Sonhos e Seres. O dia em que eu parei de vê-los

Durante muitos anos da minha vida, eu sonhei com um mundo que não conhecia. Um lugar que não era exatamente a Terra, mas guardava uma semelhança suficiente para me fazer acreditar que eu poderia alcançá-lo se esticasse a mão um pouco mais. Nesse mundo, eu encontrava seres que jamais tinha visto no estado desperto. Seres que vinham coloridos, vibrantes, às vezes risonhos, às vezes silenciosos, mas sempre profundamente presentes, como se tivessem me esperando há muito tempo.

Quando criança, sempre ouvi que as pessoas que vemos nos sonhos são fragmentos do que registramos no cotidiano, rostos que cruzam a rua, desconhecidos no ônibus, figuras que passam e não voltam. Mas isso nunca serviu para explicar os meus protagonistas. Eles não tinham aquele ar repetido de quem surgiu da memória. Eles envelheciam, mudavam, ganhavam novos traços. Voltavam com a naturalidade de quem me conhecia profundamente, como se houvesse uma história entre nós que eu não lembrava, mas eles sim.

À medida que eu crescia, percebia que eles também cresciam. Alguns apareciam mais velhos, outros mais coloridos, outros silenciosos, suportando o peso de alguma coisa que eu nunca soube nomear. Os lugares eram os mesmos, ruas estreitas, casas antigas, campos abertos com cheiro de amanhecer, só que às vezes cheios de gente, às vezes envoltos em um silêncio que parecia pedir respeito. E sempre havia alguém dizendo:

“Quanto tempo você não aparece por aqui… Como você está? Fulano está aqui, venha vê-lo!”

Era como voltar para uma cidade onde todos lembravam de mim, mas eu não lembrava deles com a clareza que eles mereciam.

E havia também os seres esquisitos, que me perseguiam quando eu era pequena. Aqueles que deixavam meu coração acelerado, que faziam minhas pernas correrem enquanto o chão parecia virar areia movediça. E então, como num passe de mágica, um dia eles se afastaram. Disseram, em algum canto da minha mente, que nunca mais iriam me perturbar. Era como se tivessem sido libertos de algo, ou talvez eu tivesse sido.

Meus sonhos eram assim: uma mistura de mundos, gente que me amava, seres que desapareciam, paisagens que me aguardavam entre o sono e o amanhecer. Uma criança crescendo entre visitas noturnas e despedidas silenciosas.

Lembro-me dos anjos. Caminhavam sem pressa, com asas que não batiam, apenas existiam. Pessoas altas, pessoas baixas, todas iluminadas por uma felicidade calma. A felicidade de me ver. A felicidade de me acompanhar até algum lugar que eu nunca entendia completamente. Eu me deixava levar. Havia um grupo, sempre o mesmo, que segurava minha mão e me guiava como quem guia alguém que já pertence àquele espaço.

E havia um Ser em especial. Seu sorriso era tão acolhedor que parecia luz. Eu nunca soube seu nome na verdade, não sabia o nome de ninguém naquele mundo, mas ele me olhava com a certeza de quem reconhece uma alma que já amou antes.

“Aimée, estaremos aqui sempre. Amamos muito você.”

Ele dizia isso com uma doçura que só existe nos lugares onde o medo não cabe. No último sonho em que apareceu, ele segurou minha mão. Sua expressão tinha um tom que eu não conseguia, naquela época, compreender: despedida. Um adeus que não era triste, mas definitivo.

Nunca mais sonhei com eles.

Acordei durante anos procurando sinais. Passava pelas ruas daquele mundo em sonhos, pelas calçadas familiares, pelos campos que antes estavam cheios, mas agora… nada. Tudo vazio. Árido. Tons de terra-cota, como se a vida tivesse se retirado dali. Como se fechassem as portas porque a visita que esperavam não voltava mais.

E então veio o sonho com os parentes da minha avó, já falecidos. Eles estavam reunidos, ansiosos, como quem espera alguém em um aeroporto depois de muito tempo. Um deles usava um chapéu preto e sorria quando me via. Ao acordar, a emoção tomou meu peito como um rio transbordando. Um amor vindo de alguém que nunca conheci em vida, mas que, naquele instante, parecia se lembrar de mim.

O último sonho desse tipo desse mundo que me adotou tantas vezes, foi com minha avó. Ela estava jovem, leve, bonita como devia ser quando corria pela vida sem medo. Segurava um pequeno passarinho que havia encontrado. Olhou pra mim com ternura e disse:

“Vou cuidar desse passarinho. Não se preocupe.”

Acordei com uma sensação que não sei explicar. Como se, mais uma vez, alguém estivesse se despedindo.

E talvez, no fundo, todos esses sonhos fossem visitas. Portas entreabertas para lembrar que há mundos que permanecem dentro da gente mesmo quando paramos de vê-los. Que há seres que nos amaram antes que entendêssemos o que era amar.

E que, às vezes, o adeus mais bonito é aquele que deixa uma lembrança que continua iluminando por dentro, mesmo quando dormimos em silêncio.

Pensar com arte é pensar diferente.

Aimée é uma planejadora urbana com mais de 15 anos de experiência em Marketing, consultora de pós-graduação em NeuroMarketing, Artista Visual internacional e CEO da Tkart, uma empresa internacional de marketing.
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