de surtos.
A atenção primária é a principal porta de entrada do SUS. Desenvolvida sobretudo nas UBSs (Unidades Básicas de Saúde), reúne ações de promoção da saúde, prevenção de doenças, diagnóstico, tratamento e acompanhamento contínuo da população. Seu principal modelo de organização é a ESF (Estratégia Saúde da Família), na qual equipes multiprofissionais acompanham as famílias de um território definido.
A tecnologia testada foi desenvolvida por pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) da Bahia e da Coppe/UFRJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro). O estudo foi publicado recentemente na revista npj Digital Public Health, do grupo Nature.
SINTOMAS E DIAGNÓSTICO
Mapear os primeiros sinais de transmissão de uma doença é um dos grandes desafios da saúde pública. Seja diante de um vírus já conhecido ou de um agente infeccioso emergente, ganhar alguns dias de vantagem –ou semanas– pode fazer muita diferença para organizar a assistência, direcionar investigações epidemiológicas e reduzir o impacto de um surto sobre a população.
Essa não é, no entanto, uma missão simples. O reconhecimento de um novo agente infeccioso depende muito da capacidade da rede de vigilância e da infraestrutura local de saúde pública. Outra dificuldade é que os surtos raramente começam de forma evidente.
Nos seus primeiros momentos, uma doença emergente costuma se parecer com outras já conhecidas. Os sintomas iniciais, como febre, tosse, dor no corpo ou mal-estar, por exemplo, são comuns a diversas infecções.
Foi o que ocorreu durante os surtos de ebola em países da África Ocidental, vírus responsável por uma taxa média de letalidade de 25% a 90%. Um estudo estimou que, caso 60% dos infectados recebessem diagnóstico em até 1 dia após o surgimento dos sintomas, em contraste com a média de 5 dias, a taxa de contaminação viral despencaria de 80% para quase zero.
Situação semelhante ocorreu com o zika vírus no Brasil e com o Sars-CoV-2 na China. Em ambos os casos, o vírus circulou por algum tempo antes de ser oficialmente identificado.
CAPACIDADE DE ANTECIPAÇÃO
A capacidade de detectar casos leves antes que o aumento da transmissão se reflita nas hospitalizações é o principal diferencial da abordagem que utiliza o sistema ÆSOP. Em nosso estudo, constatamos que as fontes de dados usadas têm capacidade real de antecipar aumentos de internações por doenças respiratórias no Brasil.
Os principais resultados do estudo indicaram que:
- vendas em farmácias – os dados sobre MIPs emitiram sinais de alerta antes do aumento das hospitalizações em cerca de 57% dos 746 episódios analisados;
- antecipação da crise – esses alertas surgiram de uma a 3 semanas antes da elevação dos casos graves;
- atenção primária – os dados da APS apresentaram desempenho semelhante, antecipando aproximadamente 60% dos aumentos observados.
Em outras palavras, ambas as fontes conseguiram identificar uma parcela importante dos surtos antes que seu impacto fosse sentido em hospitais. Observamos também que os dados permitem identificar a elevação de casos leves muitas vezes antes que seu impacto seja visível. Na prática, antecipar um surto em até 3 semanas fornece um tempo valioso para direcionar investigações epidemiológicas, ampliar a coleta de amostras e preparar a rede assistencial. Isso inclui o planejamento de leitos, equipes e insumos, reduzindo o risco de colapso do sistema de saúde.
VIGILÂNCIA SINDRÔMICA
A vigilância sindrômica é uma estratégia utilizada por autoridades para identificar precocemente possíveis surtos por meio do monitoramento de padrões de sintomas, como síndromes febris, respiratórias, diarreicas e arboviroses. Diferentemente dos sistemas baseados apenas na confirmação laboratorial, essa abordagem prioriza a rapidez e a sensibilidade na identificação de sinais iniciais de circulação de doenças.
O sistema ÆSOP integra dados da APS, registrados no Sisab (Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica), e informações sobre vendas de medicamentos adquiridas da IQVIA, uma multinacional especializada em dados, tecnologia e pesquisa para o setor de saúde.
CENÁRIOS E PRÓXIMOS PASSOS
O desempenho do sistema não foi uniforme em todo o país, com diferenças inter-regionais que refletem desigualdades na organização dos serviços de saúde, no acesso à assistência e nos padrões de consumo de medicamentos. Em cerca de 3/4 do território brasileiro, pelo menos uma das fontes apresentou boa performance, demonstrando que, em um país continental, diferentes sistemas de vigilância precisam atuar de forma complementar.
Outro resultado relevante foi a identificação de períodos em que houve aumento simultâneo de atendimentos na APS e de vendas nas farmácias sem crescimento correspondente das hospitalizações. Esses episódios sugerem a ocorrência de surtos de casos leves, que também provocam impacto no sistema de saúde e podem representar a apresentação inicial de doenças graves.
Novos surtos continuarão surgindo. A questão central é quão rapidamente conseguiremos identificá-los. Dados da APS e de vendas de MIP oferecem uma oportunidade de enxergar sinais que frequentemente permanecem invisíveis para os sistemas tradicionais.
Nesse contexto, o sistema ÆSOP se encontra em fase de implementação pelo Ministério da Saúde nos municípios brasileiros. Quando combinadas com informações climáticas, ambientais, socioeconômicas e de mobilidade humana, essas fontes podem fortalecer sistemas de alerta precoce capazes de fornecer tempo precioso para a organização dos serviços de saúde.
Quando combinadas com informações climáticas, ambientais, socioeconômicas e de mobilidade humana, essas fontes podem fortalecer sistemas de alerta precoce capazes de fornecer tempo precioso para a organização dos serviços de saúde, a realização de investigações epidemiológicas e a adoção de medidas de controle.
Em um mundo cada vez mais conectado, ganhar algumas semanas pode fazer toda a diferença entre conter um surto local ou enfrentar uma crise de grandes proporções.
Juliane Fonseca de Oliveira é pesquisadora associada do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fiocruz. Manoel Barral-Netto é pesquisador do Instituto Gonçalo Moniz e da Fiocruz. Viviane Boaventura é pesquisadora da Fiocruz, integrante dos INCTs DIgiSaúde e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia.
Este texto foi publicado originalmente pela The Conversation em 10 de julho de 2026, às 7h16. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.


