“NÃO AGUENTO MAIS SER EU”: POR QUE A ANSIEDADE MODERNA É, ANTES DE TUDO, UMA CRISE DE SENTIDO?

⁠”Leva ela pra lua por mim!” dizia o amigo imaginário da Riley, Bing Bong, na animação Divertida Mente. Talvez a lua seja este desejo de futuro, mas “que pena que levaram seu foguete” dizia a tristeza. E como olhamos para nossos desejos? nos vemos neles? Ou talvez o Eu ideal que criamos não está nos planos da vida real?
Você não está ansioso apenas pelo futuro; você está ansioso por não saber “quem” é nesse futuro. Entenda a diferença entre tratar o sintoma e encontrar a causa.
A frase exata varia, mas o sentimento é universal. Ele ecoa em nossos consultórios, surge em conversas de café e grita em silêncio nas reuniões de trabalho: “Eu não aguento mais ser eu”.
Este “eu” que não se aguenta mais é uma construção exaustiva. É o “eu” da performance constante, da produtividade tóxica, das redes sociais que exigem uma felicidade editada. É o “eu” que precisa dar conta de tudo – da carreira, da família, das finanças, da saúde física – e que, ao final do dia, sente um vazio profundo, mesmo quando (e especialmente quando) tudo parece “bem” na superfície.
Chamamos esse sentimento de ansiedade.
Imediatamente, buscamos soluções. Aplicativos de meditação, exercícios de mindfulness, mudanças na dieta, fármacos e, claro, “pensar positivo”. Essas ferramentas têm seu valor. Elas são excelentes para gerenciar e aliviar os sintomas físicos da ansiedade: a taquicardia, a insônia, a mente acelerada, a sensação de perigo iminente.
Mas o que acontece quando, mesmo medicado e “zen”, o sentimento persiste? O que acontece quando a verdadeira dor não é a palpitação, mas a pergunta aterradora: “É só isso?”
É aqui que precisamos ter a coragem de fazer um diagnóstico diferencial. E se a sua ansiedade não for (apenas) um desequilíbrio químico? E se ela for, fundamentalmente, uma crise filosófica?
Como filósofo e psicanalista, vejo uma distinção crucial que a sociedade moderna, obcecada por soluções rápidas, ignora: a diferença entre medo e angústia.
O medo tem um objeto. Você tem medo de perder o emprego, medo de falar em público, medo de um diagnóstico.
A angústia, como brilhantemente definiram os filósofos existenciais como Kierkegaard e Sartre, é “a tontura da liberdade”. A angústia não tem um objeto definido; seu objeto é o nada. É a ansiedade que surge não porque as coisas vão mal, mas porque não sabemos por que elas deveriam ir bem.
Vivemos em uma era que perdeu as grandes narrativas que davam sentido à vida. As estruturas tradicionais – religião, comunidade, família estável, carreiras lineares – que antes nos diziam “quem éramos” e “para onde íamos” se dissolveram. Fomos “condenados a ser livres”, nas palavras de Sartre, e essa liberdade absoluta é vertiginosa.
Sem um “manual” para a vida, somos forçados a inventar nosso próprio sentido a cada manhã. A ansiedade moderna, essa “crise filosófica”, é o sintoma de um “Eu” que não sabe por que existe. É o pânico de ter que criar um roteiro para a própria vida sem ter a menor ideia de qual é a história.
Quando tratamos essa angústia existencial apenas como ansiedade clínica (um sintoma a ser eliminado), cometemos um erro perigoso.
Imagine que sua casa está pegando fogo. O alarme de incêndio dispara. O que você faz? Você toma um remédio para parar o barulho do alarme, ou você procura a fonte do fogo?
A ansiedade é o alarme.
Tratar o sintoma (o barulho) é essencial para que você possa pensar com clareza. Mas se você nunca procurar o fogo (a causa), a casa continuará queimando.
A angústia que se manifesta como “não aguento mais ser eu” é um alarme existencial. Ela está lhe dizendo que a forma como você construiu sua identidade, as escolhas que fez (ou que fizeram por você), não estão mais alinhadas com seu desejo mais profundo. Ela é um chamado desesperado do seu inconsciente para uma mudança de rota.
Silenciá-la com “hacks” de produtividade ou positividade tóxica apenas adia o colapso. O fogo continua lá.
É neste ponto que a psicanálise se diferencia de outras terapias. A psicanálise, especialmente em diálogo com a filosofia, não tem como objetivo primário fazer você “parar de sentir”. Ela não lhe dará “5 passos para ser feliz” ou um novo “propósito” de vida pronto.
O objetivo da psicanálise é radicalmente diferente: é criar um espaço seguro para que você possa, talvez pela primeira vez, escutar o que sua ansiedade está tentando dizer.
A “cura pela fala”, como Freud a chamou, não é mágica. É um trabalho. É o trabalho de usar a sua própria fala, em presença de um analista, para investigar as ruínas da sua história. É olhar para o “eu” que você não aguenta mais e perguntar: “Quem, de fato, está falando aí?”.
É um processo de desconstrução e reconstrução. Desconstruir as expectativas que internalizamos (da família, da sociedade, da cultura) e reconstruir um “eu” que seja mais autêntico. Como diria o filósofo Heidegger é parar de seguir a multidão, aceitar a vida, e bancar as suas próprias escolhas.
Em uma análise, você não recebe um sentido para sua vida. Você constrói esse sentido ao se dar conta dos seus próprios desejos, das suas repetições, das suas verdades mais íntimas. A ansiedade não desaparece magicamente, mas ela muda de função. De um pânico paralisante, ela se transforma em uma bússola que aponta para onde a vida autêntica quer brotar.
Se você já tentou de tudo – gerenciar o tempo, otimizar a rotina, medicar o sintoma – e ainda assim sentir o peso de “não aguentar mais ser você”, talvez a sua crise não seja de gestão. Talvez ela seja de sentido.

É sempre tempo de desatar nós e ir à lua!

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.

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