13,5 milhões de crianças ficam sem vacina no 1º ano de vida

Estudo mostra melhora na imunização global, mas cobertura contra o sarampo segue abaixo da meta de segurança

A cobertura vacinal completa para a 1ª infância apresenta realidade distante para 15% dos bebês em todo o mundo, segundo dados governamentais compilados pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para Infância) e divulgados na 4ª feira (15.jul.2026).

Em 2025, ao todo, 13,5 milhões de crianças não receberam nenhuma dose de vacina durante o 1º ano de vida (chamadas no estudo de crianças zero-dose) e outras 7,3 milhões não tiveram o ciclo básico completo –com 3 doses da vacina que protege contra difteria, tétano e coqueluche.

Segundo o estudo “Estimativas OMS-Unicef de Cobertura Vacinal Nacional”, os números representam um avanço em relação a 2025, quando 116 milhões de bebês receberam ao menos uma dose da DTP –representa 750 mil a mais do que em 2024.

O Unicef, no entanto, alerta que a manutenção do índice de crianças zero-dose aumenta o risco de surtos de doenças e é considerado alto pelo fundo, estando em patamar próximo do observado em 2009 e abaixo do período anterior à pandemia.

O programa de vacinas da Unicef afirma que o abandono do ciclo de imunização ocorre principalmente antes da 1ª dose da vacina contra o sarampo (MCV1), com 84% das crianças recebendo a 1ª dose, e 77% a 2ª dose (MCV2).

O limite considerado seguro para imunização contra o sarampo é de 95%. Em 2025, foram registrados mais de 411 mil casos de sarampo no mundo, em surtos que atingiram 57 países.

AVALIAÇÃO

Segundo o relatório, os dados compilados foram enviados pelos governos de 195 países e mostram que 100 deles mantiveram cobertura de pelo menos 90%, com 3 doses da vacina DTP desde 2019, apresentando pouco progresso na ampliação desse grupo.

Em 2019, entre os países que estavam abaixo desse patamar, 30 conseguiram melhorar as taxas ao longo dos últimos 6 anos, mas 65 países permaneceram estagnados ou retrocederam, incluindo 13 países frágeis, afetados por conflitos ou em situação de vulnerabilidade.

“Governos e profissionais de saúde ajudaram as taxas globais de vacinação a se recuperarem após a forte queda observada durante a pandemia de covid-19. Milhões de crianças vulneráveis continuam desprotegidas devido a conflitos, deslocamentos forçados e pobreza”, disse Catherine Russell, diretora-executiva do Unicef.

Essas ameaças persistentes causam grande variabilidade e instabilidade na cobertura vacinal entre os países. O relatório mostra que mais da metade de todas as crianças zero-dose vive em contextos frágeis ou afetados por conflitos, embora esses locais abriguem apenas cerca de 1/3 da população infantil mundial.

“Nesses cenários, os programas de imunização frequentemente enfrentam desafios relacionados à instabilidade política, insegurança ou subfinanciamento crônico”, diz o levantamento.

Outro desafio é a diminuição da cobertura em países de renda média e alta, que ocorre por mudanças no compromisso político, desafios estruturais e aumento da hesitação vacinal. Dois exemplos destacados foram o da cobertura da DTP1.

BRASIL

O Brasil tem ido na contramão, com melhora da cobertura vacinal constante e redução do número de crianças zero-dose, que hoje são estimadas em 50.000 no país, com melhora de cobertura e de qualidade na integração dos dados públicos. Das principais vacinas, só o ciclo completo da tríplice (DTP-3) mantém taxas baixas, com cobertura na faixa de 86%.

Os dados nacionais, porém, são alvo de uma crítica específica: a da ausência de levantamento independente sobre o tema nos últimos 5 anos, ação recomendada pela OMS e pela Unicef para garantir a qualidade dos dados.

“Os níveis históricos de imunização observados nos países de menor renda mostram o que pode ser alcançado quando todas as partes trabalham juntas em torno de um objetivo comum”, diz Dr. Sania Nishtar, CEO da Gavi, programa de vacinação da Organização Mundial de Saúde.

Segundo ela, o grande desafio será manter esse impulso diante de restrições orçamentárias, incertezas geopolíticas e surtos crescentes, ao mesmo tempo em que se intensificam os esforços para alcançar as crianças que ainda não têm acesso à imunização.

O estudo afirma que as bases que possibilitaram esse progresso estão sob forte pressão, com recentes cortes de financiamento, principalmente pelo governo dos Estados Unidos, e enfraquecimento dos sistemas nacionais de monitoramento. “Segundo os dados, só 18 pesquisas nacionais de imunização foram realizadas e enviadas neste ciclo, em comparação com 50 em 2024 e uma média de 33 por ano de 2015 a 2019”, diz o texto.


Este texto foi publicado originalmente pela Agência Brasil em 15 de julho de 2026, às 11h05. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.

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