Governo Lula mantém Pix e etanol fora da negociação e pretende explorar politicamente atuação de Flávio Bolsonaro após o anúncio
A administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trabalha com o cenário de que a tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros por supostas práticas desleais de comércio é inevitável. O governo só calculará uma eventual resposta depois da publicação da decisão norte-americana, marcada para esta 4ª feira (15.jul.2026), quando serão conhecidos os setores atingidos, segundo apurou o Poder360.
A equipe econômica mantém os canais técnicos abertos e tenta viabilizar uma última reunião de alto nível com o USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) antes do prazo legal. O objetivo não é reverter a decisão, mas antecipar seu alcance e identificar os setores incluídos na versão final.
A imprevisibilidade da política comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano), impede que o governo faça projeções antes da publicação oficial. Por isso, o Palácio do Planalto evita antecipar como responderá aos diferentes cenários.
O USTR apresentou as propostas de tarifas em 1º e 2 de junho de 2026. São elas:
- 25% – por supostas práticas desleais de comércio. A medida resulta de uma investigação comercial aberta contra o Brasil em 15 de julho de 2025;
- 12,5% – por suposta falta de restrições à importação de produtos feitos com trabalho forçado análogo à escravidão. A medida decorre de uma investigação global conduzida pelo USTR.
A avaliação técnica do governo é que o uso da Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974, fortalece juridicamente a posição norte-americana. Diferentemente do tarifaço de 2025, imposto com base em poderes emergenciais concedidos ao presidente e posteriormente barrado pela Justiça dos Estados Unidos, a nova medida decorre de uma investigação comercial formal conduzida pelo USTR. Na avaliação de técnicos do governo, isso reduz a possibilidade de reversão judicial.
As negociações entre os 2 países podem continuar mesmo depois da decisão desta 4ª feira (15.jul.2026). Pix e etanol continuam fora das negociações para o governo brasileiro, independentemente do resultado das tratativas. Também não estão em discussão os acordos comerciais do Brasil com México e China. O governo não cogita romper tratados com outros países para atender aos interesses dos Estados Unidos.
O Planalto tenta manter as conversas restritas à área comercial, sem abrir espaço para discussões sobre decisões do Judiciário ou integrantes da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
No ano passado, Trump usou o anúncio da investigação comercial contra o Brasil para criticar o STF (Supremo Tribunal Federal) e afirmar que Jair Bolsonaro era alvo de uma “caça às bruxas”. Na ocasião, vinculou a abertura da investigação e a imposição de tarifas às críticas que fazia ao tratamento dado ao ex-presidente brasileiro.
Integrantes do Executivo atribuem parte da nova rodada de tarifas à atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) junto ao governo norte-americano.
O Planalto pretende explorar o episódio durante a campanha eleitoral, associando a pressão dos Estados Unidos à atuação do senador. Integrantes do PT afirmam que as medidas representam uma tentativa de interferir nas eleições de 2026 e atribuem parte da pressão norte-americana à articulação da oposição brasileira com a Casa Branca.
Na frente institucional, o governo manterá o discurso de que a atuação do senador teve caráter eleitoral e contribuiu para legitimar a investigação comercial contra o Brasil.
Na semana passada, depois da participação do senador em uma audiência pública do USTR, o Planalto divulgou nota em que afirmou que Flávio Bolsonaro atuou contra os interesses nacionais ao respaldar a ofensiva comercial norte-americana.



