Elas leem mais e já mudam a literatura

Meninas mantêm uma relação mais constante com a leitura ao longo do tempo, enquanto meninos apresentam queda significativa quando deixam de contar com a mediação direta da escola. Nos períodos em que a estrutura escolar perde força, como férias e intervalos prolongados, a diferença cresce de forma evidente. A leitura permanece com elas e, entre eles, diminui.

Li isso no Correio Braziliense, matéria publicada no dia 04 de abril, escrita por Isabella Almeida, que aborda um estudo publicado na revista científica PNAS, que ajuda a compreender um movimento que há tempos se impõe no cotidiano literário, mas raramente é tratado com a precisão necessária. 

A pesquisa foi conduzida pela socióloga Ea Hoppe Blaabæk, da Universidade de Copenhague, e trabalhou com um volume expressivo de dados reais de comportamento. Foram analisados registros nacionais de empréstimos de livros em bibliotecas para 200.431 estudantes do 3º ao 5º ano do ensino fundamental na Dinamarca. O levantamento ainda cruzou informações do uso do aplicativo de leitura Book Bites por 24.539 alunos em 15 municípios dinamarqueses.

Esse comportamento, observado ainda na infância, ajuda a explicar por que o número de mulheres escrevendo e publicando aumentou de maneira clara nos últimos anos.

No Distrito Federal, esse movimento aparece de forma clara. Por exemplo, depois de muitos anos, uma mulher preside novamente o Sindicato dos Escritores. Na primeira vez, Meireluce Fernande, agora Ana Rossi (ambas também professoras). A maior parte da diretoria também é composta por mulheres. Nas academias de letras, a presença feminina também se tornou majoritária. 

Falo com base em experiência direta. Entrei no sindicato em 1995, aos 25 anos. Hoje, aos 56, ocupo um cargo na diretoria, depois de ter presidido a entidade e ocupado a vice-presidência em outra gestão e acompanho uma mudança concreta no perfil de participação. 

Quando surge uma demanda, são elas que organizam atividades, articulam parcerias, conduzem reuniões e garantem que as ações saiam do papel.

Os prêmios literários ajudam a dimensionar esse processo. O Prêmio Oceanos, que reúne autores de língua portuguesa, apresentou nos últimos quatro anos uma predominância feminina, com cerca de 66% das obras vencedoras assinadas por mulheres. 

O Prêmio São Paulo de Literatura mostra um cenário de equilíbrio, com 50% de autoras entre os premiados no mesmo período. O Prêmio Barco a Vapor, voltado à literatura infantojuvenil, também registra paridade, com metade das premiações destinadas a escritoras.

No caso do Prêmio Literário Biblioteca Nacional, considerando as principais categorias literárias dos últimos anos, o quadro já se aproxima de um equilíbrio consistente, com cerca de metade dos vencedores sendo mulheres. O mesmo ocorre no principal reconhecimento individual da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Machado de Assis, que alternou, no mesmo recorte recente, homens e mulheres em proporção equivalente.

Esses dados revelam um deslocamento evidente. Em alguns casos, a presença feminina já supera a masculina. Em outros, o equilíbrio se consolidou. O ponto central é que a literatura brasileira deixou de ser um território predominantemente masculino como foi durante décadas.

Fora do circuito dos prêmios, esse movimento é ainda mais visível. Editoras independentes, coletivos literários, clubes de leitura e eventos mostram uma presença feminina efetiva e fundamental.

Por isso, quando o reconhecimento internacional recai sobre uma autora brasileira, não se trata de um episódio isolado, mas de um processo em curso. 

Em 2025, a lista dos 100 melhores livros do ano do The New York Times incluiu Suíte Tóquio, de Giovana Madalosso, um feito raro para a literatura brasileira. 

Na mesma direção, a escritora Ana Paula Maia foi anunciada como uma das seis finalistas do International Booker Prize 2026, sendo a única representante do Brasil e da América Latina nessa etapa do prêmio, que reconhece obras de ficção traduzidas para o inglês e publicadas no Reino Unido ou na Irlanda.

O estudo dinamarquês oferece dados para compreender esse percurso desde a base. O que se vê hoje no Brasil é a consequência direta desse processo.

As meninas que seguem lendo quando ninguém cobra são as mesmas mulheres que, mais tarde, escrevem, publicam, organizam e nos enchem de orgulho com seu compromisso e os belos resultados de sua vida literária.

Marcos Linhares é jornalista, escritor, professor e biógrafo. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro e formação de autores. Foi presidente do Sindicato dos Escritores do DF e já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas. É autor premiado nos Estados Unidos. Criou prêmios, programas e ações voltadas ao direito autoral, ao livro e à democratização da literatura.
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