Lula disse para eu ser técnico após reunião com Vorcaro, diz Galípolo

Presidente do Banco Central participou de encontro com petista e fundador do Master em dezembro de 2024

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse nesta 4ª feira (8.abr.2026) que recebeu orientação para agir de forma técnica depois de reunião no Palácio do Planalto em dezembro de 2024 com o fundador do Banco Master, Daniel Vorcaro. O ex-banqueiro teria reclamado da concentração e da “perseguição” do mercado no encontro.

Segundo o chefe do BC, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse a Vorcaro que ele [Galípolo] assumiria o comando da autoridade monetária em janeiro de 2026, e que seria “técnico”.

“’Olha, o Galípolo vai assumir daqui a um mês Banco Central. Esse é um tema que não cabe à Presidência de República, cabe ao Banco Central. E lá dentro do Banco Central eu tenho certeza de que você vai ser tratado de maneira técnica e a análise vai ser técnica”, declarou Galípolo, sobre o que disse Lula aos acionistas do Master em dezembro de 2024.

O relator da CPI é o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) questionou Galípolo se ele recebeu algum tipo de comando do Planalto depois do término da reunião.

“Recebi. Sempre assim: ‘Olha, seja técnico. O mais técnico possível. Você tem toda a autonomia nesse processo para você perseguir, seja quem for investigar seja quem for. Mas, também, não faça nenhum tipo de pirotecnia. A orientação sempre foi essa: não proteja ninguém, não persiga ninguém”, declarou Galípolo.

Eis a lista de presentes na reunião, segundo Galípolo:

  • Daniel Vorcaro, fundador do Master;
  • Augusto Lima, ex-sócio do Master;
  • Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda;
  • Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil;
  • Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia.

O presidente do Banco Central deu a entender que a reunião já havia começado antes de ele ter chegado ao Palácio do Planalto.

“Quem falou mais foi, propriamente, o Daniel Vorcaro e ele falou muito nessa linha do que estava acontecendo, de que o sistema financeiro era muito concentrado, e que ele tinha métodos inovadores que geraram mais concorrência e que ele estava incomodando com a concorrência”, disse Galípolo.

Galípolo foi convidado pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado para explicar a atuação do Banco Central no caso Master, ao maior escândalo bancário da história que pode culminar em um possível acordo de delação premiada que tem reflexos nos Três Poderes.

Vorcaro foi preso pela 2ª vez em 4 de março e segue detido. É investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.

Galípolo teve reunião fora da agenda pública no Palácio do Planalto em 4 de dezembro de 2024 com Vorcaro, o presidente Lula e outras autoridades. Na época, ele não informou sobre o encontro ao então presidente do Banco Central Roberto Campos Neto.

O presidente do BC disse que recebeu o convite do chefe de gabinete da Presidência da República para participar do encontro. Ele afirmou que Vorcaro e acionistas disseram que eram perseguidos pelos agentes do mercado pela concorrência do Master. Galípolo afirmou, na CPI, que a afirmação “não era aderente” pelo tamanho do banco.

“Quando eu chego na reunião, o tema seguia uma narrativa que estava bastante disseminada e foi até predominante durante boa parte de 2025. Os acionistas do Master relatavam sempre uma história de que eles estavam sendo perseguidos pelo mercado financeiro e que a dificuldade de eles conseguirem fazer capitação era essa persecução que existiria em função da concorrência que eles estariam gerando”, disse.

O presidente do Banco Central comentou sobre as investigações que resultaram em um rombo de quase R$ 52 bilhões no FGC (Fundo Garantidor de Crédito).

Ele é ouvido na condição de testemunha.

BRB

O Banco Central descobriu os créditos podres do Master durante a negociação de compra em 2025 do Master pelo BRB (Bando de Brasília), estatal do Distrito Federal. O BRB agora está em situação financeira alarmante depois de comprar R$ 12,2 bilhões em carteiras do Master.

A estatal entregou em fevereiro deste ano um plano de capital com medida para recompor o balanço e reforçar a liquidez, mas corre risco de ser liquidada pelo Banco Central, assim como o Banco Master. O BRB não divulgou o balanço financeiro do ano passado, o que elevou as incertezas em relação ao futuro do banco.

O Banco Central teve “certeza” da inexistência de lastro em carteira de crédito em 27 de junho de 2025. As autoridades competentes –Ministério Público Federal e Polícia Federal– foram comunicadas em julho. A 1ª fase da operação Compliance Zero foi realizada em novembro.

Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, do Banco Central, são suspeitos de facilitar interesses do Master na autoridade monetária. A CGU (Controladoria Geral da União) também instaurou processos administrativos disciplinares. Paulo Sérgio Souza foi diretor de Fiscalização do Banco Central de 2017 a 2023, durante os governos Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), sendo indicado pelos 2 ex-presidentes para o cargo.

Paulo Souza é alvo de investigações da PF por fornecer informações privilegiadas para Daniel Vorcaro. Belline e Souza atuavam no Desup (Departamento de Supervisão Bancária) e foram afastados dos cargos em 4 de março deste ano.

As investigações assumem duas frentes:

  • uma da CGU (Controladoria Geral da União), com possíveis sanções administrativas;
  • uma da Polícia Federal, do ponto de vista criminal.

Galípolo já disse que a autoridade monetária tem um sentimento de “consternação” depois do caso do Master. Na época, defendeu que a ética é um valor “muito caro” aos funcionários públicos da instituição e pediu “ajuda” para a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 65 de 2023 no Congresso, que amplia a autonomia financeira do Banco Central em relação ao governo federal.

De acordo com Galípolo, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, identificou em janeiro de 2025 que o Master estava fazendo venda de novas carteiras por causa dos problemas de liquidez, mesmo com as dificuldades de novas captações.

Um grupo de análise começou os trabalhos em fevereiro e identificou, em março, que as carteiras não tinham lastros. Os documentos obtidos eram, segundo Galípolo, insuficientes para constatar uma fraude, mas o BC procurou respostas mais satisfatórias sobre a origem dos créditos.

O Banco Central teve dificuldade para encontrar evidências e avançou nas investigações durante o processo de análise de compra do Master pelo BRB.

O BC defende que o rito legal do processo foi respeitado para que não houvesse questionamentos posteriores. O BC deu “chances” para que fosse esclarecido, e o tempo de apuração foi destinado para fundamentar o processo e avisos às autoridades competentes.

CASO MASTER

O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. O fundador da instituição financeira, Daniel Vorcaro, firmou em 19 de março de 2026 um acordo de confidencialidade com a PF (Polícia Federal) e com a PGR (Procuradoria Geral da República) que possibilita a delação premiada. O documento expõe riscos de várias autoridades públicas de Brasília. Esse acordo foi assinado quase 12 meses depois do anúncio de compra pelo BRB (Banco de Brasília), que tenta se recuperar financeiramente após a operação.

O Master foi responsável pelo rombo recorde no FGC (Fundo Garantidor de Créditos), de quase R$ 52 bilhões, mesmo tendo somente 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do sistema financeiro nacional. Também provocou prejuízo de quase R$ 2 bilhões para Estados e municípios nos fundos de Previdência.


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