Quase ninguém muda de voto nesta polarização. O jogo do segundo turno é ativar quem ficou em casa. Lula fez exatamente isso com medo. A campanha de Flávio insiste no “Bolsonaro bonzinho” do primeiro turno — e o fogo do outro lado continua queimando.
Na polarização brasileira de hoje, o voto não se discute. Ele se protege. A rejeição ao outro lado chegou a um nível que se descreve melhor como asco do que como raiva. Raiva ainda permite conversa. Asco impede o toque. Quem está de um lado não chega perto do posicionamento do outro. Por isso, quase ninguém muda de voto. Os poucos que podiam mudar já mudaram — e foram, em sua maioria, absorvidos por Flávio no primeiro turno.
O segundo turno começa com Flávio à frente, algo em torno de dois pontos. Não era garantia. Era vantagem. E qualquer campanha que chega atrás nesse cenário sabe o que fazer: usar todas as armas disponíveis para virar o jogo. Principalmente a do medo.
O que Lula fez — e era previsível
A campanha de Lula não tentou converter o eleitor de Flávio. Tentou ativar quem não votou. A abstenção média passou de 20%. Esses eleitores estão cansados da briga esquerda-direita, mas ainda carregam um alinhamento. Não vão mudar de lado. Vão, se forem convencidos, levantar do sofá e votar no que já preferiam.
Para isso, Lula reduziu o medo de si e ampliou o medo de Flávio. Quer um exemplo: na sabatina do Jornal Nacional, disse ser favorável à redução da maioridade penal para crimes hediondos — posição que a esquerda combate há décadas. Aliados trataram como ponto alto. O PT não fechou questão. A PEC travou internamente. A fala pública veio na reta final. O mesmo padrão aparece em outras concessões de discurso: o objetivo não é princípio. É diminuir a rejeição e aumentar o receio do adversário.
O cálculo é claro. Se quem ficou em casa temer que Flávio ganhe, levanta e vota em Lula. Se o medo de Lula diminuir, a mesma pessoa não encontra motivo para ficar em casa.
A resposta de Flávio: água no fogo
A campanha de Flávio respondeu continuando o que funcionou no primeiro turno. O “Bolsonaro moderado”, mais atento a questões sociais, menos alinhado ao liberalismo econômico duro e ao direitismo radical. Funcionou para abocanhar indecisos e eventuais viradas. Esses já viraram.
Agora o cenário mudou. O adversário está jogando medo. Continuar com o mesmo time é o equivalente ao técnico que, aos 40 minutos do segundo tempo, com o adversário atacando sem parar, se recusa a mexer porque “está ganhando”. O gol ainda não saiu. Mas o time que está perdendo está mais forte. Insistir no que deu certo no primeiro tempo não segura o segundo.
Fogo nem sempre se apaga com água. Qualquer bombeiro sabe: às vezes se apaga com fogo. O aceiro que queima em volta do incêndio. A carga que desloca o ar e extingue as chamas de dentro. A campanha de Flávio apostou que o fogo do medo se apagaria com mais moderação. O resultado, até aqui, é o fogo do outro lado continuar avançando.
O mapa da abstenção favorece quem ativar o medo certo
Lula quer ativar quem ficou em casa. O mapa da abstenção, porém, não é neutro. Os estados com maior abstenção são, em grande parte, aqueles em que Flávio teve votação mais alta. Os redutos mais fortes de Lula registraram, em média, abstenção menor. A base petista já foi mais às urnas. A base de Flávio deixou mais gente em casa.
No Nordeste, onde a abstenção é alta, o alinhamento é majoritariamente de Lula. Há pouco espaço para Flávio converter sofá em voto. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a abstenção também é bem maior — e o voto é de direita. Se a campanha de Flávio ativar o medo de Lula com a mesma intensidade com que Lula ativa o medo de Flávio, a probabilidade de levantar mais eleitores do próprio campo do que do adversário é concreta.
O que falta
A campanha de Flávio ainda trata o segundo turno como continuação do primeiro. Não é. O jogo agora é de ativação, não de conversão. E a ativação, neste momento, passa pelo medo. Continuar oferecendo o “Bolsonaro bonzinho” enquanto o outro lado aponta risco é jogar água em fogo que já saiu do controle.
Flávio precisa responder com fogo. Não com moderação adicional. Com a mesma lógica que Lula está usando: reduzir o medo de si e aumentar o medo do adversário, de forma urgente e potente. As redes já estão esquentadas com o tema. O público que pode ser ativado está no território onde ele já é mais forte.
Sem isso, a vantagem de dois pontos se dissolve nos últimos minutos. Neste futebol não existe empate. Alguém ganha. E o técnico que se recusa a mudar o time porque “já funcionou” costuma ver o gol sair quando já não há mais tempo para reagir.
Por Tiago Lucero
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