“Ano novo, vida nova”? Entenda a diferença entre “vontade consciente” e “desejo inconsciente”, e porque a disciplina não é suficiente para mudar padrões que você carrega há décadas.
A cena se repete em milhões de lares: uma folha de papel em branco (ou um bloco de notas no celular) e o título esperançoso: “Metas para o ano novo”. Os itens costumam ser os mesmos: entrar na academia, economizar dinheiro, ser menos ansioso, ler mais livros, mudar de emprego, ser uma pessoa mais paciente.
No dia 31 de dezembro, à meia-noite, vestimos branco e pulamos ondas, imbuídos de uma “vontade mágica” de mudança. Acreditamos que a virada do calendário opera uma virada na alma. Mas, no dia 15 de janeiro, a força de vontade começa a diluir. Em fevereiro, a lista é esquecida em uma gaveta. Em março, voltamos a ser exatamente quem éramos em novembro passado.
Por que isso acontece? Por que somos tão bons em planejar e não conseguimos executar? A resposta reside na distância abissal entre o que você acha que quer e o que o seu inconsciente realmente deseja.
Faremos uma distinção entre a “vontade” e o “desejo”.
A vontade é consciente, lógica e racional. O desejo, contudo, habita o inconsciente. Ele não segue a lógica do lucro ou da saúde. O desejo está ligado a satisfações arcaicas, a traumas não resolvidos e a ganhos secundários que você nem imagina ter.
Exemplo: você tem a “vontade” consciente de ser menos ansioso. Mas, inconscientemente, a sua ansiedade é a única forma que você conhece de se sentir “vivo” ou de manter o controle sobre o ambiente. Ou, talvez, sua ansiedade seja uma forma de punição que você aplica a si mesmo por uma culpa antiga. Enquanto essa “raiz” não for tratada na análise, você pode fazer todo o mindfulness do mundo: seu inconsciente dará um jeito de recriar a ansiedade, pois, para ele, ela cumpre uma função.
Mudar a “vontade” é como trocar a pintura de uma casa. Mudar o “desejo” é mexer na fundação. Sem análise, suas metas de ano novo são apenas camadas de tinta sobre uma estrutura que continua ali sem alterações.
O filósofo Albert Camus utilizou o mito de Sísifo para descrever a condição humana: o homem condenado a empurrar uma enorme pedra até o topo de uma montanha, apenas para vê-la rolar de volta ao vale, repetindo o processo eternamente.
Muitas pessoas vivem suas metas de fim de ano como Sísifo. Todo dezembro, empurram a “pedra da mudança” com esforço enorme. Todo janeiro, a pedra rola de volta.
Lembrando da neurociência, preciso salientar que seu cérebro é um órgão de economia de energia. Ele ama o que é familiar, mesmo que o familiar seja algo que você não quer mais.
Nossos padrões de comportamento estão gravados nos gânglios da base, estruturas cerebrais profundas responsáveis pelos hábitos. Mudar um hábito exige um esforço enorme do córtex pré-frontal. Se você tenta mudar cinco ou dez coisas ao mesmo tempo no dia 1º de janeiro, você causa um “apagão” de energia mental. O cérebro entra em estresse e, para se proteger, ele “reseta” para o padrão antigo.
É por isso que a disciplina, sozinha, falha. Para que o cérebro aceite uma mudança real, ela precisa vir acompanhada de um sentido emocional profundo. E esse sentido só é encontrado quando desvendamos o que aquela conduta antiga (os vícios, a procrastinação, a submissão) estava tentando nos dizer ou nos proteger.
Outro ponto fundamental: Precisamos perguntar: as metas que você escreveu na sua lista são desejos autênticos da sua alma ou são imperativos de um sistema colonial e capitalista que exige que você seja uma máquina de performance?
Muitas vezes, a meta de “ser mais produtivo” ou “ganhar mais” não passa de um sintoma de uma sociedade que nos ensinou que só temos valor se produzirmos. Quando tentamos alcançar metas que não nasceram de nós, mas que foram “implantadas” pela cultura do sucesso, nosso inconsciente se rebela. O cansaço, a depressão e a procrastinação costumam ser gritos de liberdade de um sujeito que não aguenta mais ser escravo de ideais que não são seus.
Na análise, trabalhamos para separar o “Eu” do “Isso que me mandaram ser”. Só então metas reais e sustentáveis podem surgir.
Se você quer que o ano novo seja diferente, o segredo não está no planejamento, mas na implicação.
Em psicanálise, usamos o termo “retificação subjetiva”. É o momento em que o paciente para de culpar o governo, o cônjuge, a crise ou o azar pelos seus problemas e pergunta, parafraseando Freud: “Como é que eu participo da montagem do caos do qual eu me queixo?”.
Se você se queixa de estar sempre sobrecarregado, qual é a sua parte nisso? Por que você não diz não? O que você ganha sendo o “mártir” da família?
Mudar as metas exige a coragem de olhar para o que você ganha mantendo os seus problemas. Sim, nós ganhamos algo com nossos sintomas — seja atenção, seja o direito de reclamar, seja a desculpa para não arriscar.
O intervalo entre o Natal e o Ano Novo é um portal. Você pode atravessá-lo apenas com promessas que se dissolverão na primeira chuva de janeiro, ou pode usá-lo para tomar uma decisão radical: a decisão de se investigar. Como diz Albert Camus: “A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente.”
Quando você sabe quem é e o que realmente quer (e porque quer), as mudanças de comportamento deixam de ser um “esforço de vontade” e passam a ser uma consequência natural da sua nova posição diante da vida.
Sempre é tempo de desatar nós e planejar o seu encontro consigo mesmo!
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).
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