Nº de jornalistas contratados via CLT em Redações cai 31% desde 2014

Profissionais formalmente registrados na área eram 42.605 no pico e agora são 29.306; queda vai na contramão da alta do emprego em geral e coincide com crescimento da pejotização

O número de jornalistas com Carteira de Trabalho assinada em cargos típicos de Redações de veículos de jornalismo caiu 31% desde 2014, quando esteve no pico. Àquela época, eram 42.605 profissionais da área registrados pelas regras da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). No fim de 2025, esse número havia caído para 29.306.

O dado é de levantamento do Poder360 a partir de dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) e de movimentações do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).

Os registros de agora estão no menor patamar desde pelo menos 2010. Isso mesmo com crescimento acelerado dos vínculos formais nos demais setores da economia e com o desemprego na mínima histórica.

Infográfico sobre a queda dos jornalistas formais no Brasil

Todos os cargos comuns em Redações jornalísticas e consolidados na Rais perderam profissionais formais desde 2014. As maiores quedas foram nas categorias de críticos, editores de revistas e repórteres fotográficos, como mostra o quadro abaixo:

Infográfico sobre a queda dos jornalistas formais no Brasil

Os dados compilados pelo Ministério do Trabalho têm algumas falhas, mas as limitações não impactam a leitura geral dos quadros acima. Houve mudanças de metodologias ao longo dos anos. Os números de 2020 e antes podem ter leves variações a depender dos filtros aplicados e da base que foi consultada.

Não é possível saber se todos os profissionais registrados cumprem estritamente a função descrita na Carteira de Trabalho nem se têm registro ativo como jornalista, por exemplo. O Poder360 considerou só os vínculos regidos pela CLT. Estagiários, aprendizes e funcionários que trabalham para algum governo ou em assessorias de imprensa e consultorias não entraram na conta.

BAIXAS EM TODOS OS ESTADOS

A queda dos empregos formais via CLT de jornalistas de Redações se deu em todos os Estados, com as maiores baixas registradas no Espírito Santo, no Amazonas e em Rondônia.

São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal (apesar de também terem registrado queda) se mantêm como as unidades da Federação com o maior número de profissionais do jornalismo formalmente registrados em Carteira de Trabalho.

Infográfico sobre a queda dos jornalistas formais no Brasil

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) implementou em 2011 a desoneração da folha de pagamento com o intuito de fomentar o mercado de trabalho. Essa medida chegou a beneficiar 56 setores da economia (incluindo a indústria de mídia). O número foi reduzido para 17 setores por Michel Temer (MDB), em 2018, mas mantendo o setor de mídia.

Os números apresentados neste texto mostram que essa política de desoneração (que terá um fim gradual até 2028) não teve o efeito esperado, pelo menos para salvar os cargos formais de jornalismo no Brasil.

DIVISÃO POR SEXO

As mulheres são 49,9% de todos os jornalistas contratados via CLT em redações. Os homens, 50,1%.

Apesar dessa distribuição quase igualitária, as pessoas do sexo masculino são maioria em cargos mais ligados à chefia, como diretor de Redação e editor.

Infográfico sobre a queda dos jornalistas formais no Brasil

JORNALISMO + ASSESSORIA

No quadro abaixo, há um gráfico que considera também outras profissões ligadas ao jornalismo, como os assessores de imprensa. Percebe-se que houve queda de 30% nesse grupo mais amplo nas vagas geridas pela CLT desde 2013, num movimento semelhante ao observado só entre os jornalistas que trabalham em Redações.

Infográfico sobre a queda dos jornalistas formais no Brasil

Um estudo do Dieese e da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) de março de 2025 já havia mostrado queda de 18% nos cargos formais da profissão de jornalismo de 2013 a 2023. Esse recuo é menor do que o indicado acima porque o levantamento das instituições considerou também o pessoal empregado de forma formal fora da CLT, incluindo os funcionários que trabalham para governos (há muitos assessores de imprensa em administrações públicas de todas as esferas) e outras categorias mais distintas, como designer gráfico. Eis a íntegra (534 kB – PDF).

DEBATE SOBRE PEJOTIZAÇÃO

A queda nos cargos formais no jornalismo coincide com a alta acelerada da pejotização no Brasil. A pejotização é quando uma pessoa abre uma empresa (em geral como MEI, microempreendedor individual) e passa a prestar serviços a outra empresa ou a uma pessoa física, sem vínculo formal de emprego.

Nesses casos, o trabalhador deixa de ter garantias asseguradas aos empregados regidos pela CLT, como FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e outros benefícios trabalhistas. Também pode haver recolhimento menor para a Previdência Social, a depender do modelo de contratação.

Havia no Brasil 13,1 milhões de empresas registradas como MEI no início de 2026. Esse tipo de modalidade é a forma mais comum da pejotização.

Um estudo da economista Bruna Alvarez Mirelli publicado pela FGV (Fundação Getulio Vargas) indica que 53% dos MEIs atuam de fato como trabalhadores, não como empreendedores. Essa seria a taxa de pejotização entre os microempreendedores. Eis a íntegra (PDF – 969 kB).

DRIVE & PODER360

Todos os jornalistas que trabalham em regime de dedicação exclusiva para o jornal digital Poder360 e para produzir o Drivenewsletter premium deste jornal digital– são contratados formalmente com registro em Carteira de Trabalho.

METODOLOGIA

O Poder360 utilizou a Rais (Relação Anual de Informações Sociais) de 2010 a 2024 e isolou só os vínculos ativos em 31 de dezembro de cada ano registrados formalmente via CLT.

Para projeção de 2025, utilizou-se a movimentação do Caged para cada um dos 15 cargos escolhidos para análise:

  • crítico
  • editor de revista
  • repórter fotográfico
  • editor de jornal
  • revisor de texto
  • comentarista de mídias audiovisuais
  • diretor de Redação
  • apresentador de programas de rádio
  • repórter (exclusive rádio e televisão)
  • jornalista
  • editor
  • âncora de mídias audiovisuais
  • repórter de mídias audiovisuais
  • produtor de texto
  • apresentador de programas de televisão

Há 3 painéis do governo que reúnem informações detalhadas sobre os vínculos empregatícios: o da Rais de 2015 a 2021, o da Rais de 2022 a 2024 e o do Caged de 2020 a 2026. Os números apresentados na reportagem e pelo sistema do Ministério do Trabalho tem variações mínimas por conta dos filtros utilizados em cada um dos casos. A análise geral não é impactada.


Informações desta reportagem foram publicadas antes pelo Drive, com exclusividade. A newsletter é produzida para assinantes pela equipe de jornalistas do Poder360. Conheça mais o Drive aqui e saiba como receber com antecedência todas as principais informações do poder e da política.


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