PF retalia EUA e tira credenciais de agente norte-americano no Brasil

Medida não equivale a uma expulsão; segundo a Polícia Federal, funcionário dos Estados Unidos perde acesso às dependências da corporação em Brasília

A Polícia Federal retirou as credenciais de um agente dos Estados Unidos em Brasília, em resposta ao caso envolvendo o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, alvo dos EUA. A medida, segundo a corporação, foi tomada com base no princípio da reciprocidade. O movimento se dá no contexto da reação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que fala em revidar e cobra explicações depois de não receber comunicação oficial de Washington.

A PF confirmou ao Poder360 que a decisão partiu da própria corporação, e não do governo federal. As restrições se limitam às atividades relacionadas à Polícia Federal. A data da formalização não foi informada até a publicação desta reportagem.

O governo brasileiro afirma não ter recebido comunicação oficial sobre o caso. Sem aviso formal dos Estados Unidos, o retorno de Marcelo Ivo pode equivaler, na prática, a uma expulsão, ainda que sem rito oficial –o que afasta a hipótese de extradição.

A ação responde à decisão do governo do presidente Donald Trump (Partido Republicano), que solicitou a saída do delegado brasileiro. Marcelo Ivo atuava como oficial de ligação no ICE (Serviço de Imigração e Controle de Aduanas). A medida foi comunicada pelo Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental em publicação no X.

“Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro envolvido deixe o nosso país por tentar fazer isso”, afirmou o escritório.

O Ministério das Relações Exteriores convocou a encarregada de Negócios interina da Embaixada dos EUA em Brasília, Kimberly Kelly, para dar explicações. O Itamaraty confirmou que a reunião foi realizada na tarde de 3ª feira (21.abr.2026), mas não informou detalhes do encontro.

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em entrevista à GloboNews, disse que, com a medida, o agente norte-americano perde acesso às dependências da corporação e aos sistemas utilizados em suas atividades no Brasil.

“Eu retirei com pesar as credenciais de um servidor dos EUA pelo princípio da reciprocidade”, afirmou.

Na entrevista, Rodrigues afirmou que Marcelo Ivo de Carvalho deixou os Estados Unidos por sua determinação. Segundo ele, não houve nenhuma expulsão de nenhum funcionário brasileiro”

A declaração, porém, contradiz o Departamento de Estado dos EUA, que disse, na 2ª feira (20.abr), que um funcionário do governo brasileiro foi expulso do país por tentar fazer “perseguição política”.

A PF destacou que nenhuma das medidas equivale a uma expulsão. “Tanto o Marcelo Ivo não foi expulso dos Estados Unidos, como nós, Polícia Federal, não vamos expulsar ninguém do Brasil. Não é nosso papel”, disse Rodrigues.

A reação dentro do governo não é uniforme. Enquanto Lula fala em possível revide e menciona “reciprocidade” diante de eventual abuso, o presidente interino Geraldo Alckmin (PSB) defendeu cautela e afirmou que o Brasil deve aguardar os desdobramentos antes de adotar novas medidas.

QUEM É MARCELO IVO

Marcelo Ivo atuava como oficial de ligação da Polícia Federal em Miami, no Estado da Flórida, desde 2023. Natural de Santos (SP), tem formação em direito e ingressou na PF em 2003. Comandou a Delegacia da PF no aeroporto de Guarulhos em 2016 e foi delegado regional de Investigação e Combate ao Crime Organizado em São Paulo de 2018 a 2021.

O delegado se envolveu em um acidente que causou a morte de um motociclista em outubro de 2016. À época, estava com a CNH vencida há mais de um ano. Em setembro de 2020, a Justiça de São Paulo o absolveu por falta de provas.


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