A GUERRA, A PSICANÁLISE E A BUSCA DE SENTIDO

Vivemos em tempos sombrios. Em seu poema “Aos que virão depois de nós”, o dramaturgo, Bertolt Brecht nos diz: “Que tempos são esses, quando falar sobre flores é quase um crime (…)?”.

É reconhecendo o bárbaro que habita nosso subsolo que ganhamos a chance, dia após dia, de escolher não apertar o gatilho, seja ele feito de chumbo ou de palavras.

Ao abrirmos os jornais ou rolarmos o feed, somos bombardeados por imagens de conflitos armados no Leste Europeu, no Oriente Médio, além das guerras invisíveis e cotidianas da polarização política extrema. Diante da brutalidade contemporânea, uma pergunta surgi: como, no ápice do desenvolvimento tecnológico e dos discursos sobre direitos humanos, ainda somos capazes de tanta violência?

A resposta mais incômoda, e talvez a mais verdadeira, é que a nossa civilidade é uma ilusão. Para desatar esse nó da nossa compreensão sobre a violência humana, precisamos recorrer às lentes da psicanálise e da fenomenologia, em um diálogo entre Sigmund Freud e Paul Ricoeur.

Em 1915, no ensaio “Considerações atuais sobre a guerra e a morte”, Freud observava o choque diante da Primeira Guerra Mundial. A decepção generalizada baseava-se na crença de que a humanidade europeia havia superado sua natureza selvagem. Freud, com seu realismo trágico, apontou que essa decepção era injustificada.

“Na realidade, nossos concidadãos do mundo não afundaram tanto quanto temíamos, porque nunca se haviam elevado tanto quanto acreditávamos. (…) O Estado beligerante permite a si próprio todas as injustiças, todas as violências, que desonrariam o indivíduo.” (Freud, 1996)

A civilização (Kultur) não apaga os instintos primitivos; ela apenas os recalca, os esconde sob uma fina camada de regras morais, leis e educação.

Para ilustrar como nossa mente funciona, Freud costumava evocar a metáfora de Roma. Imagine a Cidade Eterna, mas de uma forma em que nenhuma construção antiga jamais tivesse sido destruída. Os palácios dos césares coexistiriam no mesmo espaço geográfico que as basílicas renascentistas e os prédios modernos. O psiquismo humano opera sob essa mesma lógica arqueológica: tudo o que é arcaico, primitivo e infantil é preservado no subsolo do nosso inconsciente. O homem das cavernas e o predador tribal ainda habitam abaixo do terno e da gravata.

A guerra, sob essa ótica, não é uma regressão acidental, mas um colapso estrutural. É o momento em que o Estado, que normalmente atua como mediador da nossa moralidade (Superego social), inverte a sua função: ele autoriza, organiza e exige a liberação da agressividade em nome da pátria ou de um ideal soberano. Nesse instante, a camada civilizatória derrete. As pulsões de morte (forças silenciosas que buscam a destruição, a desorganização e o retorno ao inorgânico) são mascaradas por discursos heroicos (Eros), permitindo que o ser humano exerça sua crueldade sem o peso da culpa individual.

Concordamos em que os instintos humanos são de apenas duas espécies: aqueles que tendem a preservar e a unir, que chamamos de ‘eróticos’ (…) e os instintos que tendem a destruir e matar, que agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo.” (Freud, 1996b)

No entanto, se pararmos apenas na constatação freudiana, corremos o risco de ceder a um fatalismo pessimista. É aqui que a fenomenologia hermenêutica do filósofo francês Paul Ricoeur nos oferece uma via de respiro e de aprofundamento de sentido.

Ricoeur, que dedicou um estudo magistral à obra freudiana, chamou o criador da psicanálise de um “Mestre da Suspeita”. Ele entendeu que Freud nos ensinou a desconfiar das certezas da nossa própria consciência. O discurso nobre que justifica uma guerra, seja a defesa de um território, a exportação da democracia ou a “civilização” de povos ditos periféricos é, frequentemente, uma falsa consciência. É a superfície fenomênica que esconde os desejos mais bárbaros.

Contudo, a grande contribuição de Ricoeur é a sua antropologia filosófica. Antes de olhar para a pulsão, ele olha para a condição humana e constata que somos seres constitutivamente divididos. Há em nós uma “desproporção” fundamental: somos, ao mesmo tempo, finitude biológica (corpo, instintos, sobrevivência) e infinitude espiritual (razão, linguagem, busca por sentido).

O Mal não é uma essência demoníaca que nos possui, nem um mero defeito biológico. O Mal e a violência emergem exatamente dessa rachadura, dessa falibilidade que nos compõe. Somos falíveis porque tateamos constantemente no abismo entre o que desejamos instintivamente e o que idealizamos eticamente.

Quando transportamos essa reflexão para os tempos contemporâneos, percebemos que as trincheiras mudaram de lugar, mas a dinâmica permanece. O ódio nas redes sociais, a cultura do cancelamento e o tribalismo político moderno, que opera na lógica do “nós contra eles”, são manifestações inequívocas dessa mesma fratura. A coesão de um grupo identitário é, não raro, forjada à custa do direcionamento de nossa agressividade reprimida para o Outro (aquele que não pensa como nós, que não reza como nós, que não consome como nós). A tela do smartphone tornou-se o novo escudo que permite a suspensão temporária da moralidade, liberando as pulsões primitivas sem as consequências do embate físico.

Freud propõe uma arqueologia do sujeito, puxando-nos para as profundezas do nosso passado instintual. Ricoeur concorda com o diagnóstico, e acrescenta uma orientação para o futuro. Se somos seres marcados pela falibilidade e assombrados pela pulsão de morte, somos também seres de linguagem, capazes de interpretar os próprios escombros e de construir novos significados.

A paz, portanto, nunca será o estado natural do ser humano. Ela é uma obra de arte exaustiva, um esforço contínuo de interpretação de nós mesmos e de renúncia constante. Compreender a nossa agressividade contemporânea exige a coragem de olhar para o espelho sem a ilusão da nossa própria bondade inerente, pois também somos bárbaros. 

É tempo de desatar nós e constituir sentidos civilizatórios!

Referências

FREUD, Sigmund. Considerações atuais sobre a guerra e a morte (1915). Em: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996a.

_______________.Por que a guerra? (1932). Em: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996b.

RICOEUR, Paul. Da Interpretação: Ensaio sobre Freud. Tradução de Hilton Japiassu. Rio de Janeiro: Imago, 1977

_______________. Finitude e Culpabilidade. Tradução de Reto Roethlisberger. São Paulo: Edições Loyola, 2011

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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