Apreendido na 6ª fase da Compliance Zero, material indica que banco de Daniel Vorcaro avaliava alternativa à negociação com o banco público de Brasília
Um documento apreendido pela PF (Polícia Federal) na 6ª fase da operação Compliance Zero mostra que o Banco Master avaliava um “plano B” para a venda da instituição antes da negociação com o BRB (Banco de Brasília). A etapa da operação foi deflagrada na 5ª feira (14.mai.2026) e cumpriu 7 mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Entre os presos estava Henrique Vorcaro, pai do ex-controlador do Banco Master Daniel Vorcaro.
O material foi enviado por Vorcaro ao ex-sócio Augusto Lima em 10 de abril de 2025 e previa uma cisão parcial do Master, com atuação do BTG Pactual, apoio do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) e transferência de ativos para uma estrutura que seria assumida pelo BRB.
A venda do Master ao BRB foi anunciada em 2025, mas acabou barrada pelo Banco Central. A operação passou a ser investigada pela PF por suspeitas de fraude na negociação de carteiras de crédito sem lastro entre as instituições. A Compliance Zero foi deflagrada em novembro de 2025 para apurar crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
A investigação afirma que o Master teria criado carteiras de crédito sem lastro e depois vendido os ativos ao BRB. Segundo o Ministério da Justiça, as apurações indicam que os créditos foram substituídos por ativos sem avaliação técnica adequada depois de fiscalização do Banco Central.
PLANO ALTERNATIVO
O documento apreendido pela PF trata de uma alternativa à venda do Master ao BRB. A existência de um “plano B” é considerada relevante para a investigação porque pode ajudar a reconstituir a cronologia das tratativas conduzidas pelo grupo de Daniel Vorcaro antes da operação com o banco público.
A apuração busca identificar se a negociação foi estruturada depois de outras tentativas de venda ou de reorganização dos ativos do Master. O ponto central é saber quando os executivos do banco passaram a considerar a operação com o BRB e quais eram as condições financeiras discutidas anteriormente.
O caso também interessa aos investigadores porque a venda ao BRB passou a ser tratada como uma das principais frentes da crise do Master. A PF apura se o banco público comprou carteiras de crédito fraudulentas do Master e qual foi a participação de executivos das duas instituições na operação.
OPERAÇÃO COM O BRB
O Banco Central barrou a compra do Master pelo BRB em setembro de 2025. A autoridade monetária não aprovou a operação, apresentada como forma de ampliar a atuação do banco público de Brasília no mercado financeiro nacional.
À época, o BRB pediu acesso à íntegra da decisão para avaliar os fundamentos da negativa e as alternativas cabíveis. A instituição afirmou que a transação representava uma “oportunidade estratégica com potencial de geração de valor” para o banco, clientes e o Sistema Financeiro Nacional. Leia a íntegra (PDF – 145 kB) do fato relevante.
O recuo do Banco Central ocorreu no momento em que deputados tentavam ampliar as hipóteses de demissão de integrantes da autoridade monetária. Em 2021, a lei foi aprovada na Câmara por 339 votos favoráveis e 114 contrários. Mais de 4 anos depois, congressistas passaram a defender a revisão de parte da legislação.
Hoje, a demissão só pode ocorrer em 4 circunstâncias:
- a pedido;
- em caso de doença que incapacite a pessoa para o exercício do cargo;
- se houver condenação por improbidade administrativa ou crime que impeça o acesso a cargos públicos;
- se houver “comprovado e recorrente desempenho insuficiente para o alcance dos objetivos do Banco Central”.
Os congressistas querem acrescentar uma 5ª hipótese de demissão. Ao todo, 7 deputados assinaram o requerimento de urgência. Leia a íntegra (PDF – 382 kB).
Depois da rejeição da operação, o caso passou a ser uma das principais frentes da Operação Compliance Zero. Segundo a PF, a investigação envolve a venda de carteiras de crédito consideradas falsas do Master ao BRB. O valor das operações investigadas chega a R$ 12,2 bilhões.
A PF também investiga possíveis crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, ameaça, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional.
COMPLIANCE ZERO
A operação Compliance Zero foi deflagrada pela PF em novembro de 2025. A investigação mira fraudes contra o Sistema Financeiro Nacional, com foco na emissão e negociação de títulos de crédito falsos por instituições financeiras.
Na 1ª fase, a PF cumpriu 7 mandados de prisão e 25 de busca e apreensão no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Minas Gerais. Também houve bloqueio de R$ 1,3 bilhão e afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, segundo o Ministério da Justiça.
Hoje, a investigação está sob relatoria do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal). Ele assumiu o caso em fevereiro, depois que Dias Toffoli pediu para deixar a relatoria. A saída ocorreu depois de a PF informar ao presidente da Corte, Edson Fachin, que havia menções a Toffoli em mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, apreendido na operação.
Toffoli não foi declarado suspeito, e o STF manteve a validade dos atos praticados por ele no processo.
Em março de 2026, a PF deflagrou a 3ª fase da operação para investigar ameaças, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos. Na ocasião, o STF autorizou o bloqueio de até R$ 22 bilhões em bens ligados aos investigados.
BANCO MASTER
O Banco Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, um dia depois de Daniel Vorcaro ser preso pela PF na 1ª fase da Operação Compliance Zero. A instituição era comandada pelo empresário e passou a ser investigada por suspeitas de irregularidades na emissão e negociação de ativos financeiros.
Na ocasião, Vorcaro foi detido no aeroporto de Guarulhos quando tentava embarcar em um jatinho particular. A defesa afirmou que a viagem havia sido comunicada ao Banco Central e que o destino era uma reunião com investidores. A PF, porém, apontou risco de fuga.
O empresário ficou preso por 11 dias e foi solto no fim de novembro com tornozeleira eletrônica e outras medidas cautelares.
Vorcaro voltou a ser preso em 4 de março de 2026, na 3ª fase da Compliance Zero, por ordem do ministro André Mendonça. A nova etapa da operação apurou suspeitas de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.
Depois da nova prisão, Vorcaro iniciou tratativas para uma possível colaboração premiada. Em 19 de março de 2026, assinou um termo de confidencialidade com a PF e a PGR (Procuradoria Geral da República), etapa preliminar para negociação de uma delação. No mesmo dia, André Mendonça autorizou sua transferência da Penitenciária Federal de Brasília para a Superintendência da PF na capital federal.
A proposta, porém, ainda não foi homologada pelo STF. Em maio, Mendonça afirmou que não havia tido acesso ao material entregue à PF e à PGR, mas disse que uma colaboração premiada precisa ser “séria e efetiva”. A declaração foi divulgada depois de o ministro sinalizar que não pretendia homologar os termos apresentados pela defesa de Vorcaro.



