O Mundo dos Espertos

As pequenas transgressões cotidianas gradualmente nos insensibilizam para a complexidade da vida. Minha primeira infração, se bem me lembro, deve ter sido um doce furtado na mercearia do Seu Ximenes. Ele mantinha uma vitrine tentadora de guloseimas reprovadas por pais e dentistas e, para não se levantar, usava um espelho grande para nos vigiar, especialmente contra o furto dos Kinder Ovos, a novidade da época.

Muitos dos que clamam por justiça, igualdade e liberdade (perdoem o toque de professor da Revolução Francesa) não conseguiriam viver estritamente dentro da lei. O motivo? É muito caro e, francamente, muitas vezes é impossível. Caráter e honestidade são gratuitos, mas o sistema nos empurra para o “vale do jeitinho brasileiro”. Recentemente, vi um jovem, talvez com seus vinte e poucos anos, entrar no ônibus sem pagar a roleta. Ao se aproximar de seu destino, pediu ao motorista que abrisse a porta da frente, desceu e seguiu seu caminho. Pela janela, pude vê-lo rindo, provavelmente celebrando o primeiro “golpe” bem-sucedido do dia. Não o julgo, mas se tivéssemos quinze minutos de conversa, eu entenderia o que o leva a burlar as regras. E não se espante que isso ocorra com os mais pobres; os ricos aplicam golpes sofisticados e ainda recebem pedidos de desculpas. Basta pesquisar sobre empresas que declaram falência por má gestão ou sonegação de impostos e depois conseguem perdão fiscal. Malandro, dizem, é o pato que já nasce com os dedos grudados.

No entanto, percebo uma melhora na qualidade da população, com pessoas mais sensatas e honestas. Talvez seja o efeito do excesso de câmeras e a facilidade de serem expostas nas redes sociais, como nos casos de agressores desmascarados em filmagens de elevadores. É triste abordar este tema, mas fingir que não acontece não resolve. Aliás, fingir é o que fazemos de melhor. Sem generalizar, mas: pedintes simulam doenças, alunos inventam fatalidades para não entregar trabalhos, funcionários forjam inúmeras situações para faltar, patrões fingem não ter lucro para negar aumentos, e pessoas fingem não ver seus cachorros defecando em locais públicos. A média da população brasileira se destaca na arte de fingir.

Eu entendo que a vida é esgotante, mas podemos ser felizes com menos. Ninguém precisa estar consumindo o tempo todo. Na ausência de parâmetros claros sobre felicidade, seja ela assistida ou consumida, todos querem parecer bem ou melhores que os outros. Daí surgem os “espertos” que querem encurtar o caminho para desfrutar do que não merecem, possuindo o que não precisam.

Se continuarmos assim, é incerto onde iremos parar. Seja mais reflexivo sobre suas atitudes. Se algo parecer fora do comum, pense duas vezes. Lembre-se do ditado:

“Se não puder contar como fez, não faça.”

Fui!

Manda um oi: @thiagomaroca / thiagomaroca@gmail.com

Thiago Maroca é escritor, membro da Academia Valparaisense de Letras, produtor audiovisual, fotógrafo, mestre em educação, chefe escoteiro, pai do Théo e uma meia dúzia de coisas que não cabem nesse espaço.

source

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com