Fábia gostava de conhecer o que era novo. Os olhos enchiam de brilho quando havia um novo curso, um novo estilo de roupa, uma nova música. Independente de qualquer coisa que fosse, ela estava antenada. Quer queira ou não, isso a deixava viva. Sentia-se riquíssima em seu mundo que colecionava coisas, pessoas e momentos.
Tudo era assimilado por cores, tons e sons. Não gostava da música, mas sabia de quem era, de quando era e se havia outro cantor que fazia algum tipo de referência. Ao mesmo tempo, nunca foi uma pessoa que não soubesse amar ou estar com as pessoas ao redor. Muito pelo contrário: era sociável, mas tímida. Um paradoxo ambulante, desses que tornam alguém interessante.
Formou-se em Ciências Atuariais e realmente parecia muito a cara dela. Além de logística, que combinava perfeitamente com seus gostos por novidade e sua mania de organizar tudo na mente. Os números, para Fábia, eram como pequenos mundos paralelos, e o trabalho parecia um quebra-cabeça que ela montava com satisfação.
Até que um dia, o quebra-cabeça perdeu uma peça.
“Nem tudo é pra sempre, sempre acaba”, como já dizia Lulu Santos…
Pera, Lulu não, Renato Russo.
O gerente da empresa onde Fábia trabalhava disse que precisava demiti-la. Não por falta de competência, mas pela necessidade de contratar alguém com um currículo “melhor” que o dela.
Como assim, um currículo melhor do que o de Fábia?
Ela chorava loucamente em seu sofá, o corpo afundado entre almofadas que cheiravam a café e lágrimas recentes. Sua amiga, sentada ao lado, a acalentava com frases de esperança, “um dia eles vão reconhecer o erro”, dizia. Mas como dizer isso à maior colecionadora de novidades, à mulher que sabia tudo sobre o mundo e, de repente, descobria que estava fora de atualização profissional?
Demorou, mas Fábia acabou descobrindo o que a substituta tinha que ela não tinha: fluência social.
A nova funcionária era boa com números, mas melhor ainda com pessoas. Sabia liderar reuniões, falava com naturalidade, conectava áreas, contornava ruídos. Era dessas que transformam tarefas em conversas e planilhas em relacionamentos.
E isso, Fábia percebeu, é o que o mercado agora chama de diferencial.
De repente, todos os manuais técnicos pareciam velhos. O que antes era valorizado precisão, raciocínio lógico, foco… Agora vinha com asterisco. As novas palavras de ordem eram colaboração, empatia, criatividade.
O mundo que sempre pediu métricas começou a pedir emoção.
E Fábia, mulher de lógica, respirou fundo. Não porque discordasse, mas porque entendia o tamanho da ironia.
No fundo, sabia que nada disso era exatamente novo. Só havia mudado o discurso.
O que antes se chamava competência interpessoal agora virou soft skill. O que antes era “trabalho em equipe” agora é “cultura colaborativa”. O mercado renomeia velhos conceitos, embala com linguagem moderna e entrega como tendência, e todo mundo corre para parecer atualizado.
Mas quem trabalha com processos sabe: mudar o nome de uma etapa não altera o fluxo.
Fábia começou a observar com o olhar de quem já gerenciava planilhas infinitas.
As empresas queriam colaboradores criativos, mas controlavam cada passo do processo. Queriam comunicação, mas com discurso padronizado. Queriam inovação, mas com aprovação em três níveis hierárquicos.
E, no meio disso tudo, as pessoas começaram a se comportar como softwares tentando provar que ainda rodavam na última versão.
Para uma mulher de logística, tudo isso soava… desorganizado.
Ela não era contra a leveza, nem contra a empatia. Mas queria saber onde estava a coerência entre o que se cobra e o que se pratica. E talvez esse fosse o verdadeiro desafio do novo mercado: não aprender novas competências, mas sobreviver às contradições entre o discurso e a entrega.
Então, em vez de se reinventar para agradar, Fábia reorganizou do jeito que sabia.
Montou um quadro, com colunas coloridas, mapeando o que o mundo pedia:
“Ser colaborativa.”
“Ser comunicativa.”
“Ser criativa.”
Ao lado, escreveu com caneta azul:
– Colaborar não é anular-se.
– Comunicar não é performar.
– Criar não é distrair-se.
E respirou fundo.
Talvez o segredo fosse continuar sendo técnica, mas com propósito.
Saber medir o que é possível, enquanto o mundo se encanta com o impossível.
Não foi contratada novamente pela antiga empresa.
Mas, algumas semanas depois, recebeu uma proposta de uma companhia que fazia comércio exterior entre o Brasil e a China.
Lá, acrescentou ao seu portfólio todas as palavrinhas-estrelas do mercado, networking, mindset, comunicação assertiva, gestão ágil… E aprendeu a exercitar sua voz com um novo objetivo: demonstrar segurança e transmitir credibilidade.
Afinal, ela entendeu que no mundo atual, não basta saber o que faz. É preciso mostrar que se sabe e de preferência, com boa dicção, entonação firme e um leve sorriso durante a reunião.
Aimée é uma planejadora urbana com mais de 15 anos de experiência em Marketing, consultora de pós-graduação em NeuroMarketing, Artista Visual internacional e CEO da Tkart, uma empresa internacional de marketing.
www.tkarteiros.com
contato@tkarteiros.com
7999121-0775
@tkart_idea




