Cleptomaníaco é a pessoa viciada em roubar, mitomaníaco é o mentiroso profissional. Um dia, quando o anel de Saturno vira bambolê e a lua fica minguante, esses dois personagens do folclore brasileiro se encontram, geralmente em um lugar com grande circulação de pessoas. Hoje foi na rodoviária de Brasília exatamente as 19h10.
Pois bem, eis que surge o clepto com uma caixa de sabão em pó nas mãos, produto de marca famosa da qual o slogan diz que podemos nos sujar a vontade porque ele vai deixar tudo branco. O cidadão com a caixa na mão grita:
“Eu preciso pagar a passagem, alguém compra esse sabão em pó por um precinho camarada?”
O mitomaníaco vê a oportunidade da vida de se libertar desse vício doentio e chegar em casa pela primeira vez dizendo a verdade. Já se imagina entrando pela sala ao som de Roxette, com a caixa na mão, dizendo em bom som:
“Comprei esse sabão em pó por um quarto do valor, na rodoviária”
Quem vai acreditar? E o pior, em quem acreditar?
Eis que surge a viatura e o policial resolve abordar os dois elementos com atitudes e gestos suspeitos. Um com uma nota de vinte reais na mão e o outro com uma caixa de dois quilos de sabão em pó.
A minha imaginação já pensa no desfecho caótico, dois digamos, trabalhadores com suas peculiaridades, sendo levados a delegacia. Prisão em flagrante, furto e receptação. A cara estampada na televisão brasileira com o texto “As aparências enganam” mas, no fundo, nossos personagens em qualquer socialização por mais de cinco minutos deixam claro a que vieram ao mundo, ninguém ficaria surpreso com tal acontecimento.
“O que está acontecendo aqui?” Questiona o policial de bigode fino e uma tatuagem dos cavaleiros do zodíaco no Braço todo.
“Nada de mais!”
“Isso tá com cara de roubo” Argumenta o policial
“Roubo é o preço dessa passagem!” Desafiando a autoridade, um terceiro elemento, um ambulante, que leva a vida, digamos, de forma irregular, aumenta a tensão da situação.
A multidão resolve jogar sua frustração em cima da dupla anticrime que entra na viatura e sai do local com a sirene ligada, dando a entender que surgiu uma ocorrência séria dessa vez.
O clepto pensa que não tem vício nenhum já que estado rouba muito mais com impostos e corrupção enquanto isso o mito se ajeita para fazer um vídeo dizendo que está com um lote de sabão em pó por metade do preço e que quem fizer o pix agora vai estar garantido uma caixa a preço de fábrica, apenas o 100 primeiros.
O clepto olha para o mito e pergunta se precisa de um empregado.
“Consegue um whisky importado e uma bolsa esportiva que você nunca mais vai andar de ônibus.
Fui, de ônibus pagando o valor novo da passagem.
Abraço
Thiago Maroca é escritor, produtor audiovisual, chefe escoteiro e pai do Théo. Nas horas em que espera o ônibus, bisbilhota a vida alheia.
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