Chance de El Niño “muito forte” sobe para 81%, diz agência americana

A Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) divulgou nesta 5ª feira (9.jul.2026) uma nova previsão indicando 81% de chance de um El Niño “muito forte” em outubro, novembro e dezembro. O fenômeno climático já está em curso e deve se fortalecer até o fim de 2026. Eis a íntegra do comunicado (PDF – 182 kB).

No infografe abaixo, é possível acompanhar a evolução das probabilidades de cada faixa de intensidade do El Niño em trimestres móveis. Os dados são da Noaa. A possibilidade de um evento “muito forte” aparece a partir de julho, agosto e setembro e cresce ao longo do ano, até atingir o pico em outubro, novembro e dezembro, quando chega a 81%.

A Noaa já havia alertado em 14 de maio para a possibilidade de formação de um El Niño ainda no trimestre de maio, junho e julho, com 82% de chance de desenvolvimento do fenômeno. Naquele momento, a agência mantinha o status de El Niño Watch, usado quando as condições são favoráveis para a formação do fenômeno nos 6 meses seguintes. A previsão ainda indicava incerteza relevante sobre a intensidade do evento, sem nenhuma faixa de força com probabilidade superior a 37%.

Em 11 de junho, a agência elevou o status para El Niño Advisory, classificação usada quando as condições de El Niño já são observadas e devem continuar. A partir daí, a chance de um evento “muito forte” subiu para 63% no trimestre de novembro, dezembro e janeiro.

Na atualização de julho, a probabilidade de um evento dessa magnitude subiu para 81%, concentrada no trimestre de outubro, novembro e dezembro. Esse é o maior percentual indicado pela Noaa para a categoria até o momento.

A agência avalia a formação do fenômeno a partir da temperatura da água em uma área do oceano Pacífico equatorial, mas também já registrou sinais atmosféricos compatíveis com o avanço do El Niño. Citou anomalias em trajetos de massas de ar e formação de nuvens.

De acordo com a Noaa, há 97% de chance de o fenômeno persistir até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte. O órgão também diz que, caso se confirme, o evento “muito forte” previsto para este ano poderá ficar entre os maiores El Niños já registrados desde 1950. Ainda assim, a agência ressalta que mesmo episódios intensos não produzem impactos típicos em todas as regiões.

Só 5 episódios chegaram a esse patamar de intensidade desde que a Noaa começou a medir El Niños na década de 50: 

  • 1972 e 1973;
  • 1982 e 1983;
  • 1997 e 1998;
  • 2015 e 2016;
  • 2023 e 2024.

No Brasil, os impactos mais extremos estiveram relacionados a enchentes na região Sul, como as registradas no Rio Grande do Sul, em 2024, e no município de Blumenau (SC), em 1983.

O QUE É O EL NIÑO

O El Niño é um evento climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico equatorial central e oriental. Ele integra o chamado Enos (El Niño–Oscilação Sul) e altera padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. Segundo a OMM (Organização Mundial de Meteorologia), episódios desse fenômeno costumam ocorrer a cada 2 a 7 anos e duram, em geral, de 9 a 12 meses.

Na prática, o aquecimento do Pacífico interfere na circulação de ar na atmosfera. Em condições normais, massas de ar empurram águas mais quentes para o oeste do oceano, em direção à Ásia. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem, permitindo que o calor se espalhe pelo Pacífico central e oriental. 

A OMM afirma que esses eventos alteram a formação de nuvens e podem favorecer secas em algumas regiões e chuvas acima da média em outras. Além de exercer efeito de aquecimento sobre a temperatura média do planeta.

MEDIÇÃO

A Noaa acompanha o fenômeno por meio do Roni (Relative Oceanic Niño Index), indicador que mede o quanto a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, no Pacífico equatorial, está acima ou abaixo do padrão esperado. 

O índice também desconta a influência do aquecimento médio dos trópicos, o que permite avaliar de forma mais precisa a intensidade do aquecimento associado ao El Niño. Para que haja condição de El Niño, o Roni precisa atingir ao menos +0,5°C, acompanhado de sinais atmosféricos compatíveis. 

A classificação de intensidade usada pela Noaa considera as seguintes faixas do índice:

  • El Niño fraco: de +0,5°C a menos de 1,0°C;
  • moderado: de +1,0°C a menos de 1,5°C;
  • forte: de +1,5°C a menos de 2,0°C;
  • muito forte: +2,0°C ou mais.

É nessa última categoria –muito forte, com anomalia igual ou superior a 2,0 °C que se enquadram os episódios frequentemente chamados de “super” El Niño no debate público. Nesses cenários, os efeitos associados ao fenômeno, como alterações no regime de chuvas e aumento de temperaturas, tendem a ganhar intensidade, embora a Noaa afirme que o evento mais forte não garante, por si só, impactos extremos em todas as regiões.

IMPACTO NO BRASIL VARIA

Segundo uma nota técnica publicada em abril de 2026 por diversas entidades, incluindo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), o El Niño pode provocar efeitos distintos nas regiões brasileiras. 

No Norte, a tendência é de redução das chuvas na Amazônia, com possibilidade de prolongamento da estação seca. O quadro aumenta o risco de incêndios florestais e pode provocar queda no nível dos rios, afetando a navegação, a pesca, a geração hidrelétrica e o abastecimento de populações ribeirinhas.

No Nordeste, a nota aponta maior probabilidade de chuvas abaixo da faixa normal climatológica, associadas a temperaturas médias e máximas mais elevadas. A combinação pode intensificar o estresse hídrico e ampliar a suscetibilidade a incêndios florestais em ecossistemas vulneráveis.

Já no Centro-Oeste, os efeitos do fenômeno são mais brandos. Ainda assim, o documento indica tendência de temperaturas mais elevadas, sobretudo na primavera e no verão, com aumento do risco de queimadas. Em episódios fortes, as chuvas podem se tornar mais regulares em Mato Grosso do Sul e em parte de Goiás.

No Sudeste, os efeitos sobre a chuva são mais variáveis. A nota afirma que pode haver aumento da precipitação no sudeste de São Paulo, no centro-sul do Rio de Janeiro e em Minas Gerais, enquanto áreas mais ao norte podem registrar redução das chuvas. Também há risco de estiagens, veranicos –fenômeno associado a dias secos e sem chuva– e ondas de calor mais frequentes e prolongadas.

Na região Sul, o El Niño tende a favorecer chuvas acima da média. A nota afirma que não se descarta a ocorrência de eventos extremos associados a inundações, em razão do maior transporte de umidade e da formação de sistemas convectivos e ciclones extratropicais mais intensos. A região também pode registrar temperaturas acima da média, sobretudo no inverno e na primavera.

Os órgãos ressaltam que os impactos podem variar em intensidade e distribuição espacial conforme a força do El Niño e a interação com outros sistemas climáticos, como as condições do Atlântico Tropical.


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