O que você chama de amor… pode ser dependência emocional

Às vezes, a gente escreve… e só depois entende o que escreveu.
Como se as palavras viessem antes da consciência, como se algo dentro da gente já soubesse o que ainda não tivemos coragem de admitir.

O poeta tem disso.
Já me aconteceu… como se por instantes eu apenas atravessasse o que sentia, sem questionar, sem interromper.
E quando volto, o texto já está ali.

Relendo um poema que escrevi há algum tempo:

“Senti saudade do que nunca existiu.
Beijei bocas que sabiam seu sabor.
Num entardecer calado, fui canção sem ouvinte.
Era amor, mas era ausência — e eu provei.
O vento trouxe teu nome, mas não tua voz.
E a tarde morreu com um verso engasgado.”

“Senti saudade do que nunca existiu.”
E isso pesa. Não é uma saudade comum — é uma ausência que nunca teve forma, mas ainda assim machuca. Como se o coração tivesse vivido algo que a vida não confirmou.

Há quem sinta falta do que nunca aconteceu. Do “nós” que não existiu, dos planos que ficaram só na ideia.

E, tentando preencher isso, acabam ficando com qualquer presença.
“Beijei bocas que sabiam seu sabor.”
Não porque fossem certas, mas porque lembravam o que faltou.

E é aí que mora o erro.
O que parece amor, muitas vezes, é só dependência emocional.
É a necessidade de sentir algo para não encarar o vazio — insistir em presenças que não completam, apenas distraem.

“Num entardecer calado, fui canção sem ouvinte.”
E é nesse silêncio que a gente se encontra consigo mesmo. Se não cuidar, a tristeza se aprofunda.

Nem toda saudade é inocente. Algumas viram hábito.

“Era amor, mas era ausência — e eu provei.”
Nem todo amor se concretiza. E insistir nisso é prolongar uma falta desnecessária.

“O vento trouxe teu nome, mas não tua voz.”
Nem todo nome carrega presença. E entender isso é essencial.

Amar também é saber seguir.
Existem outras pessoas, outras histórias possíveis.

Porque há uma diferença enorme entre sentir…
e insistir no que nunca foi.

E crescer, talvez, seja aprender a soltar até aquilo que a gente nunca teve.

Leandro Flores | Poeta, jornalista e advogado. Ativista cultural e fundador do Café com Poemas e do Movimento Cultivista Brasileiro. Autor de Sorriso de Pedra, dedica-se à valorização do sertão e à promoção da literatura independente.
editoranspublicacoes@gmail.com
@leandroflores.poeta

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