O mundo não nos lê e não é por falta de qualidade

A pergunta lançada por reportagem recente da Folha de São Paulo (30/01/2026) não é trivial nem retórica. Ela toca num desconforto antigo, quase estrutural: por que a literatura brasileira, mesmo celebrada por leitores exigentes e por parte da crítica internacional, ainda caminha com passos curtos fora do país enquanto o cinema encontra frestas, festivais, prêmios, circulação?

A constatação inicial já revela uma assimetria intrigante. Quando se observa o ranking de traduções, os nomes que persistem são Clarice Lispector, Machado de Assis, Jorge Amado e Rubem Fonseca. Não há surpresa nisso, eles são gigantes, mas o dado embute uma pergunta incômoda: por que continuamos exportando majoritariamente o passado?

Não se trata de desmerecer os clássicos. Ao contrário. Eles sustentam nossa presença simbólica no mundo. Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e A Hora da Estrela seguem atravessando fronteiras porque carregam algo raro: universalidade sem neutralização cultural. São profundamente brasileiros e, justamente por isso, humanos em qualquer latitude.

O problema emerge quando o catálogo contemporâneo aparece como exceção e não como fluxo. Itamar Vieira Junior, com Torto Arado, tornou-se um caso emblemático. Traduções em múltiplos idiomas, recepção crítica sólida, circulação consistente. Um feito admirável. Mas a própria narrativa do “caso excepcional” denuncia a fragilidade do sistema.

Literatura não deveria depender de milagres estatísticos.

Enquanto isso, os números da Câmara Brasileira do Livro apontam crescimento nas exportações. Sete por cento no primeiro semestre de 2025. Um avanço relevante, porém, o entusiasmo precisa ser temperado. Crescimento percentual não equivale automaticamente a impacto cultural duradouro. Pode indicar movimento comercial, não necessariamente consolidação de autores no imaginário estrangeiro.

A demora persiste porque o entrave não é apenas qualitativo, mas ecossistêmico.

O cinema opera dentro de uma engrenagem internacional relativamente clara: festivais, coproduções, mercados audiovisuais, distribuição em plataformas globais. A obra circula mediada por imagem, som e legenda. A barreira linguística é suavizada pela natureza do meio.

Já a literatura enfrenta o obstáculo mais rígido de todos: a língua como matéria-prima absoluta.

Traduzir não é apenas verter palavras. É reconstruir ritmo, ambiguidade, subtexto, respiração estética. Exige investimento alto, curadoria criteriosa, editores dispostos a apostar em algo que não oferece retorno imediato garantido. Nesse território, o inglês e o espanhol funcionam como aduanas simbólicas. Quem não entra nesses mercados permanece confinado a circuitos periféricos.

E aqui surge uma questão estratégica pouco debatida: o Brasil ainda trata a internacionalização do livro como política cultural complementar, não como projeto de Estado.

Programas de apoio à tradução do Ministério da Cultura são fundamentais, mas frequentemente sofrem descontinuidade, oscilações orçamentárias, mudanças de diretriz. A lógica de editais episódicos produz picos, não constância. O mercado internacional, por outro lado, exige previsibilidade, presença contínua, construção de reputação ao longo de décadas.

Internacionalizar literatura é trabalho de geração, não de gestão anual.

Há também um desafio interno raramente assumido com franqueza. O país publica muito, mas promove pouco. Lança autores sem estruturar carreiras. Falta media training literário, presença em feiras internacionais com estratégia clara, agentes especializados em direitos globais, articulação consistente entre editoras, governo e instituições culturais.

O livro brasileiro muitas vezes chega ao exterior como objeto isolado, não como parte de uma narrativa cultural coordenada.

Enquanto outras nações constroem “marcas literárias”, o Brasil ainda opera em esforços fragmentados. Não vendemos apenas romances ou coletâneas. Vendemos uma imagem de país, uma identidade estética, uma promessa de repertório. Quando essa narrativa é difusa, o impacto se dilui.

Talvez seja hora de abandonar certas ilusões confortáveis.

Não basta afirmar que nossa literatura é excelente. É preciso perguntar: ela está sendo editada com padrão internacional? As capas dialogam com mercados externos? As sinopses são pensadas para leitores estrangeiros?

O talento, sozinho, não constrói circulação.

Uma reflexão propositiva exige coragem para deslocar o foco. Em vez de lamentar a ausência de reconhecimento global, talvez devêssemos estruturar um plano agressivo e de longo alcance. Algo que envolva: formação de tradutores literários especializados em português brasileiro; criação de bolsas permanentes para residências de escritores no exterior; presença estratégica em feiras como Frankfurt, Londres, Guadalajara; estímulo à atuação de agentes literários internacionais; mais programas de intercâmbio entre editoras brasileiras e estrangeiras e investimento em branding editorial

Além disso, seria vital fortalecer algo que raramente entra no debate: a crítica literária internacional. Sem resenhas, estudos acadêmicos, circulação em universidades, a obra traduzida corre o risco de desaparecer rapidamente após o lançamento.

Livro precisa de leitura qualificada para sobreviver fora de seu país.

E há ainda uma dimensão simbólica delicada. O Brasil, por vezes, parece hesitar entre dois impulsos: afirmar sua singularidade ou tentar adaptar-se a expectativas externas. A grande literatura nasce justamente da tensão entre identidade e abertura. Quando buscamos “agradar o mercado”, corremos o risco de diluir vozes. Quando ignoramos o mercado, confinamos autores.

Equilíbrio não é concessão. É estratégia.

O cenário atual não é desolador. Há avanços, interesse crescente, leitores curiosos pelo Brasil que não cabe em estereótipos turísticos. Mas a travessia para uma presença literária robusta exige mais do que talento individual e iniciativas pontuais.

Exige projeto, continuidade, inteligência cultural.

Porque, no fim, a pergunta da reportagem ecoa como um espelho coletivo. A literatura brasileira não “demora” por falta de grandeza. Demora porque ainda não decidiu, de forma sistemática, ocupar o espaço que já merece.

E o espaço cultural, como sabemos, não é concedido, mas construído.

Marcos Linhares é jornalista, escritor, professor e biógrafo. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro e formação de autores. Foi presidente do Sindicato dos Escritores do DF e já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas. É autor premiado nos Estados Unidos. Criou prêmios, programas e ações voltadas ao direito autoral, ao livro e à democratização da literatura.
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