Preços dos principais insumos agrícolas dispararam desde a intensificação do conflito entre Irã, EUA e Israel
À medida que a guerra entre o Irã, os Estados Unidos e Israel chega ao 11º dia, interrupções no estratégico estreito de Ormuz impulsionam uma forte alta nos preços globais de fertilizantes e elevam o risco de uma nova crise alimentar.
Os preços de insumos agrícolas relevantes subiram desde a intensificação do conflito. Na Chicago Board of Trade, os contratos futuros de ureia –referência do mercado– atingiram US$ 584,5 por tonelada em 9 de março, alta de 25% em relação a 28 de fevereiro. Na China, o preço à vista do enxofre alcançou 4.550 yuans (US$ 659) por tonelada no mesmo dia, aumento de 17% no mesmo período.
“Fertilizante é o ‘alimento do alimento’ e um pilar da agricultura moderna”, disse Cheng Guoqiang, diretor do National Food Security Strategy Research Institute. Em entrevista à Caixin, ele afirmou que a quase paralisação no estreito já afeta de forma severa a cadeia global de fertilizantes, com escassez de produtos relevantes como ureia, fertilizantes fosfatados e enxofre.
O estreito de Ormuz é uma rota estratégica por onde passa 1/3 do comércio marítimo mundial de fertilizantes. A região do Golfo responde por 45% a 49% das exportações globais de ureia, 20% a 30% dos fertilizantes fosfatados e 45% a 50% das remessas de enxofre. Dados da IFA (International Fertilizer Association) e do TFI (The Fertilizer Institute) indicam que um bloqueio prolongado pode abrir um deficit anual de 50 milhões a 60 milhões de toneladas no abastecimento global.
A interrupção se dá em momento sensível para o plantio de primavera no Hemisfério Norte, e não há estoques estratégicos de fertilizantes capazes de amortecer o impacto. Cheng afirmou que a escassez pode reduzir a produtividade de culturas básicas de 2% a 5%.
Segundo ele, o conflito pode desencadear uma nova crise alimentar global, possivelmente mais ampla e severa do que a turbulência registrada depois da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
“O estreito de Ormuz representa um bloqueio físico difícil de contornar”, declarou Cheng. Ele disse que a interrupção atinge fertilizantes nitrogenados –os mais importantes para o crescimento das lavouras– justamente durante o período crucial de plantio da primavera. Na crise de 2022, o principal impacto se concentrou na potassa, e as exportações russas de fertilizantes ficaram em grande parte fora das sanções e puderam ser redirecionadas.
Cheng afirmou que a crise pode se desenvolver em 3 etapas. A fase atual, até abril de 2026, envolve um choque de preços que pode levar agricultores a reduzir o uso de fertilizantes. A 2ª etapa, de maio a julho, pode alterar decisões de plantio e afetar diretamente as colheitas de outono. Caso as interrupções avancem para uma 3ª fase a partir de agosto, o esgotamento de nutrientes no solo pode comprometer várias safras, ampliando o risco de uma crise alimentar global mais prolongada.
O IFPRI (International Food Policy Research Institute) estima que um conflito prolongado pode elevar os preços globais dos alimentos de 10% a 30%, acima da alta de 10% a 20% registrada em 2022, e levar de 120 milhões a 250 milhões de pessoas adicionais à condição de fome.
A capacidade global de absorver o impacto é limitada. Não existem reservas estratégicas de fertilizantes. Há fornecedores alternativos potenciais, como Rússia e China, mas ambos enfrentam restrições. A Rússia, responsável por 15% a 20% do comércio global do produto, ainda sofre com sanções e instabilidade no mar Negro. Já a China, 2º maior exportador, tende a priorizar a segurança alimentar interna.
Os efeitos não serão uniformes. Grandes importadores, como Índia e Brasil, enfrentam riscos imediatos. A Índia, maior consumidora de ureia do mundo, importa mais de 80% do produto do Oriente Médio. O Brasil, principal exportador de soja, compra cerca de 40% da ureia usada no país dessa região, o que pressiona os custos agrícolas e pode afetar os volumes exportados –com reflexos também para grandes compradores como a China.
Até países produtores já sentem impactos. Irã e Qatar suspenderam parte da produção de ureia.
As regiões mais vulneráveis incluem a África Subsaariana, onde o uso de fertilizantes já é o mais baixo do mundo. O WFP (World Food Programme) alertou que dezenas de milhões de pessoas adicionais na região podem enfrentar fome.
Os próprios países do Golfo, com índices de autossuficiência alimentar inferiores a 20%, também podem enfrentar escassez quando seus estoques emergenciais –estimados de 3 a 6 meses– se esgotarem. Em sinal de preocupação crescente, o Irã proibiu todas as exportações de alimentos e produtos agrícolas em 3 de março. O Kuwait adotou medida semelhante em 5 de março, com veto de 1 mês às exportações de alimentos para proteger o mercado interno.



