Audiodescrição e Libras ampliam o acesso à cultura no encontro da Chapada dos Veadeiros

Experiência de visitante com deficiência visual, interpretação em Libras e recursos para pessoas surdocegas evidenciam a importância da formação profissional e do planejamento da acessibilidade

Por Paula Rocha | Assessora de Comunicação da Raposo Acessibilidade

CHAPADA DOS VEADEIROS (GO) — Uma obra de arte pode ser percebida pela descrição cuidadosa de suas formas, cores e detalhes. Uma manifestação cultural pode se tornar mais acessível quando a interpretação em língua de sinais considera o contexto histórico e os conhecimentos tradicionais envolvidos. Para pessoas surdocegas, recursos táteis podem abrir caminhos de comunicação que passam pelas mãos. Essas possibilidades estiveram presentes nas ações da Raposo Acessibilidade durante o 26º Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, realizado em outubro de 2026, em parceria com a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge (CCCJ).

As atividades integraram a proposta “Acessível para Todos” e demonstraram como a acessibilidade comunicacional depende de recursos adequados, planejamento e profissionais preparados para compreender as particularidades de cada situação.

Audiodescrição permite novas formas de apreciar a arte

Um dos momentos marcantes ocorreu durante uma visita guiada à Exposição dos Garimpeiros. Uma participante com deficiência visual decorrente de diabetes teve a oportunidade de conhecer as obras por meio da audiodescrição e do contato tátil com uma escultura de madeira, disponibilizada por um expositor.

A atividade permitiu explorar aspectos da obra por caminhos diferentes da percepção visual. Com descrições verbais detalhadas e a possibilidade de tocar a escultura, a participante pôde construir uma experiência própria de apreciação artística.

Wagner Nascimento, consultor e coordenador da Raposo Acessibilidade, relata que a visitante compartilhou sua experiência na rádio do evento. Segundo ele, ela contou que aquela havia sido a primeira vez que ouvia falar em audiodescrição e descreveu a sensação de conseguir “enxergar de novo”, mas pelos olhos de outra pessoa.

O depoimento demonstra como o acesso à cultura pode mudar quando as informações visuais são traduzidas em descrições organizadas e compreensíveis.

A audiodescrição transforma elementos visuais em informações verbais que ajudam a pessoa com deficiência visual a compreender características relevantes de uma obra, cena ou ambiente. Quando apropriado e disponível, o contato tátil com objetos também pode complementar essa experiência, respeitando as condições de conservação e as orientações de cada exposição.

O episódio reforça a importância de incorporar recursos de acessibilidade ao planejamento de atividades culturais, permitindo que a participação não dependa exclusivamente da visão.

Libras exige domínio da língua e conhecimento cultural

A acessibilidade comunicacional também esteve presente por meio da interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras), tanto nas atividades presenciais quanto nos materiais audiovisuais gravados.

Formado pela Universidade de Brasília (UnB) em Língua de Sinais e Português como Segunda Língua, Iury Ferraz destaca que o trabalho de interpretação em um encontro dedicado às culturas tradicionais exige preparo linguístico e conhecimento dos temas abordados.

“Não basta saber a Língua Brasileira de Sinais. Quando se lida com termos em iorubá, tupi-guarani ou contextos específicos de manifestações tradicionais, o intérprete precisa ter competência linguística e repertório prévio. A acessibilidade precisa ser precisa para ser verdadeira”, afirma.

Iury explica que o profissional precisa compreender o contexto das manifestações culturais para transmitir as informações de maneira adequada. Em um evento que reúne diferentes tradições, referências religiosas, expressões artísticas e conhecimentos comunitários, o repertório cultural contribui para preservar os sentidos da comunicação.

O intérprete destaca ainda que o conhecimento de Libras, por si só, não equivale à formação profissional necessária para atuar na interpretação. A atividade exige domínio linguístico e técnicas específicas de processamento e transmissão da informação.

Entre os recursos abordados pela equipe estão a Libras Tátil e a comunicação háptica, estratégias que podem contribuir para a comunicação com pessoas surdocegas.

Na Libras Tátil, a pessoa atendida utiliza o tato para perceber os sinais transmitidos pelo intérprete, colocando as mãos sobre as mãos do profissional conforme a modalidade de comunicação adotada.

Já a comunicação háptica utiliza toques convencionados para transmitir informações sobre o ambiente, acontecimentos e aspectos expressivos da interação. Esses recursos precisam ser empregados de acordo com as necessidades e preferências da pessoa atendida.

Para Iury, a inclusão comunicacional depende de reconhecer que nem todos recebem informações pelos mesmos canais. A oferta de recursos adequados pode ampliar a autonomia e as possibilidades de participação, desde que exista preparação profissional e atenção às características individuais.

A presença desses recursos em um evento cultural também contribui para ampliar a compreensão do público sobre as diferentes formas de comunicação e sobre a importância de garantir acesso à informação.

A formação profissional faz diferença

A atuação em acessibilidade exige mais do que boa vontade. Audiodescrição, interpretação em Libras e assistência ao público envolvem conhecimentos específicos, preparação e capacidade de avaliar as necessidades de cada atividade.

No caso da interpretação em eventos tradicionais, por exemplo, a equipe precisa considerar os temas abordados, os contextos culturais e as particularidades do vocabulário utilizado. Na audiodescrição, é necessário organizar as informações visuais de maneira clara e relevante, sem substituir a experiência individual de quem recebe a descrição.

Essas exigências reforçam a importância de integrar profissionais especializados desde o planejamento do evento. A acessibilidade deixa de ser uma providência isolada e passa a fazer parte da organização das atividades, dos conteúdos e das formas de atendimento.

Para Wagner Nascimento, a experiência acumulada pela Raposo Acessibilidade fortalece a compreensão de que a inclusão demanda diferentes especialidades. A equipe reúne profissionais de assistência, audiodescrição, interpretação em Libras e coordenação, além de estratégias de acolhimento.

A atuação da Raposo Acessibilidade também possui uma dimensão educativa. O nome Raposo surgiu de uma brincadeira de faz de conta entre amigos que deu origem a três livros infantis, com um quarto volume previsto nos planos da equipe.

A proposta é abordar a acessibilidade de maneira lúdica, simples e sem tabus, aproximando o tema do cotidiano e contribuindo para combater preconceitos e desinformação.

Entre os próximos passos estão o lançamento dos livros infantis, novas propostas de trabalho em Brasília e em outros estados e a realização de palestras educativas em escolas.

A experiência no 26º Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros também reforça a importância de ampliar o diálogo com escolas, poder público e Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), para que práticas inclusivas possam alcançar outros espaços e comunidades.

A experiência da Raposo Acessibilidade no encontro mostra que a comunicação acessível não se resume à disponibilização de um recurso específico. Ela depende da combinação entre planejamento, conhecimento técnico, compreensão cultural e respeito às necessidades de cada pessoa.

Uma visita guiada com audiodescrição pode abrir novas possibilidades de apreciação artística. A interpretação em Libras pode aproximar o público surdo dos conteúdos e das manifestações culturais. Os recursos táteis podem favorecer a comunicação com pessoas surdocegas. Cada estratégia responde a necessidades próprias e contribui para ampliar o acesso à informação e à cultura.

A parceria com a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge integra essa perspectiva de inclusão, que considera tanto os recursos técnicos quanto às relações humanas estabelecidas durante a programação.

Para Wagner, o conceito “Acessível para Todos” resume a importância de oferecer condições para que cada pessoa participe e encontre acolhimento quando necessário.

A proposta é que a acessibilidade seja reconhecida como parte do direito de participar da vida cultural, e não como um complemento opcional. Afinal, a diversidade celebrada por um encontro cultural também precisa estar presente nas condições oferecidas ao público para conhecer, compreender e vivenciar as diferentes expressões artísticas e tradicionais.

Sobre a Raposo Acessibilidade

A Raposo Acessibilidade atua com consultoria, planejamento e execução de ações de acessibilidade em eventos e projetos culturais. Seu trabalho articula audiodescrição, interpretação em Libras, assistência ao público e estratégias de acolhimento, com a proposta “Acessível para Todos”. A iniciativa também desenvolve ações educativas para aproximar a acessibilidade do cotidiano.

Contato para a imprensa:
Paula Rocha — Assessora de Comunicação da Raposo Acessibilidade
raposoacessibilidade@gmail.com

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