GENTE · POLÍTICA & PODER
“Sou o homem mais chato da campanha — não tenho escândalo nenhum para contar”Paulo Sá combina jeitão de negociador tranquilo com agenda de reformas ambiciosa. Em tempos de grito, ele aposta no argumento
REDAÇÃO · BRASÍLIA, DF
A reunião estava marcada para as 9h numa sala sem janela no centro de Brasília. Às 8h57, Paulo Sá já estava sentado, na mesa, café na mão, dois cadernos abertos. “Chego cedo porque respeito o tempo do outro”, diz, sem solenidade. “E porque tenho muita coisa para resolver.
Naquele dia, entre a manhã e o fim da tarde, ele recebeu um representante do setor de tecnologia, o presidente de uma federação de micro e pequenas empresas, dois diretores de escola pública e um grupo de jovens da periferia do DF interessados em programa de primeiro emprego. Grupos que dificilmente sentam à mesma mesa, amas que Sá trata com o mesmo vocabulário de quem entendeu o problema antes de chegar.
“Política de Estado não tem cor partidária. Tem metodologia, tem meta, tem prazo e tem responsável. O resto é conversa.”
“PAULO SÁ
Aos 40 anos, ele não tem a energia performática do político que discursa para a câmera. Tem a energia de quem leu o processo antes da audiência. Casado há doze anos, pai de um filho de sete, fala da família com a mesma objetividade com que descreve um projeto de lei: “Família estável, filho estudando, mulher que trabalha. Isso me ancora. Não tenho drama pessoal para transformar em capital político.
A ironia aparece aqui: num momento em que drama e escândalo parecem ser pré-requisitos para existir na timeline, Sá escolheu ser deliberadamente sem história sórdida para vender. “Sou o homem mais chato da campanha”, brinca. “Não tenho escândalo nenhum para contar. Só propostas. Vai ser difícil virar meme.
A plataforma tem seis eixos, educação de base, desburocratização, acesso à tecnologia, saúde, esporte e valorização do setor produtivo, e cada um vem acompanhado de indicadores mensuráveis. “Se não tem métrica, não é proposta. É desejo”, define. A linguagem técnica, porém, não escorrega para o jargão: ele traduz tudo para o impacto na vida real do cidadão.
O que mais impressiona quem o acompanha em campo é a transição de registro. Com o empresário, fala de ambiente regulatório e custo Brasil. Com a diretora da escola, fala de aprendizagem funcional e mercado de trabalho. Com o jovem da periferia, fala de oportunidade concreta. “Não é populismo”, pondera um interlocutor que preferiu não ser identificado. “É vocabulário. Ele domina o vocabulário de cada grupo.”




