Pressão de Lula e de seus aliados impediu que a ideia avançasse; anúncio era esperado para ser feito antes da Copa
A Caixa Econômica Federal desistiu de lançar a “bet da Caixa” em 2026. O anúncio de uma casa de aposta ligado ao governo, que poderia ser feito neste ano por causa da Copa do Mundo, ficou para 2027 –se houver. A resistência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de seus aliados impediu que a ideia avançasse.
A estatal já desembolsou R$ 30 milhões pela outorga federal para viabilizar a bet. O anúncio foi sendo gradualmente prorrogado pela equipe da Caixa até a ideia subir de vez no telhado. A bancada do PT na Câmara protocolou, nesta semana, um projeto de lei que proíbe a exploração, a oferta, a promoção e a facilitação de apostas de quota fixa no Brasil.
O presidente Lula, em entrevista ao ICL Notícias, disse que, se depender dele, as empresas de apostas seriam fechadas.
“Se as bets causam o mal que a gente acha que causa, por que a gente não acaba com as bets? Ou regula para que não tenha tantas bets no Brasil e você possa ter algumas, se é que tem alguma serventia”, disse.
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) afirmou que o partido está “cercando as bets há algum tempo”, porque o tema virou um problema de saúde pública. Ele já defendeu rever a liberação das casas de apostas no país.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse, em dezembro de 2025, que o projeto de criação de bet da Caixa era “especulação”, mas, além da estatal já ter pago R$ 30 milhões à União pela outorga, o presidente da Caixa, Carlos Vieira, defendeu a criação de uma casa de aposta.
Leia o que já disse o presidente da Caixa sobre o tema:
- mar.2024 – “Temos todo um planejamento para entrar no mundo das bets, e aí é um outro universo. Estamos considerando a possibilidade de iniciar a partir de 2025. A Caixa está autorizada como qualquer outra empresa a atuar no mercado das bets, seguindo a legislação estabelecida”;
- ago.2024 – “O mercado no Brasil tende a crescer muito nesse segmento. A Caixa quer estar presente e tem uma série de iniciativas construídas nesse sentido”;
Vieira disse que a Caixa esperava arrecadar R$ 18 bilhões em 2 anos com o ingresso do banco no mercado de apostas esportivas.
MERCADO DE BETS
Em relatórios públicos, a Caixa Loterias também já defendeu a operacionalização no mercado de apostas de quota fixa. Disse que o mercado de loterias e apostas apresenta um “cenário desafiador e promissor”, exigindo da Caixa Loterias uma postura de adaptação constante e inovação estratégia.
Leia na íntegra o que disse a Caixa Loterias no Relatório Integrado 2024:
“A recente regulamentação das Apostas de Quota Fixa, iniciada com a aprovação da Lei nº 14.790/2023, representa tanto oportunidades quanto desafios para a CAIXA Loterias. O novo arcabouço regulatório estabelece um ambiente mais estruturado e transparente, com regras claras para a operação de empresas e maior arrecadação tributária.
“A análise comparativa entre o mercado brasileiro e os mercados internacionais regulados evidencia a necessidade de uma estratégia de longo prazo para a CAIXA Loterias. Embora o crescimento do setor no Brasil seja promissor, há a tendência de ser mais moderado em razão da presença prévia de operadores offshore, que já atuavam no país antes da regulamentação formal. Diante desse cenário, a Companhia tem investido em estudos e análises das melhores práticas internacionais, com o objetivo de identificá-las e adaptá-las ao contexto nacional, garantindo competitividade e manutenção da participação de mercado.
“A compreensão do perfil do apostador brasileiro é outro elemento essencial na definição das estratégias da CAIXA Loterias. Com foco na centralidade do cliente, a Companhia realiza investimentos contínuos em pesquisas de comportamento e preferências, visando ao desenvolvimento de produtos e serviços que atendam às expectativas dos apostadores e promovam maior engajamento.
“Ainda sob a ótica da centralidade do cliente, a CAIXA Loterias mantém como prioridade o enfrentamento dos transtornos relacionados ao jogo, sendo pioneira na adoção das práticas de Jogo Responsável no mercado brasileiro, com a implementação de medidas para proteção dos jogadores, promoção do jogo seguro, com vistas a garantir que a atividade seja conduzida com responsabilidade e ética.
“Em síntese, o mercado de loterias e apostas no Brasil apresenta um cenário desafiador e promissor, exigindo da CAIXA Loterias uma postura de adaptação constante e inovação estratégica. A Companhia reconhece a importância de acompanhar a regulamentação do setor e as mudanças no comportamento do consumidor, investindo em ações que fortaleçam sua posição de mercado. Entre essas ações, destacam-se a diversificação e atratividade dos produtos, a promoção do Jogo Responsável e a análise das tendências do setor, com o objetivo de garantir a sustentabilidade e o crescimento dos negócios”.
O Poder360 procurou a Caixa Econômica Federal para perguntar se gostaria de se manifestar. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso uma manifestação seja enviada a este jornal digital.
LICENÇA E NOMENCLATURA
A Caixa Loteria S.A obteve autorização em julho de 2025 da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda para explorar apostas de quota fixa no Brasil, como fazem as bets. A permissão foi oficializada por meio da Portaria SPA/MF nº 1.665, publicada no DOU (Diário Oficial da União). Leia a íntegra (PDF – 83 KB).
A portaria permite que a Caixa Loterias S.A., inscrita no CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) 24.038.490/0001-83, opere com 3 marcas no mercado de bets: BetCaixa, MegaBet e Xbet Caixa.
A Caixa entraria no mercado regulado –já consolidado no país– para concorrer com empresas privadas. Havia a avaliação de que a bet da Caixa também combater o jogo ilegal, fomentando a saída de pessoas que apostavam em sites irregulares, que movimentam bilhões de reais em recursos anualmente, segundo operadores do setor.
O TCU (Tribunal de Contas da União) deu início a uma apuração sobre a demora da Caixa Loterias S.A. no lançamento da plataforma e exploração do serviço. A Febralot (Federação Brasileira de Empresas Lotérias) divulgou uma nota em fevereiro para protestar contra o governo federal, que suspendeu o projeto da bet da Caixa.
GOVERNO CONTRA BETS
As bets têm sido um alvo constante do governo Lula. A pedido do presidente, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, fará um pacote contra o endividamento das famílias que impedirá um reendividamento por causa de apostas de quota fixa.
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad critica o governo Jair Bolsonaro (PL) por não ter cobrado impostos sobre GGR (Gross Gaming Revenue, a receita bruta com jogos) durante todo o mandato. Para ele, houve um incentivo fiscal que possibilitou forte expansão do mercado e uma “pandemia” das casas de apostas no Brasil.
A equipe econômica conseguiu, com aval do Congresso, aprovar uma taxação do GGR de 12% em 2025 para 15% até 2028. A arrecadação do governo com as casas de apostas somou R$ 2,5 bilhões no 1º bimestre.
As casas de apostas também foram alvo do governo e do PT em campanhas publicitárias de “taxação de BBBs” (“bancos, bets e bilionários”).
O Poder360 antecipou que, em agosto de 2024, o Banco Central contabilizou que 5 milhões de pessoas pertencentes ao Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões via Pix às casas de apostas. Depois disso, o governo proibiu o uso do pagamento do benefício social para jogos de azar.
Até dezembro de 2025, o Ministério da Fazenda havia bloqueado o acesso de cerca de 900 mil beneficiários do Bolsa Família e BPC (Benefício de Prestação Continuada) a plataformas de apostas on-line.
O governo Lula criou uma plataforma de autoexclusão dos apostadores a todas as bets autorizadas a operar no país. As pessoas têm, desde dezembro do ano passado, um “botão” para os brasileiros que avaliam que os jogos de apostas começaram a afetar negativamente sua vida.



