O fim do mundo: O Antropoceno e a Psicanálise Cosmopolítica

Olá, leitor, quero retomar neste artigo nossas reflexões anteriores sobre a crise humanitária contemporânea, trazer novos elementos e propor uma organização da nossa prosa.
Como vimos, a ansiedade que nos devora por dentro e o colapso climático que nos ameaça por fora são manifestações da mesma arrogância da modernidade, aquela que ousou declarar o homo sapiens como o único sujeito falante no planeta.
Há mais de um século, Freud, nos impôs a terceira ferida narcísica, revelando que não éramos senhores em nossa própria casa. Ele demonstrou que um continente vasto e submerso (o inconsciente), dita nossos desejos e medos, obrigando-nos a encarar o egoísmo do instinto de autoconservação e a pulsão de morte.
A civilização, impõe uma contínua repressão pulsional, mas o instintual em nossa alma é inquieto no mais pleno sentido, e esta repressão apenas gera mal-estar.
No entanto, a crise planetária, que é ao mesmo tempo psíquica e climática, exige que tenhamos a coragem de olhar para além do divã. O sofrimento, para muitos povos, não é um telegrama cifrado do “Eu”, mas um conflito externo, uma relação conturbada com um agente do mundo.
Assim, passamos todo este tempo obcecados pela fronteira interna. O divã, se voltou para a fortaleza do Eu, esse ser constituído por motivos narcísicos. É neste ponto crítico que proponho a quarta ferida narcísica: a constatação de que nós não somos os únicos seres falantes.
Se Copérnico, Darwin e Freud descentralizaram o planeta, a espécie e a consciência, a emergência do Antropoceno (ou a Intrusão de Gaia, como prefere Isabelle Stengers) ataca o último pilar: a supremacia cognitiva do antropos racional. Não apenas os algoritmos de Inteligência Artificial, mas o Parlamento das Coisas do mundo exige um lugar de fala.
Essa crise de decentramento deve ser entendida através da Cosmopolítica.
Como nos ensina o pajé Yanomami Davi Kopenawa, a floresta não é categoria de “objeto” passivo, mas sim um universo vivo. Os espíritos veem os não-xamãs como espectros, e essa invisibilidade revela a profundidade do nosso isolamento em relação a língua do mundo.
O pensamento ameríndio, como nos lembra Eduardo Viveiros de Castro, inverte a lógica moderna: ali onde a nossa perspectiva se limita ao humano, a cosmologia indígena opera pelo multinaturalismo, onde tudo é gente, exigindo uma diplomacia cósmica.
O impacto dessa quarta ferida é a dissolução final da crença na autonomia total e na superioridade do Eu.
O que fazer, então, quando a fortaleza do Eu está sendo atacada pelo inconsciente e ameaçada por um mundo que se recusa a ser mudo?
A resposta à crise não está em um Eu que resiste ao mundo, mas em uma nova ética da satisfação. A destruição socioambiental é a manifestação de uma pulsão coletiva que não aceita o freio.
O modelo de crescimento ilimitado é a ilusão capitalista de que a satisfação está em um objeto sempre novo a ser consumido. Esse incessante mais-de-gozar nos impulsiona, mas o planeta, com seus recursos finitos (Limites Planetários), impõe um limite que o nosso desejo se recusa a respeitar.
A ética do decrescimento, proposta por pensadores como Serge Latouche, é o caminho para a travessia social da fantasia do Gozo Ilimitado. A recusa do crescimento contínuo é uma tentativa de renunciar à fantasia destrutiva, movendo-nos de uma busca excessiva e mortal insatisfeita, para uma redefinição do que é uma vida digna dentro dos limites impostos pelo real do mundo.
A psicanálise que emerge da quarta ferida e da ética do decrescimento é, por necessidade, cosmopolítica. Ela deve ser uma ferramenta para falar com o mundo exterior, não apenas para desatar os nós internos, mas para sustentar o desejo de um futuro diferente.
A urgência impõe uma transdisciplinaridade que dissolva os limites entre as ciências naturais e humanas.
A teórica Donna Haraway, ao propor o Cthulhuceno, como uma “brincadeira séria”, nos oferece uma narrativa que abraça o pensamento tentacular e a simpoiese (sympoiesis: fazer junto, criação coletiva), recusando a abstração da “humanidade” e o protagonismo humano.
O conceito vem da personagem de ficção Cthulhu, que é uma entidade cósmica criada pelo escritor H. P. Lovecraft em 1928. Ele é descrito como uma criatura maligna adorada por uma seita que busca trazê-lo de volta ao nosso plano astral, o que poderia desencadear o apocalipse. O antropoceno, neste sentido é o nosso fim do mundo invocado pela modernidade.
O Cthulhuceno é a proposta de compor histórias e práticas multiespécies contínuas de devir-com em tempos apocalípticos.
A psicanálise contemporânea deve buscar essa mundificação multiespécies, onde os humanos são com a Terra, interligados em contingência. Haraway propõe a simpoiese como um modelo alternativo e crítico à ideia de autopoiese, que é frequentemente associada à ideia de autonomia e fechamento do sistema, o que reforça o individualismo e o antropocentrismo, segundo a autora.
Portanto, isso implica abandonar a ilusão de um “Antropoceno bom”, uma fantasia transumanista de hipermodernização e domínio sobre a natureza. Na prática o transumanismo é antropocêntrico e busca um aprimoramento do ser humano através da tecnologia. Contudo, a crise exige o oposto: o decentramento do antropo-falo-ego-logo-cêntrico.
A psicanálise, neste novo tempo, precisa ser indomesticável, capaz de fazer alianças com quem não pensa como nós, com quem não “fala” como os humanos. É um convite para abraçar a descentralização, não como um mal-estar, mas como uma praxis de liberdade e experimentação criativa.
A nomeação mais adequada para esta nova abordagem, que surge como resposta à quarta ferida narcísica e à urgência planetária, seria a Psicanálise Cosmopolítica.
Este nome não é apenas uma junção de termos, mas a expressão da necessidade urgente de a teoria psicanalítica se alinhar com o campo de atuação e o modelo ético que o momento atual exige.
A Psicanálise Cosmopolítica é a base teórico-política, enquanto o Decrescimento é a sua manifestação ética na prática da satisfação e da pulsão. Ambos definem o projeto de “descolonização do pensamento” em face do narcisismo moderno.

Piratas e xamãs do mundo, desatemos os nós, antes da queda do céu!

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista, pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. É também professor colaborador na Universidade Metodista de São Paulo e no Instituto Ânima, como formador em Educação Socioemocional. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos.

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