O que o cometa 3I/ATLAS e La Niña tem em comum?
O efeito La Niña é caracterizado pelo resfriamento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Recebe este nome, pois tem o efeito oposto ao El Niño. O fenômeno deve vigorar até fevereiro de 2026, segundo INPE. Seus principais impactos são o aumento do volume de chuvas, com maior risco de inundações e cheias. Períodos de seca prolongada e temperaturas mais elevadas, afetando principalmente a agricultura e o abastecimento de água, além de chuvas irregulares, alternando períodos intensos ou de estiagem, com variações de temperatura.
Por outro lado, temos o fenômeno em torno do 3I/ATLAS. Em momentos de instabilidade social ou de excesso de informação complexa, as massas frequentemente buscam um foco unificador, algo que seja, ao mesmo tempo, espetacular e simples de se narrar. Porém algo distante, uma catástrofe “segura”, ao contrário de La Niña, que nos impacta diretamente no dia a dia.
O 3I/ATLAS preenche essa lacuna perfeitamente. Ele é um evento raro e inédito, validado por instituições de prestígio e que, não representa uma ameaça iminente. Esta combinação permite que o grupo se aglomere em torno da narrativa sem a paralisia do medo real, dedicando-se à contemplação do sublime ou à especulação sem consequências.
Além disso, a natureza externa do cometa permite que o grupo exerça a projeção. Em vez de focar nas complexidades internas (problemas políticos, crises sociais e climáticas), a energia psíquica da massa é direcionada para o objeto que vem de “fora”, gerando um lugar comum de debate e engajamento.
O 3I/ATLAS é a tela cósmica perfeita para essa projeção. O fato de ser o terceiro objeto interestelar conhecido reativa imediatamente a memória do primeiro, 1I/ʻOumuamua, que, devido à sua forma e movimento estranhos, gerou inúmeras teorias de que seria uma nave-sonda alienígena. No caso do 3I/ATLAS, embora a maioria dos cientistas o define como um cometa típico em seu comportamento físico, as anomalias químicas alimentam a persistente “hipótese alienígena”.
A ideia de Aliens funciona como uma resposta à solidão humana e um desafio ao nosso narcisismo. Se somos os únicos seres inteligentes, o universo é, em certo sentido, “nosso lar”. O fascínio pelos Aliens é a manifestação de um desejo de encontrar uma “origem alternativa” para a humanidade, talvez uma mais grandiosa, ou uma solução para os problemas terrenos trazida por uma tecnologia superior.
Segundo Freud, o Infamiliar (Unheimlich) é aquilo que é familiar (pertencente ao lar, ao íntimo) mas que, por alguma razão, foi reprimido e retorna, causando uma sensação de estranheza e terror sutil. O cometa 3I/ATLAS, embora seja um cometa (algo familiar à Astronomia), se comporta de forma infamiliar: tem uma química inesperada e uma trajetória que rompe o padrão dos corpos celestes do nosso “lar” (o Sistema Solar). Essa quebra do familiar é o motor que aciona a fantasia mais poderosa: a vida e a tecnologia alienígena.
E o nosso lar? O real?
Vivemos uma ansiedade climática (ou Ecoansiedade), que se manifesta de diversas formas, desde sentimentos internalizados até reações físicas agudas, sendo muitas delas desencadeadas por eventos climáticos reais ou pela constante exposição a notícias sobre a crise ambiental. Não inutilmente, a necessidade de algo não familiar, onde depositar nossas projeções e fantasias.
Acreditamos que, de alguma forma, sempre haverá um novo horizonte, uma terra inexplorada para onde poderemos fugir quando esgotarmos a atual. Essa crença, profundamente enraizada na mentalidade expansionista, está em colapso diante da crise climática. As manchetes de hoje não falam apenas de desastres naturais; elas apontam para o surgimento de uma nova e trágica categoria: os refugiados do nosso próprio planeta.
O comportamento humano, o conhecido antropoceno, transformou as mudanças climáticas de uma ameaça teórica para um agente de deslocamento em massa. O impacto de nossas ações – a queima desenfreada de combustíveis fósseis, o desmatamento massivo, a poluição industrial – não se limita mais a gráficos científicos.
O cerne da nossa crise é que, ao destruir o meio ambiente, não estamos apenas comprometendo o futuro; estamos minando o direito inalienável de existir no presente. As nações ricas, em grande parte responsáveis por essa catástrofe, constroem muros e fecham fronteiras, tratando esses migrantes não como vítimas de um colapso sistêmico, mas como um problema de segurança a ser contido.
A grande diferença entre os conflitos passados e a crise climática é a ausência de um refúgio final. Em guerras, as pessoas buscam outro país; em colapso climático, o dano é global. Não há um “planeta B” para o qual possamos realocar bilhões de pessoas. A Antártida não nos acolherá, Marte continua sendo uma fantasia de ficção científica, e mesmo as nações que hoje parecem seguras enfrentam a iminente destruição de suas infraestruturas e ecossistemas.
Deixar de agir agora significa aceitar que, em breve, a palavra “refugiado” não será usada para descrever “o outro” em terras distantes, mas sim nossos vizinhos, nossos filhos, ou até nós mesmos, vagando sem um lar seguro em nosso próprio e único mundo. A sobrevivência depende da nossa capacidade de cooperação e da urgência em reparar o único lar que a humanidade já conheceu.
Não adianta esperar por alienígenas que venham nos escravizar ou salvar, nós que que teremos que tomar a decisão de olhar para o espelho do mundo e enxergar nossos traumas, para então podermos reagir aos novos tempos.
É sempre tempo de olhar para o real e desatar nós!
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista, pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. É também professor colaborador na Universidade Metodista de São Paulo e no Instituto Ânima, como formador em Educação Socioemocional. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos.
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* Colaboração de diáriodoentorno.com.br




