Mãos que sentem, fios que unem: O casamento que transformou o “ver” em um gesto de inclusão

O amor não precisa ser visto para ser sentido, mas no casamento de Gabriel e Dayane, ele ganhou contornos, texturas e relevos. O que poderia ser apenas mais uma cerimônia de união em Brasília tornou-se um manifesto poético de inclusão, orquestrado pela mãe do noivo, a jornalista, fotógrafa e bordadeira Fernanda.

Gabriel nasceu prematuro, aos seis meses e meio, pesando menos de dois quilos. O bebê frágil, que exigiu cuidados intensos e trouxe desafios precoces sobre a percepção do mundo, cresceu para se tornar um homem formado em Letras pela UnB e músico. Para celebrar o casamento do filho com a colega dos primeiros anos de escola, Dayane, Fernanda decidiu que a arte seria a ponte para que o filho e seus amigos cegos não fossem apenas figurantes, mas protagonistas da experiência visual do evento.

A “Mãe Passarinha” e a arte do afeto

O projeto nasceu da fusão de duas paixões de Fernanda: a fotografia, que abraçou em 2011, e o bordado, técnica que aprendeu na adolescência. “Tudo que faço, me pego pensando: como isso falaria com o meu filho?”, revela a artista. Durante a preparação, ela bordou as fotos do ensaio pré-nupcial do casal, transformando o papel fotográfico em uma superfície tátil.

Ao tocar as linhas que contornavam as mãos e os rostos dos noivos, Gabriel e outros convidados com deficiência visual puderam “ver” com as mãos a estética daquele momento. “Bordar as mãos dos noivos foi como ver um filme passar. Lembrei de quando o peguei no colo tão pequeno. Ver os olhos dele e dos amigos brilharem ao acessar o QR Code com audiodescrição foi o maior presente”, emociona-se Fernanda.

Fotos de Luís Gustavo Nova

Acessibilidade além do óbvio

A celebração não parou no bordado. A cerimônia contou com recursos de audiodescrição e uma escolha cuidadosa de profissionais. A cobertura fotográfica ficou a cargo de Luís Gustavo Nova, fotojornalista que ministra aulas para pessoas com deficiência no projeto “Vivências Inclusivas”. “Conduzir as fotos pela voz e ter profissionais que entendem esse nicho faz toda a diferença”, destaca a mãe do noivo.

A união das famílias de Fernanda e Lucimar (mãe de Dayane) selou não apenas o compromisso entre os jovens, mas um compromisso com a “acessibilidade afetiva”. Para os convidados, a experiência foi transformadora; muitos saíram do evento buscando levar aquela tecnologia de inclusão para seus próprios ambientes de trabalho e convívio.

Fotos de Luís Gustavo Nova

Um legado de militância poética

Gabriel, que um dia descreveu a mãe em um texto escolar como a “mãe passarinha” que, mesmo cansada, “cantarolava sonhos”, viu esses sonhos se materializarem em uma festa onde o toque e o som substituíram a exclusão do silêncio e do escuro.

“Se eu não fizesse nada nesse dia, não seria eu. Não seria a mãe do Gabriel Fernando”, afirma Fernanda. Ela espera que seu gesto seja lembrado como uma “militância poética”, como um lembrete de que a inclusão pode estar no trabalho, na igreja, no mercado ou no altar. “Quero que as pessoas vejam que podem incluir, que está ao alcance de todos”, finaliza, agora com o coração em festa e uma nova filha, Dayane, para integrar a revoada de sua família de passarinhos.

Fernanda é uma profissional admirável, cuja sensibilidade expande os horizontes da fotografia. Seu olhar captura o que muitos ignoram: ela enxerga além da superfície, compreendendo as nuances e as limitações do outro com rara empatia. No seu caso, o que aguçou essa visão foi um amor de mãe profundo, que permeia cada decisão e pensamento. Para além de sua técnica, Fernanda é uma figura materna exemplar. Sua iniciativa é, sem dúvida, uma fonte de inspiração para mães e artistas, provando que é possível tornar o mundo um lugar mais afetuoso, esteticamente belo e, acima de tudo, inclusivo.

Fotos de Luís Gustavo Nova

O Casamento em Detalhes

  • Fotos Bordadas: Técnica que permite sentir o contorno das imagens através do relevo das linhas.
  • Audiodescrição: Uso de QR Codes para que convidados ouvissem a descrição detalhada das cenas registradas. A áudio descrição foi feita por Jane do Cinema Cego.
  • Fotografia Inclusiva: Cobertura focada em profissionais capacitados para interagir e guiar pessoas com deficiência visual.

Fernanda Queiroz @fernandaqueirozfe é fotógrafa, Jornalista, Fotógrafa, Audiodescritora, Bordadeira e costureira da @fe_artes_ 

 

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