Curso para ser Homem

É curioso observar o surgimento incessante de “cursos” que prometem ensinar alguém a ser o que não é. A novidade do momento é um tal curso para “ser homem”. O mais notável é que essas iniciativas quase sempre estão atreladas a uma vertente religiosa “cristã”, sendo promovidas por figuras masculinas influentes – e, pasme, geralmente homens brancos de classe média. Estamos falando, em regra, daquele perfil que pouco ou nada sabe sobre a realidade de quem enfrenta um transporte público lotado o ano inteiro, que concilia estudos e trabalho com poucas horas de sono, ou mora a dezenas de quilômetros do emprego.

O público-alvo desses convites são homens da minha geração, criados em lares machistas, racistas e preconceituosos, que ainda não conseguiram se adaptar a conviver com o que a sociedade, antes vista como “normal”, hoje reconhece como diversidade. O cenário atual é desafiador para eles: ver homens negros em posições de poder, mulheres bem-sucedidas que deixam relacionamentos abusivos e sustentam suas famílias sozinhas, pessoas com deficiência ativas no mercado de trabalho e a comunidade LGBTQIA+ vivendo e conquistando espaço sem a obrigação de esconder sua orientação.

É, de fato, complicado para esse perfil de homem. É difícil ouvir um “não” de uma mulher segura de si, ter que acatar ordens de um líder afeminado, negro ou deficiente. E, sim, é um desafio olhar para uma mulher atraente e não cair no assédio. Entendo a crise: o rastro de embalagens de tadalafila, a fumaça constante dos cigarros eletrônicos, as tatuagens aleatórias exibidas no braço e os cortes de cabelo fora de moda são sintomas de uma crise interna. Uma necessidade de retomar o controle da situação, de tomar uma pílula vermelha para poder ser o dono de si mesmo.

Crises financeiras, tristeza, pornografia – tudo é visto como motivo para o homem “amolecer”, enquanto as mulheres sempre souberam lidar com a covardia moral imposta pelo machismo. E a vida delas nem melhorou tanto assim. Algumas, sim, sonham em ser donas de casa, outras querem dirigir um carro elétrico, morando só em um flat de frente para um parque e com um cartão de crédito sem limite. A maioria, das mulheres, no entanto, precisa trabalhar, se não para equilibrar as contas, as vezes para sustentar o lar, pois o número de homens bancados pela “segunda mãe” (esposa, amante) é impressionante.

“Você não precisa de um curso para ser homem; você precisa de exemplos.”

Não procure longe. Olhe à sua volta e encontre um homem que não seja grosseiro com ninguém, que seja honesto, que respeite todas as pessoas sem distinção de gênero, classe social, ou qualquer outra diferença. Esse é o único “curso” que realmente vale a pena. A segunda dica é: Ocupe sua cabeça com coisas boas, malhe o corpo e a mente, evite muitos conselhos de gente que não consegue dizer de onde vem toda sua renda. Duvide até do que eu escrevi, mas garanto que se voce chegou até a última linha, já deve estar pensando o que lhe torna um homem de verdade.
Fui

Thiago Maroca é pai, escritor e mestre em educação. Teve bons e maus exemplos de homens em sua vida. Nunca buscou um curso para lhe ensinar como lidar com a frustação ou respeitar os outros.

Manda um oi: thiagomaroca@gmail.com

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