Proposta cria regras para contratos, renda mínima e uso de IA; setor cobra financiamento e fiscalização
Especialistas e representantes do setor cultural defenderam na Câmara dos Deputados a criação de regras para a proteção dos trabalhadores do setor. O assunto foi tema de 2 debates na Comissão de Cultura na semana de 13 de abril de 2026.
Nos encontros foi discutida a minuta do Estatuto do Trabalhador da Cultura, das Artes e Eventos, que propõe criar regras específicas para o setor. As reuniões foram coordenadas pela deputada Erika Kokay (PT-DF) e pelo deputado Tarcísio Motta (Psol-RJ).
A proposta cria um marco legal para o setor, ao reconhecer características como a intermitência (trabalho descontínuo) e a existência de múltiplos vínculos.
O pesquisador Frederico Augusto Barbosa da Silva, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), explicou as diferenças desse ramo de atividade: “O trabalho cultural é marcado por intermitência, múltiplos vínculos e informalidade estrutural. Há diferenças em relação à CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]”.
Entre as propostas do texto estão:
- contrato intermitente qualificado – estipula trabalho por períodos, com pagamento pela disponibilidade e reconhecimento dos intervalos sem atividade;
- seguro cultural complementar – inspirado em modelos da França e de Portugal, busca assegurar renda mínima em períodos sem projetos;
- regras para uso de inteligência artificial – incluem proteção da imagem, da voz e do estilo dos artistas.
FINANCIAMENTO E FISCALIZAÇÃO
Representantes da sociedade civil cobraram a definição de fontes de financiamento para o novo fundo de proteção.
Jorge Bichara, da Cntec (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Educação e Cultura), sugeriu usar recursos da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional), além de editais e impostos sobre bilheteria.
A fiscalização também foi citada como um desafio.
O presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espectáculos de Diversões do Paraná, Adriano Esturilho, afirmou que empresas frequentemente recusam registrar contratos, alegando a chamada pejotização (contratação como pessoa jurídica). “O fato de sermos MEI não pode justificar a retirada de direitos conquistados em 1978”, disse.
POSICIONAMENTO DO GOVERNO
O Ministério da Cultura defendeu a aprovação da proposta com urgência.
O diretor de Políticas para Trabalhadores da Cultura, Deryc Santana, afirmou que a pandemia evidenciou a importância da arte, mas também a necessidade de garantir direitos a quem trabalha no setor. “Se perdermos essa oportunidade, o avanço pode demorar décadas”, alertou.
A diretora do Centro de Artes Técnicas da Funarte (Fundação Nacional de Artes), Carila Matzenbacher, destacou que a produção artística depende também de profissionais técnicos. “O estatuto é importante porque reconhece tanto artistas quanto técnicos como parte do direito cultural”, afirmou.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Câmara, em 15 de abril de 2026, às 20h04. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.



