Uma música que gosto muito é a Primeiros Erros, do Capital Inicial: “Se um dia eu pudesse ver/Meu passado inteiro/E fizesse parar de chover/ Nos primeiros erros”. Este verso ilustra muito bem a nossa discussão de hoje, sobre a memória e o esquecimento. A música descreve o desejo de apagar falhas do passado e recomeçar, ilustrando o nó da repetição e do esquecimento.
Hoje, vivemos sob a ditadura da memória total. Habitamos uma era em que o “HD infinito” e o armazenamento em nuvem nos convenceram de que nada deve ser perdido. Das pastas de fotos nos smartphones aos históricos de navegação, das métricas de desempenho às redes sociais que nos relembram, diariamente, o que fazíamos há exatos dez anos, o imperativo contemporâneo é o da saturação. Porém o esquecimento não é uma falha do sistema, mas o guardião da nossa sanidade.
Para o psiquismo humano, a memória total seria um inferno. Na psicopatologia, conhecemos o fenômeno da hipermésia, uma condição em que o indivíduo é incapaz de esquecer qualquer detalhe de sua vida. Longe de ser um “superpoder”, a hipermésia é paralisante. Sem o descarte, não há foco; sem o esquecimento, não há espaço para a criação.
Como bem pontuou Jorge Luis Borges em seu conto Funes, o Memorioso, “Minha memória, senhor, é como depósito de lixo (…) Suspeito, contudo, que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.”. Para vivermos o presente, precisamos que o passado se torne rastro, e não âncora.
Na clínica psicanalítica, no entanto, descobrimos que nem todo esquecimento é pacífico. Existe um tipo de “apagão” que Freud chamou de recalcamento. Diferente do esquecimento natural, o recalcamento é uma operação ativa do psiquismo. Nós esquecemos certas experiências, especialmente as traumáticas da infância, não porque elas deixaram de existir, mas porque a dor que elas carregam é inadmissível para a nossa consciência.
O problema é que o que está recalcado nunca permanece em silêncio. Ele habita o porão do nosso inconsciente e, de lá, atua invisível. É aqui que esbarramos no conceito freudiano de Compulsão à Repetição. Aquilo que não conseguimos lembrar de forma consciente e elaborar através da palavra, somos condenados a repetir em atos.
É o “dedo podre” em sucessivos relacionamentos abusivos; é a autossabotagem profissional que ocorre sempre que estamos prestes a alcançar o sucesso; é a necessidade obsessiva de agradar a todos, mesmo quando isso nos custa a própria saúde.
Repetimos porque o trauma busca um desenlace. Como na música, a busca incessante por um corpo que virasse sol, “mas só chove, chove”. O psiquismo tenta, desesperadamente, encenar a dor original na esperança de que, desta vez, o final seja diferente. Mas o final nunca muda enquanto o roteiro for inconsciente. Ficamos presos em um looping temporal onde o passado devora o futuro. Desatar esse nó exige a coragem de transformar a repetição em lembrança e a lembrança em palavra.
Ao avançarmos da psicanálise para a fenomenologia de Paul Ricoeur, encontramos uma ponte fundamental para a cura: a Hospitalidade Linguística. Ricoeur nos ensina que a nossa identidade não é um bloco de pedra imutável, mas uma “identidade narrativa”. Nós somos a história que contamos sobre nós mesmos.
O grande desafio da convivência é a capacidade de hospedar o estranho. Frequentemente, as versões passadas de nós mesmos nos parecem estranhas, vergonhosas ou aterrorizantes. O segredo para estabelecer limites saudáveis e desatar os nós da culpa é aprender a “traduzir” esses fragmentos de memória.
Muitas vezes, a família e o círculo social operam como carcereiros da nossa identidade. “Você sempre foi assim”, “Lembra daquela vez que você errou?”, “Você não muda”. Essas frases são invasões de território psíquico. Quando o outro não nos permite esquecer, ele nos nega o direito à transformação. Estabelecer um limite saudável na convivência é dizer ao mundo: “Eu reconheço o que vivi, mas eu não sou o prisioneiro da sua interpretação sobre mim”.
É aqui que chegamos ao ponto central: a relação entre o perdão e o esquecimento. Ricoeur, em sua obra A Memória, a História, o Esquecimento, propõe que o perdão é o ápice do percurso do reconhecimento. No entanto, é preciso desmistificar o perdão. Perdoar não é um ato de bondade “bonitinha” ou de submissão religiosa. O perdão é uma ética e uma operação de higiene mental.
Perdoar a si mesmo e ao outro é o ato de retirar a carga pulsional de um evento passado. O fato permanece lá, como um dado histórico. O que o perdão faz é desatar o nó do afeto doloroso que estava amarrado àquela cena.
Através do perdão, o esquecimento torna-se um “recurso de vida”. Eu esqueço a ferida para poder usar a cicatriz como mapa, e não como dor aberta.
Além disso sua mente, sua identidade, é sua morada. E como em qualquer morada, para que alguém (ou alguma lembrança) habite ali, é preciso seguir regras de convivência.
Se uma memória ou um relacionamento entra em sua casa apenas para desrespeitar seus valores, quebrar sua paz ou anular seu desejo, você tem o dever ético de expulsar esse “inquilino”. A liberdade está no limite. Só é livre quem sabe dizer “não” ao que invade, para poder dizer um “sim” autêntico ao seu próprio desejo.
A ética do esquecimento nos convida a aceitar a nossa finitude e as nossas falhas. O desejo de ser perfeito, de nunca ter errado ou de ser compreendido por todos é a receita para a neurose.
O trabalho analítico e a reflexão filosófica servem para que possamos, enfim, sair da posição de objetos da história alheia para nos tornarmos autores da nossa própria narrativa.
Deixe que o “estranho” de si mesmo faça morada, mas com as regras do seu tempo presente. O passado é um excelente professor, mas é um péssimo mestre.
É sempre tempo de desatar os nós e ter a coragem de esquecer!
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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