Cansaço ou “Burnout”? Como a Neurociência explica por que voc}ê vive na “Segunda-feira Eterna”

Você já sentiu que está repetindo a vida sempre do mesmo jeito? Como se estivesse preso num loop sem fim?

Quem não lembra do filme “Feitiço do Tempo”? Phil Connors (Bill Murray) é o meteorologista mais arrogante da TV, e ele despreza sua missão de cobrir o Dia da Marmota na pacata Punxsutawney. o universo decide lhe dar uma lição: Phil fica preso em um loop temporal, condenado a reviver o mesmo 2 de fevereiro infinitamente.

O que começa como uma oportunidade para o caos e o hedonismo (afinal, não há consequências!) logo se transforma em uma prisão existencial. Cansado de si mesmo, Phil é forçado a refletir e, finalmente, usar seu tempo infinito para se tornar uma pessoa melhor.

Todos temos nosso dia da Marmota. O alarme toca. Você abre os olhos e a primeira sensação não é de descanso, mas de déficit. O café parece não fazer efeito. As tarefas se acumulam. A quinta-feira chega com o peso de uma terça, e o domingo à noite já é, em si, o início de uma segunda-feira opressiva.
Se essa descrição soa familiar, você está vivenciando a “Síndrome da Segunda-Feira Eterna”.
É um estado de exaustão crônica que transcende o simples cansaço físico. É um esgotamento da alma. Popularmente, rotulamos isso como “Burnout”, uma palavra que, embora útil, muitas vezes esconde a real profundidade do problema.
Quando confrontados com esse esgotamento, nossa primeira reação é buscar soluções pragmáticas. Baixamos aplicativos de gerenciamento de tempo. Tentamos “pensar positivo”. Prometemos a nós mesmos que vamos “desconectar” no fim de semana. Praticamos a gratidão forçada, tentamos meditar por 10 minutos e, quando tudo falha, culpamos a nós mesmos: “Não sou disciplinado”, “Não tenho foco”, “Sou fraco”.
O ciclo se repete. A segunda-feira eterna continua.
Essas “soluções” falham inevitavelmente porque elas tratam o “Burnout” como um problema de gestão ou de atitude. Elas ignoram a verdade fundamental: o esgotamento não é um problema de agenda; é um problema neurobiológico.

Como pesquisador em neurociência e saúde socioemocional, posso afirmar que seu cérebro não diferencia, em nível químico, o estresse de uma “deadline” impossível do estresse de uma ameaça física real.
Nosso sistema nervoso possui dois modos principais: o simpático (luta ou fuga) e o parassimpático (descanso e digestão). O sistema simpático evoluiu para nos salvar de perigos imediatos – um predador na savana. Ele inunda o corpo com cortisol e adrenalina, preparando-nos para reagir.
Na vida moderna, o “predador” mudou. É a notificação do Teams às 22h. É a caixa de e-mails que nunca esvazia. É a pressão por performance constante. É a comparação incessante nas redes sociais.
O problema é que, diferentemente do predador que vai embora, essas ameaças são constantes.
Seu cérebro, portanto, nunca recebe o sinal de “tudo limpo”. Ele permanece em estado de alerta máximo, 24 horas por dia. O sistema simpático não desliga mais. Você vai dormir “em alerta”, acorda “em alerta”.
Isso não é estresse. A palavra correta é trauma. Não o trauma de um evento único e devastador, mas o “trauma do cotidiano” – um gotejamento lento e constante de cortisol que inflama o corpo e exaure o sistema nervoso.

A “Segunda-Feira Eterna” é o nome que damos à sensação de viver com um sistema nervoso que fisicamente não consegue mais acessar o modo “descansar”. Você não está cansado do seu trabalho; seu corpo está exausto de lutar por sua vida, metaforicamente, todos os dias.

É aqui que as soluções de autoajuda falham. Tentar “pensar positivo” para curar um sistema nervoso inflamado pelo trauma é como tentar consertar um osso quebrado com um curativo (Band-Aid).
O pensamento positivo e a gestão de tarefas ocorrem no córtex pré-frontal – a parte lógica e executiva do cérebro. O trauma, no entanto, está alojado em estruturas mais profundas: o sistema límbico, especialmente a amígdala (o centro do medo).
Você não pode convencer logicamente a sua amígdala a se acalmar.
É por isso que você pode tirar férias e, no segundo dia, já estar ansioso com a volta. As férias removeram o gatilho (o trabalho), mas não curaram o mecanismo (o cérebro em alerta). Você apenas levou seu sistema nervoso exausto para passear na praia.

Se a lógica não funciona, o que funciona?
A resposta é tão antiga quanto a própria humanidade, mas agora é validada pela neurociência: a fala.

Não qualquer fala. Não a conversa de bar ou o desabafo com um amigo (embora ajudem). Mas a fala estruturada, escutada e direcionada que ocorre em um processo psicanalítico.
Quando falamos sobre nossas angústias, nossos medos e nossas experiências traumáticas em um ambiente seguro, guiados por um psicanalista, fazemos algo neurologicamente poderoso. Nós “religamos” o cérebro.
O ato de nomear o sentimento, de construir uma narrativa para o nosso sofrimento, permite que o córtex pré-frontal (lógica) finalmente se comunique com o sistema límbico (emoção). A psicanálise funciona como uma “ponte” neural.
Ao falar, não estamos apenas “colocando para fora”. Estamos metabolizando o trauma. Estamos, literalmente, ensinando o cérebro a reclassificar aquela experiência. Aquele e-mail ameaçador ou aquela reunião desastrosa saem do arquivo de “perigo iminente” e passam para o arquivo de “memória processada”.

É um processo de “digestão” psíquica. O cortisol baixa. A amígdala se acalma. O sistema parassimpático (o descanso) finalmente tem permissão para assumir o controle. É dar voz ao que foi silenciado: o corpo e o desejo.

O ciclo da “Segunda-Feira Eterna” não é quebrado com um novo aplicativo de agenda. Ele é quebrado quando o sistema nervoso aprende a descansar novamente. E ele só aprende a descansar quando os traumas que o mantêm acordado são ouvidos, nomeados e compreendidos.
Se você está cansado de gerenciar sua exaustão, a resposta pode não estar em mais um “hack” de produtividade. Pode estar no trabalho mais antigo e profundo que existe: a escuta de si mesmo.
Sempre é tempo de desatar nós, para encerrar ciclos de repetição!

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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