A pior cicatriz

Carmem já estava em delírio, um delírio em que era difícil saber o que era real e o que sua mente inventava.
Dava pra ver em seus olhos uma profundidade impossível de descrever: não se sabia se era tristeza ou apenas cansaço.
Era sexta-feira. Voltava ao escritório para pegar o monitor e levar pra casa. Duas telas, a salvação da produtividade.
Pelo menos, era assim que ela pensava: estar equipada para produzir no fim de semana e começar o mês plena. Esse era o seu objetivo.
Entre cliques e o “tec tec” do teclado, avisou a todos que estavam por perto, o namorado, o filho e até o passarinho, que, embora presente na sala, ela estava invisível.
Apenas disponível à tela, correndo contra o tempo para terminar logo os trabalhos.
“Isso deve acontecer com todo mundo que tem uma empresa”, dizia a si mesma, cheia de agonia, com sono e vontade de comer vendo TV com os outros.
Também imaginava que não deveria ser normal, mas se convencia de que existem períodos em que a dedicação é necessária e que, só depois de terminar tudo, viria o alívio de se sentir “livre logo”.
O cérebro é mesmo contraditório: enquanto te obriga a fazer, também te cobra descanso.
O medo de não entregar, a busca por uma perfeição inexistente, tudo isso ela sabia, mas não controlava.
Parecia ser controlada por outra coisa.
Talvez essa fosse a briga entre o que você realmente precisa e o que sua mente cria a partir dos medos e da ansiedade.
Carmem chamaria isso de uma disputa entre a superficialidade da mente e a essência da intuição.
E, mesmo sendo as mulheres as que mais seguem a intuição, quando se envolvem demais com a racionalidade como Carmem e seu excesso de trabalho acabam se afastando do que é necessário, em nome do que é excessivo.
Ela entendeu isso no dia seguinte.
Acordou cedo, depois de apenas três horas de sono.
Tinha entregue todos os materiais aos clientes e ninguém respondeu.
Ninguém comentou nada.
Apenas visualizaram as mensagens, deixaram o “legal” no ar.
E ela ali, esperando algum retorno sobre tudo.
A dor de cabeça veio.
E, junto com ela, a intuição sutil, mas firme, mostrando um caminho diferente, mais calmo.
Aquela intensidade da ansiedade perfeccionista, que antes a controlava, começava a perder a razão.
Foi então que Carmem se olhou no espelho.
Viu a cama desarrumada, as roupas por lavar, a pia suja e o passarinho com fome.
Enquanto os outros dormiam, ela encheu um copo de água bem gelada, olhou pela janela e pensou:
A pior cicatriz não é a que o tempo deixa no corpo, mas a que o excesso grava na alma.
Cicatrizes invisíveis, feitas de pressa, silêncio e auto abandono.
Respirou fundo, deixou a água escorrer pela garganta, e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu o corpo existir.
O passarinho cantou, e ela percebeu: talvez recomeçar fosse apenas isso. Voltar a se ouvir.

Aimée é uma planejadora urbana com mais de 15 anos de experiência em Marketing, consultora de pós-graduação em NeuroMarketing, Artista Visual internacional e CEO da Tkart, uma empresa internacional de marketing.
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