Governo brasileiro aguarda tarifa adicional de 55% sobre a carne bovina após ter estourado cota de importação em julho
A tarifa adicional de 55% sobre a carne bovina brasileira vendida para China é questão de tempo. Em julho, os frigoríficos brasileiros já estouraram a cota de exportação de 1,106 milhão de toneladas definida para 2026 em uma corrida para embarcar o máximo possível ao país asiático antes dessa porta fechar.
Como a China só calcula a cota a partir da entrada do produto no país, a taxação ainda não foi anunciada oficialmente, pois a carne demora cerca de 2 meses para sair do Brasil e ser computada pela alfândega chinesa na entrada do produto no mercado asiático. A expectativa é de que o anúncio seja feito em setembro ou no início de outubro.
A China é a maior cliente da pecuária bovina brasileira. Em 2025, o Brasil registrou uma importação recorde de 1,68 milhão de toneladas ao mercado chinês, o equivalente a 48% das exportações brasileiras do produto.
Com as portas da China fechadas, é possível imaginar que os produtores brasileiros serão obrigados a escoar sua produção no mercado nacional, o que levaria a uma queda no preço da carne para os brasileiros. No entanto, o efeito é o inverso e a tendência é que o preço do produto aumente internamente.
Entenda o impacto

Um dos motivos é o perfil do que é vendido ao mercado chinês. Os frigoríficos vendem poucos cortes nobres –picanha, filé mignon, contrafilé– para os chineses. O principal são peças como o acém, a paleta, o peito e o músculo, muito utilizados na culinária asiática. Partes que não costumam ser muito aproveitadas no Brasil, como bochecha, língua, intestinos e até o pênis do animal, também são populares.
Depois do abate, os cortes são selecionados para os diferentes mercados, e é aí que estará o impacto nas peças favoritas dos brasileiros. Não faz sentido abater um boi para vender só as partes nobres e não aproveitar o restante, que poderia ser vendido a um preço melhor no mercado chinês.
Nessa lógica, é melhor aguardar a cota brasileira zerar na China em janeiro de 2027. Ou seja, serão menos abates enquanto a demanda do mercado interno continuará a mesma, desequilibrando a oferta e a demanda.
Dezenas de frigoríficos brasileiros já deram férias coletivas para os funcionários depois dos últimos embarques para a China em julho, o que significa que os abates já serão reduzidos em agosto.
O efeito da inflação no preço da carne brasileira poderá ser sentido nos últimos meses de 2026.
PESO ELEITORAL DA PICANHA
A inflação do preço da carne bovina nunca é boa para o governo, especialmente em ano eleitoral. Pior ainda quando o efeito deve ser sentido durante a campanha. Na última eleição, um dos lemas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi justamente uma picanha mais acessível.
Um aumento no custo do corte no 2º semestre e próximo da eleição pode ser uma frente de ataque da oposição contra o petista, que já anunciou que tentará a reeleição.
Para remediar essa variação no preço, o setor pecuarista conversa com o governo para regulamentar a situação em 2027. A ideia é que os frigoríficos tenham suas próprias cotas de importação para a China.
Dessa forma, a cota nacional seria cumprida ao longo do ano de forma programada, garantindo que não haja uma corrida para embarques ao mercado chinês.




