Recuperação de crédito: como credores podem enfrentar as recuperações judiciais

As recuperações judiciais estão aumentando a cada ano, impulsionadas por um ambiente econômico em que a taxa Selic pressiona os custos das empresas e encarece o crédito. Mesmo com a esperada queda da taxa de juros, o ritmo de redução deve ser impactado pelo cenário externo, acrescentando mais incertezas às empresas que buscam ajustar as contas.

Diante desse quadro, a advogada Mariana Zonenschein, sócia fundadora do Zonenschein Advocacia, alerta que os credores precisam adotar posturas preventivas e utilizar ferramentas tecnológicas para garantir o recebimento de seus créditos. Segundo ela, isso vale tanto para as recuperações judiciais quanto as extrajudiciais.

Leia também: Raízen (RAIZ4): Justiça aprova processamento do pedido de recuperação extrajudicial

Continua depois da publicidade

Blindagem no contrato: o papel do ‘coobrigado’

Segundo Zonenschein, a defesa do credor começa no momento da elaboração do contrato. Ela explica que, nesta etapa, é fundamental não pensar apenas no recebimento do dinheiro em um cenário ideal, mas prever a possibilidade de inadimplência e estabelecer caminhos seguros de saída. A saída é incluir um “coobrigado” no contrato, ou seja, alguém que deverá assumir as dívidas em caso de problemas financeiros da empresa.

Ela alerta que um contrato firmado sem garantias rebaixa o credor à categoria de “quirografário”, colocando-o no último lugar da fila de pagamentos em caso de uma recuperação judicial. No caso das recuperações extrajudiciais, que são feitas em comum acordo com os credores, a garantia só é válida caso o coobrigado participe desta negociação.

Leia também: Agro atinge recorde de 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, diz Serasa

Zonenschein afirma que a exigência de cláusulas sólidas e, sobretudo, a inclusão de um “coobrigado”, trará o amparo legal para que, mesmo se a empresa devedora principal entrar em RJ, o credor prossiga com a execução da dívida contra o coobrigado.

“Em muitos contratos, a existência de coobrigação pode permitir ao credor buscar a satisfação do crédito diretamente contra esses garantidores, independentemente da renegociação realizada com a empresa devedora”, afirma.

Tecnologia e inteligência são ‘armas’ dos credores

Para obter uma posição privilegiada na fila de credores e recuperar o crédito com agilidade, a informação atualizada é vital. Zonenschein defende que a advocacia voltada para a recuperação de crédito precisa estar intimamente ligada à tecnologia para diminuir o que ela chama de “assimetria informacional” entre as partes, uma vez que “o devedor sabe onde está o dinheiro” e, muitas vezes, cria empresas para ocultá-lo.

Continua depois da publicidade

Leia também: Justiça trava venda de bens ligados ao Banco Master após indícios de desvios

A especialista, que atualmente desenvolve um estudo analisando esses sistemas, destaca pontos fundamentais na modernização das cobranças judiciais. Ela cita os sistemas de mineração de dados e inteligência artificial que conseguem mapear bens, identificar devedores e expor a formação de grupos econômicos.

Com isso, a aplicação conjunta de um contrato bem redigido, de sistemas tecnológicos e atuação ativa no Judiciário aumentam a proporção e a velocidade do recebimento.

Continua depois da publicidade

Porém, nem todas as tecnologicas estão acessíveis. Há plataformas que podem ser livremente contratadas, mas há também ferramentas tecnológicas que demandam autorização de um juiz, como o Cryptojud, voltado para a busca de criptomoedas, que pode ajudar a encontrar recursos das empresas que não aparecem nas rotinas habituais.

Essas tecnologias podem permitir o cruzamento rápido de informações para destravar execuções antigas. “A gente pode fazer petições precisas, indicando exatamente onde a penhora deve ser realizada, o que facilita o trabalho da Justiça”, explica.

Combate contra a fraude

Zonenschein afirma que, em cenários de crise, é possível que ocorram manobras fraudulentas, como a transferência de dinheiro e ativos saudáveis para uma nova empresa, deixando apenas as dívidas na companhia que posteriormente declara recuperação judicial ou extrajudicial.

Continua depois da publicidade

Nesses casos, o credor atualizado pode utilizar meios repressivos, como o Incidente de Desconsideração da Personalidade Jurídica (IDPJ). “Se ficar comprovado o abuso de direito e a unicidade gerencial entre as empresas, esse instrumento permite trazer todos os CNPJs envolvidos para dentro da execução, forçando-os a responder pelos débitos”, afirma a advogada.

Mariana Zonenschein cita o histórico caso do grupo Mendes Júnior como exemplo da importância do IDPJ. O conglomerado possuía diversas empresas, mas apenas uma delas ingressou com o pedido de RJ, deixando os ativos protegidos nos demais CNPJs.

A estratégia para combater a manobra foi instaurar o IDPJ para demonstrar que havia um comando único e exigir que todas as empresas do grupo respondessem pelos créditos daquela que estava em recuperação.

Continua depois da publicidade

A especialista alerta que essas ferramentas são de apoio crucial ao credor, já que o juiz não dá andamento à execução sozinho. Ela afirma que o sucesso na recuperação de valores exige que o advogado do credor aja com rapidez e estratégia, organizando as informações e apresentando as teses de forma visual e clara ao magistrado.

source

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com