Fé ou terapia? Rezar não substitui a análise (e por que a análise não substitui a oração)

Nesta semana de Natal, entenda a distinção crucial entre o conforto espiritual e a elaboração psíquica. 

Para muitos brasileiros, a fé não é apenas um detalhe; é a âncora que sustenta a vida diante das tempestades. É o lugar de refúgio quando a dor aperta.

No entanto, como Psicanalista clínico e, simultaneamente, Cientista da Religião, vejo com preocupação um fenômeno que se intensifica nesta época. Frequentemente, recebo em meu consultório, ou ouço em confissões informais, uma frase que carrega uma resistência perigosa à saúde mental:

“Doutor, eu não preciso de psicólogo. Eu tenho a minha fé. Se eu estou ansioso ou deprimido, é porque preciso rezar mais. Deus é o meu médico.”

Sinto-me na obrigação ética e técnica de fazer um alerta nesta época festiva: Fé e Análise são águas de rios diferentes. Beber de um não sacia a sede que é do outro. Confundir os dois domínios pode levar a um agravamento severo de quadros psiquiátricos e ao “Bypass Espiritual” (o desvio espiritual), o uso da religião como uma defesa para não enfrentar dores emocionais não resolvidas.

Para entender por que a oração não substitui a terapia, precisamos compreender a função de cada uma na vida humana.

A religião e a espiritualidade operam na Verticalidade. Elas tratam da relação do sujeito com o Transcendente, com o sentido último da vida, com a ética comunitária e com a esperança escatológica (o futuro). A fé oferece acolhimento, pertencimento e uma narrativa para o sofrimento (“isto é uma provação”, “há um propósito maior”).

A psicanálise opera na Horizontalidade e na Profundidade. Ela trata da relação do sujeito consigo mesmo, com seu desejo inconsciente, com suas pulsões e com a repetição de padrões formados na infância.

 

Vamos usar uma analogia física. Imagine que você fraturou o fêmur.

A fé pode lhe dar a resiliência interior, a paciência e a força de espírito necessárias para suportar a dor e o processo de recuperação. Isso é valioso e comprovadamente ajuda na cura. Mas a fé, por si só, não realinha o osso e nem sutura o tecido. Quem faz isso é a técnica ortopédica.

Da mesma forma, a oração pode trazer um alívio momentâneo para a angústia. A neurociência já demonstrou que práticas meditativas e de oração reduzem a atividade da amígdala cerebral (o centro do medo), promovendo uma sensação de paz. Isso é o “analgésico”.

Mas a oração não descobre por que você continua escolhendo parceiros abusivos há dez anos. A oração não elabora o luto congelado da perda de um pai. A oração não resolve a neurose de fracasso que faz você se boicotar profissionalmente toda vez que está perto de ser promovido.

Isso não é falta de fé. É falta de elaboração psíquica.

O termo Spiritual Bypassing foi cunhado pelo psicólogo John Welwood para descrever a tendência de usar ideias e práticas espirituais para contornar ou evitar enfrentar problemas emocionais não resolvidos, feridas psicológicas e tarefas de desenvolvimento inacabadas.

No consultório, vejo isso acontecer de formas sutis: 

A pessoa que aceita passivamente um casamento violento porque “Deus odeia o divórcio” ou porque “é a minha cruz”.

O indivíduo com depressão química severa que recusa medicação ou terapia porque acredita que a tristeza é apenas “ataque espiritual” ou falta de jejum.

O sujeito que reprime sua raiva legítima (uma emoção necessária para estabelecer limites) porque acredita que um “bom cristão” deve estar sempre sorrindo e perdoando instantaneamente.

Nesses casos, a religião deixa de ser um caminho de libertação e torna-se um mecanismo de defesa do Ego. É muito mais fácil dizer “entrego a Deus” do que admitir “eu tenho medo de tomar uma decisão e arcar com as consequências”.

Na psicanálise, trabalhamos o conceito de retificação subjetiva. O analista convida o paciente a sair da posição de vítima (do destino, do diabo, dos pais) e perguntar: “Qual é a minha parte nessa desordem de que me queixo?”. Após um tempo de análise, sua relação com a fé deve amadurecer. Ela se torna mais leve, mais segura e menos baseada no medo. 

Outro ponto importante, há um medo comum, especialmente em meios conservadores, de que o psicólogo ou psicanalista seja um “ateu acadêmico” que tentará convencer o paciente de que Deus é uma ilusão.

Essa é uma visão ultrapassada, presa a uma leitura eurocêntrica do início do século XX. Entendemos que a dimensão espiritual e ancestral é constitutiva do ser humano, especialmente na cultura brasileira (seja ela cristã, evangélica, matriz africana ou outra).

O consultório é um espaço laico, mas não antirreligioso. Se a sua fé é o que lhe dá sentido, ela será uma aliada no tratamento, não uma inimiga. O objetivo da análise é a liberdade. Queremos que você seja livre para crer (ou não crer) por escolha autêntica, e não por medo do inferno, culpa edípica ou pressão social.

O Natal celebra o nascimento. A Encarnação, o divino tornando-se humano, assumindo a fragilidade da carne, o choro, a fome, a necessidade de cuidado.

Existe aí uma lição psicológica profunda. A saúde mental começa quando aceitamos nossa própria humanidade, nossa fragilidade, nossas “carnes” feridas.

Buscar terapia não é um ato de fraqueza espiritual. Pelo contrário, é um ato de coragem e de reverência à vida que lhe foi dada. Cuidar da mente é cuidar do templo.

Que neste Natal você possa ter fé. Mas que também tenha a coragem de deitar no divã e enfrentar os fantasmas que o impedem de viver a plenitude que a sua própria fé promete.

É sempre tempo de desatar nós e promover o diálogo espiritual e mental!

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.

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A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).

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