Rodadas de negócios são encontros profissionais voltados à negociação de direitos autorais, traduções, coedições, compras institucionais e parcerias editoriais. Funcionam com agenda marcada, tempo curto e objetivos claros. Quem participa apresenta projetos, avalia catálogos, identifica interesses e tenta abrir caminhos concretos de circulação no mercado editorial.
Antes de seguir esclareço algo que julgo necessário.
Coedições são acordos em que duas ou mais editoras dividem a publicação de um mesmo livro. Isso pode envolver divisão de custos gráficos, compartilhamento de direitos ou publicação simultânea em países diferentes. Uma editora entra com o catálogo, outra com a impressão ou a distribuição. É comum em livros ilustrados, infantis, acadêmicos e obras com potencial internacional.
Compras institucionais são aquisições feitas por órgãos públicos ou instituições privadas de grande porte para abastecer bibliotecas, escolas, universidades, programas de leitura ou projetos culturais. O livro não é comprado para revenda, mas para circulação pública. Envolve volume, contrato, prazo e critérios técnicos. É aí que entram secretarias de Educação, Cultura, fundações e organismos internacionais.
Parcerias editoriais são acordos mais amplos que não se limitam à publicação de um único livro. Podem envolver curadoria conjunta, circulação cruzada de catálogos, produção de coleções, eventos, intercâmbio de autores ou compartilhamento de estrutura. Diferem da coedição porque nem sempre implicam dividir a impressão do mesmo título.
Dito isso, seguimos com o texto.
No cenário internacional, algumas rodadas estruturam boa parte do mercado editorial global.
A Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, concentra o principal eixo mundial de negociação de direitos autorais. A maior parte dos pavilhões, dos dias e da lógica do evento é pensada para editoras, agentes literários, plataformas digitais, distribuidores e compradores institucionais que se reúnem para tratar de traduções, licenças e acordos internacionais. É ali que se definem muitos dos movimentos de circulação internacional do livro.
Nos últimos dias da feira, geralmente no fim de semana, o evento se abre para leitores. Há lançamentos, sessões de autógrafos, encontros com autores, debates e programação cultural. Ou seja, Frankfurt é uma feira de negócios editoriais com uma camada cultural acessória.
A Feira Internacional do Livro de Guadalajara, no México, ocupa posição central no mercado editorial latino-americano. Sua rodada de negócios acontece integrada a uma feira fortemente voltada ao público leitor, o que cria um ambiente híbrido, no qual negociação profissional e visibilidade cultural convivem. É estratégica para quem busca circulação em língua espanhola e articulação continental.
A London Book Fair, no Reino Unido, funciona como ponto de conexão entre mercados. A presença de agentes literários é marcante e as negociações se concentram em direitos, tendências editoriais e circulação internacional, sobretudo em língua inglesa.
Na Ásia, a Beijing International Book Fair consolidou-se como uma das principais portas de entrada para o mercado chinês e asiático. As rodadas seguem regras formais de funcionamento que não admitem improviso: os horários são cravados, o tempo de cada reunião é curto e controlado, há procedimentos de credenciamento, ordem de fala e, em alguns países, a etiqueta profissional é bastante rígida.
O participante também precisa saber exatamente o que pode ou não negociar. Ter clareza sobre cessão de direitos, prazos, territórios, línguas, formatos e limites legais. Não é aceitável dizer “depois vejo com meu advogado” para tudo. É preciso chegar sabendo até onde se pode ir.
Além disso, cada mercado tem hábitos próprios. Na China, por exemplo, a negociação é mais formal, contratos são longos e a relação institucional pesa muito. Em outros mercados, o agente é figura central. Conhecer minimamente essas práticas evita gafes, expectativas erradas e perdas de tempo. Quem foge disso perde credibilidade rapidamente.
No Brasil, as rodadas de negócios ainda operam em escala menor quando comparadas aos grandes polos internacionais, mas ganharam consistência e função estratégica nos últimos anos. Elas cumprem um papel importante de articulação, visibilidade e abertura de caminhos para editoras independentes, autores e agentes que dificilmente chegariam diretamente aos grandes centros de negociação.
Para muitos projetos editoriais, especialmente fora do eixo Rio–São Paulo, esses encontros representam o primeiro contato qualificado com o mercado profissional do livro.
A Bienal Internacional do Livro de São Paulo mantém hoje a rodada de negócios mais estruturada do país. O foco está na aproximação entre editoras brasileiras, compradores institucionais, distribuidores e, em menor escala, agentes internacionais convidados. É um espaço que opera como porta de entrada e vitrine profissional, sobretudo para catálogos nacionais que buscam circulação ampliada, parcerias comerciais e inserção em programas de compra pública.
A Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro organiza encontros profissionais com perfil mais híbrido, nos quais negócios, programação cultural e presença de autores convivem de forma menos compartimentada. As rodadas cariocas funcionam mais como espaço de articulação e relacionamento do que como centro decisório de contratos, sendo relevantes para a construção de redes, apresentação de projetos e amadurecimento de negociações que costumam avançar fora do evento.
A FLIP, em Paraty, não atua como feira de negócios clássica, mas concentra encontros estratégicos paralelos entre editoras independentes, agentes e autores, muitas vezes decisivos para projetos futuros. Outras feiras e bienais regionais vêm testando formatos semelhantes, ainda em processo de consolidação.
O padrão de funcionamento
A organização abre inscrições com antecedência. Os participantes cadastram perfil, catálogo, interesses e objetivos. A partir desse cruzamento, são abertas agendas de reuniões. Cada encontro dura pouco, geralmente entre vinte e trinta minutos, o que exige clareza e síntese.
A preparação começa pelo material. Catálogo organizado, mesmo que enxuto e sinopses claras fazem diferença. É importante apresentar informações objetivas sobre formato, público, tiragem e direitos disponíveis. No caso de autores, vale levar um portfólio honesto, com obras publicadas, projetos em andamento e definição clara do que se busca, seja publicação, tradução, parceria ou circulação institucional.
A preparação estratégica exige acompanhamento prévio. Nem sempre a lista de agentes e editoras presentes é divulgada com antecedência ou se mantém estável até o evento. Por isso, acompanhar redes sociais, newsletters oficiais, comunicados da organização e postagens de participantes recorrentes ajuda a mapear quem provavelmente estará presente. Em muitos casos, o próprio evento divulga gradualmente nomes confirmados ou parceiros institucionais, o que já permite algum direcionamento.
Durante a rodada, a postura precisa ser objetiva. Apresentar o projeto de forma clara, ouvir com atenção e entender rapidamente o interesse ou a ausência dele economiza tempo e evita desgaste.
O material de apoio deve ser funcional. Cartão, catálogo digital acessível e contatos claros são suficientes. O objetivo é sair com encaminhamento possível, não com a sensação de ter se saído bem.
Depois da rodada, o acompanhamento define se algo avança. Retomar contatos, enviar materiais prometidos e manter a conversa ativa faz parte do processo. Muitas negociações amadurecem fora do evento e ao longo do tempo.
Rodadas de negócios são ferramentas dentro de um ecossistema mais amplo do livro. Funcionam para quem busca entender o mercado como processo e necessita de dedicação.
O livro como produto merece todo o respeito e esforço, que o digam Paulo Coelho, Augusto Cury e Maurício de Sousa, que aprenderam a se movimentar nesse complexo e necessário tabuleiro.
Marcos Linhares é jornalista, escritor, professor e biógrafo. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro e formação de autores. Foi presidente do Sindicato dos Escritores do DF e já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas. É autor premiado nos Estados Unidos. Criou prêmios, programas e ações voltadas ao direito autoral, ao livro e à democratização da literatura.
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