Todo ano, a preparação se repete: vestir-se de forma mais relaxada para o ambiente de trabalho que frequentamos o ano todo, trocando o jeans surrado e a camisa desbotada com a logo da empresa por algo mais “despojado”. Isso, claro, sem esquecer o crachá com aquela foto 3×4 de uma época com menos peso e mais cabelo (sem ofensa a ninguém).
Quando a última (ou única) parcela do décimo terceiro cai na conta, alguém mais animado sugere o clássico bolão da Mega-Sena e, claro, a confraternização de fim de ano. O bolão é sagrado; ninguém fica de fora, na esperança de dar um “chega” na vida CLT, mesmo que o prêmio não seja milionário, mas o suficiente para trocar o sofá e pagar o cartão de crédito integralmente.
Já a confra… surgem os empecilhos: filhos sem ter com quem deixar, esposa com sinusite atacada, cirurgia do cachorro. No fim, são sempre os mesmos que topam a saída para umas cervejas, a troca de lembrancinhas e, inevitavelmente, uma rodada de fofocas sobre os ausentes e os acontecimentos do ano.
Depois da quarta… ou décima quarta dose (a memória falha), as teorias começam a pipocar na mesa:
“Será que o Fulano é um espião militar?”
“Com certeza, Beltrano está tendo um caso com a Fulana.”
“Sabia que descobri que o Cicrano é Feiticeiro?”
“Vocês não sabem o que eu descobri, estão roubando a empresa e beltrana sabem quem é.”
Essas suposições, jogadas como cartas de tarô, rapidamente dão lugar a “revelações” sobre o futuro e o passado de todos. E a sinceridade etílica não demora a atingir os presentes, aqueles que ousaram sair para beber e confraternizar o ano desafiador e de crises, igualzinho a todos os outros anos:
“Você meteu atestado, mas estava trabalhando em outro lugar, eu sei.”
“E você gasta a aposentadoria da sua avó em aposta online!”
“Você diz que é diabético mas todo dia come um docinho depois do almoço”
O que resta é atender ao apelo daquele único colega de trabalho que não fuma, não bebe, mas participa de todas as festividades, sóbrio e ainda se diverte:
“Gente, é o final de um ciclo! Temos que agradecer. Agora, todos deem as mãos!”
Bêbados demais para qualquer reação racional, eles se dão as mãos. E o sóbrio ora e agradece.
Todos se olham, pedem a conta, pagam e na hora de se despedirem o único que mora só convida:
“A saideira?”
“Amanhã batemos ponto, e cedo.”
“Eu sei como burlar o sistema”
Todos voltam a se sentar, ali desfaz a confraternização da empresa e cria-se a milicia CLT, com intuito de salvar o proletário das garras de qualquer patrão opressor.
Saúde!
Fui
Thiago Maroca é escritor, cineasta, membro da Academia Valparaisense de Letras, chefe escoteiro e pai do Théo. Sempre estará ao lado do empregado.
Manda um oi: @thiagomaroca / thiagomaroca@gmail.com




