Apuração sobre o deputado, sem prazo para conclusão, pode empurrar decisão para depois das eleições
O deputado estadual Daniel Perez, indicado por Donald Trump (partido Republicano) para representar o país no Brasil, ainda não recebeu o agrément do governo brasileiro. Trata-se da autorização formal e obrigatória para que um diplomata assuma o cargo. Sem esse aval, ele não pode iniciar a missão. O processo de análise não tem prazo definido. Dependendo do Palácio do Planalto, vai durar o tempo que for necessário.
Perez, filho de imigrantes cubanos e crítico de governos de esquerda na América Latina, foi anunciado por Trump em 1º de junho. O nome depende também de aprovação do Senado norte-americano. Se confirmado, ele substituirá a embaixadora Elizabeth Bagley, que deixou o posto em janeiro de 2025. Desde então, os EUA têm apenas um encarregado de negócios no Brasil, o diplomata Gabriel Escobar.
Os EUA ficaram 17 meses sem embaixador no Brasil. Trump escolheu Perez durante as negociações do tarifaço e depois das idas de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, onde ele participou de uma audiência pública no Congresso norte-americano sobre o tema. Ter um embaixador norte-americano no Brasil é visto como positivo para auxiliares de Lula, mas a indicação veio a poucos meses das eleições presidenciais de outubro.
Uma quebra de protocolo incomodou o governo brasileiro. Pela prática usual, a consulta é feita em sigilo antes de qualquer anúncio público. Só depois de aprovado o nome é que a indicação costuma ser tornada pública.
Os EUA fizeram o caminho inverso. O currículo de Perez e o pedido formal de agrément só chegaram ao Itamaraty depois do anúncio público. Para diplomatas brasileiros, o processo já começou com rusgas.
Cabe a cada país decidir o tempo necessário para investigar o histórico do indicado, incluindo eventuais declarações contra autoridades ou instituições do país anfitrião. O país pode, inclusive, nunca responder. Foi o que aconteceu com Marcelo Crivella, indicado pelo governo Bolsonaro em junho de 2021 para a embaixada do Brasil na África do Sul. Passados quase 6 meses de silêncio, o próprio Brasil retirou formalmente a indicação em novembro daquele ano.
O tema ganhou ainda mais sensibilidade no governo Lula depois de o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, publicar críticas à política econômica brasileira depois do anúncio do tarifaço.
Sabatina no Senado norte-americano
Enquanto aguarda o agrément brasileiro, Perez também precisa avançar no processo interno dos Estados Unidos. Ele foi sabatinado pela Comissão de Relações Exteriores do Senado norte- americano nesta quinta-feira (16.jul), etapa que antecede a aprovação do nome pelo plenário.
Durante a sabatina, Perez afirmou que, se confirmado, vai defender “eleições livres e justas” no Brasil, além de apoiar as instituições democráticas e a liberdade de expressão no país. Ele também listou como prioridades a proteção de cidadãos norte-americanos no Brasil, o avanço de interesses comerciais dos EUA, o combate ao tráfico de drogas e ao crime transnacional, e parcerias que beneficiem a economia e os trabalhadores norte-americanos.
A sabatina foi no mesmo dia em que Brasil e EUA trocaram farpas publicamente, um dia depois de o tarifaço entrar em vigor: o governo norte-americano defendeu a medida como retaliação a Lula, enquanto o Planalto classificou as tarifas como interferência indevida e avalia aplicar reciprocidade.



