O aumento de alertas sobre uma possível relação entre próteses mamárias e câncer tem gerado dúvidas entre mulheres que já fizeram implante ou consideram a cirurgia. Em meio à circulação de informações imprecisas nas redes sociais, especialistas destacam a importância de diferenciar evidências científicas consolidadas de interpretações equivocadas.
De acordo com o cirurgião plástico médico Régis Ramos, estudos realizados em diferentes países mostram que os implantes mamários, sejam de silicone ou de solução salina, não aumentam o risco do câncer de mama mais comum, aquele que se origina nos ductos ou nas glândulas mamárias. O consenso científico atual indica que a presença da prótese não está associada ao aumento da incidência desse tipo de tumor.
Esse entendimento também é compartilhado pelo médico João Marcelo Branco, que ressalta que o crescimento dos casos de câncer de mama observado nos últimos anos segue outra lógica. “É importante reforçar um ponto central: o aumento dos casos de câncer de mama não está relacionado ao uso de implantes de prótese mamária”, afirma. Segundo ele, esse avanço está mais ligado a mudanças no perfil metabólico da população feminina.
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Régis Ramos explica que a única condição associada aos implantes é rara e precisa ser apresentada com clareza para evitar interpretações equivocadas. “A comunidade médica internacional considera os implantes seguros quando há indicação adequada e acompanhamento regular. O que existe é a associação com uma condição muito específica, que não deve ser confundida com o câncer de mama tradicional”, afirma.
Trata-se do BIA-ALCL, sigla para Linfoma Anaplásico de Grandes Células Associado ao Implante Mamário. Diferentemente do câncer de mama clássico, esse quadro é um linfoma — um câncer do sistema imunológico — que se desenvolve na cápsula fibrosa formada naturalmente ao redor da prótese.
Segundo o médico, os casos costumam surgir anos após a cirurgia e levaram a ajustes nos protocolos de acompanhamento. A maior parte das ocorrências descritas até hoje está associada a próteses com superfície texturizada. A hipótese mais aceita é que esse tipo de material possa favorecer processos inflamatórios crônicos ou estimular respostas imunológicas locais, embora não exista uma causa única comprovada.
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Ao mesmo tempo, João Marcelo Branco chama atenção para fatores que têm relação comprovada com o câncer de mama. Ele explica que o aumento da incidência da doença acompanha o crescimento da síndrome metabólica entre as mulheres, condição marcada pelo acúmulo de gordura visceral e pela hiperinsulinemia. “Essa condição funciona como um verdadeiro combustível para o câncer de mama, sobretudo para os tumores estrogênio-dependentes”, afirma.
Alguns sinais relacionados ao BIA-ALCL merecem atenção, como aumento repentino e unilateral da mama, geralmente causado pelo acúmulo de líquido ao redor da prótese anos após a cirurgia, dor persistente ou surgimento de nódulos na região. Diante de alterações tardias, a orientação é procurar avaliação médica.
O diagnóstico envolve exames de imagem, como ultrassonografia e ressonância magnética, além da análise do líquido ou do tecido ao redor do implante. Quando identificado precocemente, o tratamento costuma ser cirúrgico, com retirada da prótese e da cápsula, apresentando alto índice de cura.
Para Régis Ramos, a prevenção começa na informação. “É essencial que a paciente converse com o cirurgião sobre os tipos de implante, riscos, benefícios e alternativas. O acompanhamento periódico é parte fundamental da segurança”, afirma. Ele ressalta ainda que a presença da prótese não impede a realização da mamografia, embora o exame possa exigir técnicas adaptadas ou ser complementado por outros métodos de imagem.
Já João Marcelo Branco avalia que o debate precisa ir além da prótese. “O foco não deve estar no implante mamário, mas no ambiente metabólico, nos hábitos de vida e em fatores externos, como pesticidas e outros agentes ambientais, que estimulam receptores hormonais e aumentam o risco de desenvolvimento do câncer na mulher”, explica.
Para mulheres que já têm implantes, a recomendação é manter consultas regulares, conhecer o tipo de prótese utilizada e não ignorar sintomas como dor, inchaço ou alterações inesperadas nas mamas. Segundo especialistas, informação qualificada, acompanhamento médico e atenção a fatores de risco conhecidos são hoje as principais ferramentas para reduzir riscos e evitar desinformação.



