Diretor da instituição diz que arcabouço fiscal perde força em 2028 e cita pressão de gastos obrigatórios
O diretor da IFI (Instituição Fiscal Independente), Alexandre Andrade, afirmou que o presidente da República eleito neste ano terá de enfrentar “discussões duras” sobre as contas públicas no próximo mandato. Em entrevista à Agência Senado, ele disse na 5ª feira (25.jun.2026) que a trajetória dos gastos obrigatórios deve pressionar o Orçamento e reduzir a eficácia do arcabouço fiscal a partir de 2028.
“Isso envolve discussões duras, difíceis, porque afetam aposentadorias, salários de servidores públicos e benefícios assistenciais”, declarou Andrade.
A avaliação tem como base o RAF 113 (Relatório de Acompanhamento Fiscal), divulgado na 5ª feira (25.jun) pela IFI, órgão vinculado ao Senado. O documento projeta que a dívida bruta do governo geral, hoje em 80,1% do Produto Interno Bruto, pode chegar a 115% em 2036. Para a instituição, trata-se de “um nível de endividamento extremamente elevado” para uma economia emergente. Eis a íntegra do documento (PDF – 2 MB).
Segundo Andrade, a regra atual do arcabouço fiscal, que limita o crescimento das despesas da União, tende a perder força no próximo mandato presidencial. A IFI afirma que, mantidas as regras atuais, o país terá deficits primários recorrentes até 2036.
“Hoje, o quadro fiscal brasileiro indica um crescimento das despesas que não consegue ser compensado pelo aumento das receitas”, disse.
Para estabilizar a dívida pública, a IFI calcula que o Brasil precisaria criar um superavit primário de 2,1% do PIB ao ano. O indicador considera a diferença entre receitas e despesas do governo, sem contar os gastos com juros da dívida. Mesmo no cenário mais otimista traçado pela instituição, esse resultado só seria alcançado a partir de 2029.
A IFI indica que parte relevante do problema está no crescimento das despesas obrigatórias. Cerca de metade dos gastos da União é indexada ao salário mínimo, como benefícios previdenciários, BPC (Benefício de Prestação Continuada) e seguro-desemprego. A valorização real do salário mínimo, a retomada dos pisos constitucionais de saúde e educação e o envelhecimento da população ampliam a pressão sobre o Orçamento.
As despesas primárias devem atingir 19,2% do PIB em 2026 e chegar a 19,9% em 2032. Já a receita primária líquida deve cair de 18,9% do PIB em 2026 para 18,3% no médio prazo. “Se o governo gasta mais do que arrecada, vai ter deficit. É isso que os números indicam”, afirmou Andrade.
O diretor da IFI disse que a alta do petróleo melhorou as projeções de arrecadação para 2026, por causa de royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras. Com isso, o governo deve cumprir a meta fiscal do ano com folga de R$ 18,2 bilhões acima do limite mínimo.
O efeito, no entanto, é temporário. Andrade afirmou que o petróleo mais caro também pressiona a inflação, especialmente por meio dos combustíveis e do frete. “Se o preço do barril ficar alto por muito tempo, isso afeta a inflação, e a inflação reduz o poder de compra das famílias”, disse. Segundo ele, a inflação mais alta leva o Banco Central a manter juros elevados por mais tempo, o que esfria a atividade econômica.
A IFI projeta crescimento do PIB de 2% em 2026 e de 1,8% em 2027. A inflação deve fechar este ano em 5%, acima da meta, enquanto a taxa Selic deve encerrar 2026 em 14% ao ano e recuar para 12% em 2027.
Segundo Andrade, há incerteza sobre a compensação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 mensais. A medida representa renúncia fiscal estimada entre R$ 25 bilhões e R$ 30 bilhões por ano. Ele declarou que contribuintes de renda mais alta costumam se organizar como pessoas jurídicas, o que pode reduzir o efeito da tributação sobre rendimentos acima de R$ 50.000 mensais.
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