O “BBB” Canino

Um vira-lata de Santa Catarina conseguiu furar a bolha do algoritmo do “BBB”.

Enquanto, há 26 anos, algumas pessoas desperdiçam seu tempo assistindo à vida teatralizada e televisionada de personagens cuidadosamente selecionados, muitos outros continuam a sonhar acordados no caminho do trabalho, ansiando por um teto. O Big Brother expõe um mundo idealizado, almejado por muitos – e por que eu seria diferente? Quem não gostaria de uma vida adulta de Playboy: dormir até tarde, acordar para malhar, passar a tarde vendo gente bonita na piscina e, quem sabe, até engatar um romance? Festas a cada três dias, com direito a prêmios que eu nunca ganhei nem tentando completar o álbum de figurinhas da mercearia do bairro. A transição para a vida adulta no início do ano é marcada por rituais como a conta do IPVA, o financiamento do material escolar e, claro, a ansiosa espera pela lista de participantes da “Casa mais vigiada do Brasil”. Não fujo à regra: em 2007/2008, cheguei a gravar um vídeo na tentativa de integrar o elenco desse reality show. Embora não tenha passado das semifinais, consolo-me ao saber que já houve representantes do Entorno do DF no programa, provando nossa excelência em forjar adultos fúteis.

O estado de Santa Catarina, no entanto, parece ser para os fortes. Enquanto o país se choca com o PCC em São Paulo ou a guerra do tráfico no Rio de Janeiro, o restante do Brasil ignora a indiferença que permeia esse estado sulista, que, inclusive, votou pelo fim das cotas nas universidades estaduais — talvez numa tentativa de “clarear” o ambiente acadêmico, já que as ideias andam meio turvas. Nesse contexto, quatro adolescentes são suspeitos de matar Orelha, um cãozinho sem raça definida que, aparentemente, jamais fez algo que merecesse o destino que lhe foi imposto. A atitude impensada dificilmente trará consequências para esses jovens de classe média. Dois deles, inclusive, viajaram para os Estados Unidos, fugindo do tormento de lidar com o remorso. Isso, claro, antes mesmo de terem sido punidos, se é que um dia o serão.

Se o Big Brother fosse com um vira-lata de cada região do Brasil, talvez tivesse menos audiência, mas seria, sem dúvida, mais educativo. Imagine um cenário onde cada um contasse sua história: onde nasceu, quando foi abandonado, resgatado e adotado. Os cachorros mais velhos ganhariam lares coletivos, tornando-se auxiliares em terapias, pedindo carinho, dando a patinha. Os mais novos estampariam embalagens de rações premium. Haveria em cada prédio público um pote de água, ração e uma caminha coletiva. Os estados iriam promover mutirões de castração e criação parques onde os pets pudessem andar sem coleiras. Condomínios e poder publico cobrariam de forma eficiente a limpeza e coleta de fezes com a mesma maestria que cobram taxas. Seria justo que, quem ajudasse mais animais abandonados tivesse redução no IPVA, IPTU e Imposto de Renda.

Da nossa parte, ainda precisamos evoluir muito, já os animais dão show em cidadania. Não uma nem duas vezes que vi um cachorro atravessando na faixa de pedestres apenas quando o sinal lhe indicava passagem.
Respeitem os animais. Orelha presente!
Fui

Thiago Maroca é professor, escritor, cineasta.
Manda um oi: thiagomaroca@gmail.com / Thiago Maroca

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