O mês das Mulheres, nos convoca a uma tarefa que transcende a celebração efêmera: a tarefa da memória e da reinterpretação.
Para compreendermos a saúde mental das mulheres hoje, não basta olhar para o presente imediato; é preciso escutar os ecos das salas de Viena no século XIX e os corredores das instituições brasileiras na década de 1940. A história da psicanálise, muitas vezes narrada como uma sucessão de homens geniais, é, na sua gênese mais profunda, uma história de mulheres que ousaram transformar o silêncio em palavra.
A psicanálise não nasceu em um vácuo teórico. Ela nasceu do corpo. No final do século XIX, Sigmund Freud deparou-se com o enigma da histeria. O que a medicina da época rotulava como simulacro ou degeneração, a psicanálise acolheu como linguagem. Aquelas mulheres (Anna O., Emmy von N., Lucy R.) portavam sintomas que eram, em última análise, protestos simbólicos contra uma cultura que amordaçava o desejo feminino.
Ao abandonar a hipnose e os métodos sugestivos em favor da “cura pela fala” (talking cure), Freud não apenas descobriu o inconsciente; ele deu às mulheres o estatuto de sujeitos de seu próprio discurso. A histeria era o “nó” de um desejo que não encontrava lugar no mundo. Desatar esse nó exigia, pela primeira vez na história da ciência ocidental, que o homem silenciasse para que a mulher falasse. Ali, a clínica se fundou como um espaço de alteridade.
Se em Viena a questão era o desejo recalcado pela moral vitoriana, no Brasil, a psicanálise encontrou um novo nó: o trauma do racismo e da exclusão social. É aqui que emerge a figura de Virginia Leone Bicudo. Primeira mulher a se analisar no Brasil e membro fundadora da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, Bicudo transpôs o divã para a sociologia e para a educação.
Virginia, uma mulher negra em um campo majoritariamente branco e médico, utilizou a ferramenta analítica para realizar o que hoje chamamos de decolonização do inconsciente. Em sua obra pioneira de 1945, ela demonstrou como o preconceito racial fere o narcisismo e fragmenta a identidade. Para Bicudo, a saúde mental não era um estado abstrato, mas uma conquista política e subjetiva. Ela personificou a transição da “paciente” para a “analista”, daquela que é ouvida para aquela que organiza a escuta de uma nação. Sua trajetória é a prova de que a psicanálise brasileira já nasceu com um compromisso ético com a cultura e a justiça social.
Para costurar essas trajetórias, a fenomenologia hermenêutica de Paul Ricoeur nos oferece um conceito vital: a identidade narrativa. Ricoeur argumenta que o sujeito não é uma essência imutável, mas o resultado das histórias que conta sobre si mesmo. Somos, simultaneamente, leitores e escritores de nossa própria biografia.
Ricoeur distingue a identidade idem (aquilo que permanece igual, como nossos dados biológicos) da identidade ipse (a nossa capacidade de manter a palavra dada e de nos reinventarmos no tempo). Para a mulher contemporânea, essa distinção é libertadora. O passado de opressão ou os traumas herdados — o que Freud chamaria de determinismo inconsciente — não são a última palavra. Através da narrativa, podemos reinterpretar nossas dores.
A saúde mental, sob a ótica de Ricoeur, é a recuperação do “Poder-Agir” (L’homme capable). Como ele mesmo afirmou: “É na iniciativa que o ser humano se descobre como um começo”. Ser mulher em 2026 é, portanto, reivindicar o direito de ser um começo, rompendo com as narrativas de insuficiência que o mercado e a cultura tentam impor.
Ao cruzarmos Freud, Bicudo e Ricoeur, identificamos cinco pontos críticos que definem o mal-estar feminino na atualidade:
O Esgotamento do “Ideal do Eu”: A era digital impõe um modelo de perfeição inalcançável. O conflito entre o “Eu real” e o “Eu ideal” gera um estado de melancolia constante, onde a mulher se sente sempre em dívida.
A Carga Mental como Sintoma Social: O cuidado continua sendo uma jornada invisível. O que Freud chamou de “renúncia pulsional” manifesta-se hoje na exaustão de mulheres que gerenciam a vida emocional de todos ao seu redor, negligenciando seu próprio desejo.
A Fragilidade das Redes de Apoio: A saúde mental requer a presença do “outro” (alteridade). O isolamento moderno, camuflado por conexões digitais, retira das mulheres o solo seguro da comunidade, essencial para a regulação psíquica.
A Reatualização do Trauma Colonial: Como ensinou Bicudo, o racismo e o machismo estrutural agridem a autoimagem diariamente. A clínica atual deve ser capaz de ouvir não apenas o complexo de Édipo, mas o complexo de opressão que adoece o corpo social.
A Crise da Temporalidade: O tempo da técnica é veloz; o tempo da alma é lento. A pressa em “curar-se” ou em “produzir” impede o processo de elaboração (o Durcharbeiten freudiano), resultando em crises de ansiedade que são, na verdade, pedidos de pausa.
Neste mês das Mulheres, a proposta é que olhemos para a psicanálise e para a filosofia não como dogmas distantes, mas como ferramentas de emancipação. A saúde mental não é a ausência de conflito, mas a capacidade de narrar esse conflito com dignidade.
Honrar Virginia Bicudo é entender que a nossa “pele” — nossa história, raça e gênero — é o ponto de partida para qualquer cura. Honrar Ricoeur é assumir a responsabilidade de sermos autores das nossas próximas páginas. E honrar as histéricas de Freud é nunca mais permitir que o nosso silêncio seja a condição para o saber de outrem.
Que cada mulher possa, ao se olhar no espelho da história, reconhecer-se não como um objeto de estudo ou de desejo alheio, mas como uma potência capaz de iniciativa.
Pois quando uma mulher desata um nó em sua própria história, ela afrouxa as amarras de toda a rede ao seu redor.
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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